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| De volta aos anos
1970? |
30/04/04 |
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Eu já tinha uma coluna praticamente pronta para entrar no ar,
mas a FIA me fez mudar de planos ao anunciar mudanças profundas
no regulamento da F 1 a partir de 2008. Elas ainda serão submetidas
ao Conselho Mundial da FIA no dia 30 de junho e, se aprovadas, entrarão
em vigor a partir de 2008, o primeiro ano sob um novo Pacto da Concórdia
– o documento altamente secreto que rege a Fórmula 1.
Seguem os trechos mais importantes do documento
divulgado pela FIA – quem quiser ver a íntegra pode
acessar o www.grandepremio.com.br:
“Nossas propostas têm seis objetivos
principais:
1) melhorar o espetáculo sem regras artificiais (grifo meu);
2) dar ênfase ao talento dos pilotos eliminando ajudas eletrônicas;
3) reduzir os custos das equipes de ponta;
4) reduzir substancialmente os custos das equipes menores;
5) encorajar a entrada de novos times na F-1 (grifo meu);
6) encorajar a formação de um grid com 24 carros.
“MOTORES
- V8, 2,4 litros
- máximo de 4 válvulas por cilindro
- motores para duas corridas de duração, com regras
claras de punição para casos de troca
- lista de componentes e materiais que podem ser usados no processo
de fabricação
- "centralina" única, controlada pela FIA
“TRANSMISSÃO, FREIOS E DIREÇÃO
- câmbio manual com controle eletrônico de rpm para
evitar quebras
- embreagem manual
- banimento de diferenciais eletrônicos
- banimento de sistemas de direção hidráulica
- discos, pastilhas e pinças de freios padronizadas
“Chassis:
- Limite de peso reduzido em pelo menos 50 kg para eliminar os lastros,
perigosos em casos de acidente
- pacote pneu/aerodinâmica a ser publicado até 31 de
dezembro de 2004 para se chegar a certos limites de velocidade em
curvas, retas, aderência e performance de freios, com o novo
peso mínimo sendo levado em consideração
- largura reduzida nos pneus dianteiros e aumentada nos traseiros
para permitir uma nova distribuição de pesos sem lastros
e aumentar o arrasto aerodinâmico
“REGULAMENTO
ESPORTIVO
- carro-reserva proibido durante todo o fim de semana de GP
- carros sob regime de Parque Fechado durante o fim de semana de
GP
- apenas um fornecedor de pneus, com todos os aspectos esportivos
do contrato sob supervisão da FIA
- drástica redução de testes privados, limitados
por quilometragem no lugar do número de dias, controlados
pelas "centralinas" da FIA
- dois jogos de pneus idênticos para classificação
e corrida, apenas
- Treinos de sexta: pacote que assegure que os carros andem, possivelmente
com a inclusão de um treino classificatório
- Novo sistema de classificação a ser discutido com
equipes, promotores de corridas e emissoras que detêm os direitos
de TV
- Proibição de troca de pneus durante a corrida, exceto
em caso de furos; reabastecimento continua
- Pontos no Mundial de Construtores sendo válidos para quatro
carros (duas equipes) por construtor, para encorajar as equipes
maiores a fazer carros para equipes novas na F-1
“GERAL
- Nenhuma restrição à venda, aluguel ou troca
de chassis e componentes entre as equipes e as novas inscritas no
Mundial”
Há muitas bobagens no novo regulamento
e um verdadeiro tiro no espírito que sempre regeu a F 1.
Padronizar equipamentos ou tornar monomarca alguns itens (como pneus)
é coisa de categoria inferior. Não condiz em nada
com o espírito da categoria de incentivar a competição
no mais alto nível, em todos os sentidos. Outra bobagem,
esta perigosa, é proibir a troca de pneus (a não ser
em caso de furo) e manter o reabastecimento. Se um piloto sentir
desgaste anormal ou formação de bolhas em seus pneus,
não poderá parar para trocá-los: ou abandona
a corrida, ou continua com sérios riscos de sofrer um acidente.
Uma tremenda estupidez. Além disso, como será o procedimento
em caso de corridas com chuva?
Medidas como a proibição total
de uso de carro reserva, manutenção do regime de parque
fechado, motores para duas corridas de duração e uso
de apenas dois jogos de pneus por carro têm a clara intenção
de tentar conter custos. Se essas medidas, por si só, atingirão
o objetivo é algo que só poderá ser conferido
quando elas estiverem em prática. Até hoje, nunca
vi o custo da F 1 diminuir, só aumentar. Mesmo quando foram
tomadas decisões “radicais”. Pessoalmente, e
por motivos outros, não concordo com nenhuma delas.
A diminuição da cilindrada (de
3.000 cm³ para 2.400 cm³) e do número de cilindros
dos motores parece ter como maior objetivo brecar a escalada de
potência e aumentar a segurança. O fato de a “receita”
ser a mesma para todos (motores com 8 cilindros em V) não
muda nada em relação ao que na prática já
acontece hoje, com todas as equipes usando motores V10. Só
que desenvolver motores novos custa caro. Evidentemente, vai levar
vantagem o fabricante que se dispuser a gastar mais nesse aspecto.
E a pretendida diminuição de custos sofre mais um
golpe...
Há medidas interessantes, como a possibilidade
de uma equipe comprar chassis de outras. Nesse caso, pode até
acontecer de haver mais de 24 carros no grid. Como o texto não
deixa claro se o almejado grid de 24 carros é um número
máximo ou mínimo, permito-me imaginar que poderemos
voltar a ter listas de inscritos com 30 ou mais carros, o que sem
dúvida deixaria o espetáculo bem mais interessante.
Alterações técnicas como a restrição
violenta no uso da eletrônica também pode (veja bem:
“pode”, o que é bem diferente de “vai”)
tornar as corridas bem mais disputadas do que são hoje. Mosley
deseja ver de volta aos carros as alavancas de câmbio acionadas
manualmente de volta aos carros. Muito romântico, mas pode
ser que em 2008 isso pareça tão anacrônico quanto
um carro equipado com carburador. Hoje em dia, a tecnologia dos
câmbios semi-automáticos como os da F 1 são
comuns em carros esportivos e já começam a chegar
também a modelos médios de luxo.
Bem ou mal, pelo menos a FIA “acordou”.
Depois de pelo menos uma década de arrogância, prepotência
e falta total de senso crítico, os senhores Mosley e Ecclestone
finalmente admitiram que é preciso atrair equipes para o
Mundial – e não impedir a entrada de novas e deixar
as que já existem irem à falência, como foi
a política dos últimos anos. Finalmente eles perceberam
que, se não fizessem algo concreto, a Fórmula 1 iria
para o brejo rapidinho.
O pacote técnico e esportivo apresentado
mostra claramente que a FIA inspirou-se na Fórmula 1 dos
anos 1970 e começo dos anos 1980, justamente a fase mais
competitiva e disputada da história da categoria. À
primeira vista, essa Fórmula 1 “retrô”
poderá ficar muito interessante. Podiam também retomar
a contagem de pontos que vigorou entre 1991 e 2002, ou pensar em
outra que respeitasse a proporção dela (20-12-8-6-4-3-2-1,
por exemplo).
Mas algumas frases do comunicado da FIA chamaram
bastante a minha atenção. São elas:
1) melhorar o espetáculo SEM REGRAS
ARTIFICIAIS (grifo meu);
2) motores para duas corridas de duração, COM REGRAS
CLARAS DE PUNIÇÃO PARA CASOS DE TROCA (grifo meu)
3) TREINOS DE SEXTA: PACOTE QUE ASSEGURE QUE OS CARROS ANDEM, POSSIVELMENTE
COM A INCLUSÃO DE UM TREINO CLASSIFICATÓRIO (grifo
meu)
4) NOVO SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO (grifo meu) a ser
discutido com equipes, promotores de corridas e emissoras que detêm
os direitos de TV
Essas frases mostram que:
1) A própria FIA admite que as regras baixadas no final de
2002 são artificiais, como eu escrevi tão logo elas
foram divulgadas (e recebi diversas críticas por isso);
2) A própria FIA admite implicitamente que as atuais regras
de punição para quem trocar motores ou fizer mudanças
nos carros após os treinos classificatórios não
são claras e podem dar margem a favorecimentos (como aconteceu
no GP do Brasil de 2003, com Kimi Raikkonen);
3 e 4) Os sistemas de treinos livres e classificatórios que
foram usados em 2003 e 2004 são verdadeiros fiascos –
como eu também escrevi desde o primeiro momento. Só
espero que não cometam a bobagem de querer definir o grid
com base na média das melhores voltas dos dois dias de treinos
em vez de simplesmente considerar o melhor tempo dos dois dias,
como acontecia até 1995.
Atrevo-me a dizer que a FIA chegou à
mesma conclusão que eu escrevi durante quase todo o ano de
2003: o atual regulamento é uma merda. Só me intriga
o fato de eles, bem mais experientes e que ganham bem para gerenciar
o automobilismo e a F 1 em particular, terem demorado um ano e meio
a mais do que eu para perceber isso.
Luiz
Alberto Pandini |
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| O
PROFESSOR DE QUÍMICA |
28/04/04 |
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No último GP de San Marino, quem subiu ao pódio para
receber o troféu dos construtores pela Ferrari foi o projetista
do F2004, o sul-africano Rory Byrne. Ele bem que poderia estar naquele
momento em casa, corrigindo provas, como parte de seu ofício
de professor de química em alguma escola de Johanesburgo. Mas
há mais de três décadas, para o bem da Fórmula
1, resolveu investir na sua paixão por automobilismo assim
que pegou o diploma de industrial químico e foi desenhar carros.
A categoria
já celebrou a genialidade de diversos projetistas. Colin
Chapman, dono de idéias revolucionárias e capaz de
desenhar um novo modelo em um guardanapo, durante um evento social,
é o mais famoso deles. Recentemente, creditou-se à
caneta de Adrian Newey um tetracampeonato mundial de pilotos, conquistado
entre 1996 e 1999 com carros da Williams e McLaren.
Para
mim, o maior de todos é Byrne. Olhem só alguns dos
feitos de seus carros. Foram 12 títulos mundiais, sendo seis
de pilotos e seis de construtores. E não vai demorar muito
para colocarmos os dois deste ano nesta conta. Com isto, ele vai
superar a marca de Chapman (treze títulos). Tem mais: 71
das 74 vitórias de Michael Schumacher foram em máquinas
suas (as três de 1996, primeiro ano do alemão na Ferrari
são a exceção). E 26 dos 27 triunfos da Benetton
também (ficou de fora o canto do cisne da equipe, a vitória
de Berger na Alemanha em 1997). Do lado sentimental, me reconforto
ao lembrar que o Toleman TG184 com que Senna assombrou o mundo tinha
a assinatura de Byrne. E que as três últimas vitórias
de Nelson Piquet na Fórmula 1 foram em carros do sul-africano.
Não há dúvidas que o melhor
chassi desta temporada é o da Ferrari, embora a grande maioria
vesga da mídia aponte o BAR006 como merecedor deste título.
Foi assim no ano passado com o carro da Renault. Mas não
há porque se enganar. Em todos os circuitos da temporada,
os carros vermelhos já marcam tempos extremamente competitivos
nos primeiros minutos dos treinos de sexta-feira, um sinal incontestável
de um chassi versátil e eficiente.
Curioso é ver que Byrne não deixa
a desejar quando se fala em aerodinâmica. Embora
a área não seja sua especialidade, ele é pródigo
em criar soluções originais (é só lembrar
a curiosa asa traseira dupla que a Toleman usou em algumas corridas
de 1984 ou o apêndice aerodinâmico nas laterais da entrada
de ar do F2004). Suas teorias são bastante diretas e simples,
e surgiram de um passatempo adolescente. Aos 16 anos de idade, o
sul-africano construía e competia com planadores em miniatura,
destes que você lança com a mão. O segredo:
“obter o máximo de força com o mínimo
de peso; o máximo de elevação com o mínimo
de arrasto”, afirma. Em um Fórmula 1, bastou inverter
o que fazia para manter a elevação de seus planadores
para obter carros com ótima pressão aerodinâmica,
embora os insucessos da Ferrari no ano passado em Mônaco e
Budapeste sugerem que ainda há o que melhorar quanto à
isto. Ninguém é perfeito.
Mas porque, com um currículo tão
impressionante, o projetista não é tão badalado
quanto seu colega Adrian Newey, por exemplo? A resposta está,
com toda a certeza, em seu absoluto horror aos holofotes. Quando
não está em Maranello trabalhando, Byrne se refugia
em uma praia na Tailândia, terra natal de sua esposa, onde
possui uma escola de mergulho. O projetista detesta dar entrevistas,
quase nunca as concede e, provavelmente, pouco se importa que o
mundo festeja a genialidade de Michael Schumacher e pouco fala de
seus carros.
Um
perfil curiosamente oposto ao de outro gênio sul-africano
das pranchetas: Gordon Murray, desenhista da Brabham por diversos
anos e pai do genial McLaren MP4/4, de 1988. “Um piloto e
um construtor estão no mesmo nível. Um não
é nada sem o outro”, fazia questão de dizer.
Mesmo assim, consta que Nelson Piquet gostou muito de trabalhar
com ambos. Manter um canal de diálogo intenso com os projetistas
sempre foi um dos pontos fortes do piloto brasileiro, passando diversas
informações úteis para que estes extraiam o
máximo de seus trabalhos, algo especialmente importante na
F-1 pré-informática.
Mas, voltando à Byrne, o fato dele ter
sido o escolhido por Jean Todt para receber o troféu em Ímola
foi sintomático. A corrida é como um GP caseiro para
a Ferrari, e todos na equipe sabem que o verdadeiro prazer do projetista
é se enfurnar na fábrica de Maranello, comandando
a equipe de projetistas no desenvolvimento do carro com a mesma
paixão com que um bom professor de química orienta
seus alunos em aulas no laboratório.
Um abraço e até a próxima
semana!
Luis
Fernando Ramos |
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DECISÃO NA
1ª VOLTA
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25/04/04 |
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Quatro nesta temporada mais três nas últimas corridas
de 2003, sete vitória seguidas da Ferrari, 100% de aproveitamento
depois que a equipe denunciou à Fia irregularidades nas medidas
dos pneus Michelin.
Apenas
uma coincidência?
///
O
diretor da transmissão de TV de Imola deveria ter sido sumariamente
demitido já na primeira volta. Graças à incompetência
crassa dele não pudemos ver em detalhes a disputa de posição
entre Schumacher e Montoya a partir da aproximação
da Villeneuve até a saída da Tosa e a sequência
dos acontecimentos, envolvendo Ralf.
Foi uma das disputas mais violentas de posição
que jamais vi. Montoya tentou passar Schumacher por fora na Tosa
e foi jogado para fora, sem maiores considerações
(por uma manobra que a mim pareceu quase igual, Ralf foi punido
no Bahrein).
Montoya conseguiu voltar mas o fez de maneira
intempestiva, forçando Ralf a colocar
as quatro rodas dos seu Williams na grama em plena aceleração
e, mesmo assim, conseguiu retornar perdendo apenas uma posição.
Também não foi possível
ver em detalhes o que aconteceu no toque entre Ralf e Alonso na
fase final da corrida. Ficou a impressão de que o alemão
tentou fechar a porta e tomou uma invertida esperta do espanhol.
Imola, aliás, foi pródiga nestas
manobras assustadoras, que desafiam os frágeis limites da
ética esportiva.
Pode-se dizer que a vitória de Schumacher
se tornou possível porque ele fechou de forma tão
taxativa Montoya na primeira volta. O resultado desta e de outras
corridas mostra como é importante hoje em dia largar na frente
e resolver as coisas logo na primeira volta.
Arriscar tanto assim, em manobras no limite
ou além do limite da esportividade e do bom senso, só
se tornou possível porque os pilotos têm muita confiança
nas condições de segurança dos seus carros,
como observou recentemente sir Jack Brabham. Até os anos
80, lembrou o australiano, estas condições não
existiam. Arriscar deste jeito era colocar o próprio pescoço
e o dos companheiros em risco. Resumindo: a tecnologia torna a ética
e a esportividade mais elásticas, mais discutíveis.
É um bom resumo do mundo em que vivemos.
///
também é um bom resumo do ponto
a que chegamos a ausência de uma menção simples
que fosse a Roland Ratzenbeger naquela bandeira pateticamente amarrada
ao Lotus pilotado por Gehard Berger, como se ele não fosse
capaz de pilotar o carro com uma mão só.
///
Voltem a fita, liguem o slow motion e notem
os movimentos da mão direita de Schumacher durante a largada.
Ele acionou a embreagem atrás do volante
com suavidade, apenas com a ponta dos dedos e, enquanto olhava para
a esquerda, vigiando os movimentos da oposição, levou
a mão sem pressa para a posição certa do volante,
enquanto acertava a trajetória do carro.
Acho que estava pensando: "deixa o inglesinho
sentir um pouco o gosto da liderança; depois eu passo ele
nos boxes". E também: "lá vai o idiota do
Montoya jogar mais uma corrida fora por uma largada desgraçada
e ainda segurando o Ralf e o Rubinho para mim. Obrigado, otário."
///
Escrevo
estas linhas sem saber qual a explicação de Rubinho
para a sua corrida latrinária.
Espero, sinceramente, que ele possa alegar
que o seu carro estava correndo apenas com metade das marchas ou
com outro problema tão grave quanto. O melancólico
sprint final que tentou sobre Trulli, porém, me faz temer
pelo pior: que ele tenha sido apenas incapaz de fazer este Ferrari
de outro planeta render minimamente igual ao de Schumacher.
E isso no momento em que, teoricamente, Rubinho
está liberado para disputar a vitória com o alemão
///
E palmas para a Bar e Jenson Button que eles
merecem.
O inglês é, nesta altura, o que
Alonso foi no ano passado. Com 23 pontos, ele só não
é vice-líder do campeonato por Rubinho ter herdado
por pura sorte o 6º lugar com a rodada de Ralf. No ano passado,
para quem não se lembra, Button marcou 17 pontos.
E a Bar é a prova de que as pessoas
são capazes de aprender. No ano passado inteiro, a equipe
somou 26 pontos, marca já superada em 2004. Mais quatro corridas
neste ritmo e a equipe se tornará a franca favorita ao vice-campeonato
de 2004.
///
E a McLaren poderá se dar por feliz
em terminar o ano como 5ª colocada no Mundial de Construtores
e nós de ver em Interlagos a decisão do 3º lugar
no Mundial de Pilotos.
///
Cristiano Da Matta, graças à
incompetência da Toyota, está queimando as suas chances
de sonhar com algo melhor na Fórmula 1 do que fazer mais
uma ou duas temporadas por equipes médias. Que ninguém
se iluda: ele será cobrado pela falta de resultados da sua
equipe, mesmo que não seja responsável por isso.
E travar o limitador de velocidade, para mim,
é novidade. O que mais a equipe será capaz de inventar?
///
Massa, do pouco que foi visto na corrida, não
tem nado do que se orgulhar.
Seu carro é muito fraco, a despeito
de ser empurrado por um motor Ferrari teoricamente igual (me engana
que eu gosto) ao do vencedor mas ter chegado atrás de Fisichella,
que largou em último lugar, não é um resultado
aceitável para quem sonha em ocupar um lugar na Ferrari.
No momento devido, ele também será
cobrado pela falta de resultados com a diferença que é
dez anos mais jovem do que Da Matta.
///
Gostei - e estou falando sério - da
forma como Max Mosley definiu os objetivos da reforma da Fórmula
1 proposta para 2008. Resumidamente: melhorar o espetáculo
sem regras artificiais, dar ênfase ao talento dos pilotos
eliminando ajudas eletrônicas, reduzir custos e formar um
grid com 24 carros.
O pré plano de Max encaminha soluções
que me parecem inadiáveis, como a redução
do desempenho geral dos carros e a consequente melhora das condições
de segurança. Impressionante o feito de Schumacher em melhorar
em mais de um segundo o recorde da volta em Imola logo no começo
da prova - e usando um motor que deve aguentar o dobro de quilometragem
dos motores do ano passado.
A segurança vem em primeiro lugar, não
podemos nos esquecer disso em momento algum, tanto mais às
vésperas dos dez anos dos acidentes que vitimaram Ratzenberger
e Senna.
Comento mais sobre isso em minha próxima
coluna.
///
Termino pedindo desculpas aos leitores pelas
falhas na atualização do site na quinta e sexta-feiras
e desejando uma boa semana a todos.
Eduardo
Correa |
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Aconteceu no último domingo a primeira etapa do Deutsch Tourenwagen
Masters, ou DTM para os íntimos, o campeonato alemão
para carros de turismo. Como de costume, uma corrida emocionante,
com diversos pegas e uma constatação: vai ser difícil
derrotar os Mercedes C-Klasse da equipe oficial de fábrica.
Não fossem os abandonos de Jean Alesi (problemas no assoalho)
e Bernd Schneider (suspensão), estes carros ocupariam as quatro
primeiras posições ao final da prova. A vitória
ficou com Gary Paffett, de quem sou fã desde que o acompanhei
na Fórmula 3 Alemã, há dois anos. O jovem inglês
é um daqueles pilotos que são rápidos em qualquer
coisa que possua quatros rodas. Garanto que, assim que as portas da
Fórmula 1 se abrirem, ele nunca mais vai sair de lá.
E fará a galvanística mídia inglesa esquecer
Jenson Button rapidinho. Após
a cerimônia do pódio, quem exibia um enorme sorriso
entre suas gordas bochechas
era Norbert Haug. Finalmente, um raio de luz em meio à maior
crise esportiva da Mercedes desde a tragédia de Le Mans em
1955 e o fiasco nesta mesma pista em 1999, com os carros voadores
de Mark Webber e Peter Dumbreck. O péssimo desempenho na
Fórmula 1 indica que cabeças vão rolar pelos
lados de Stuttgart e nem mesmo Haug pode se sentir livre de perigo.
Quatro pontos em três corridas e o quinto
lugar no Mundial de Construtores foram o suficiente para iniciar
uma chuva de críticas por parte da mídia alemã.
Nos dez anos da parceria entre McLaren e Mercedes, este é
de longe o pior início de temporada da equipe. Nem em 95
e 96, quando não venceu corridas, a McLaren estava tão
mal após três GPs: quarto lugar em ambos os anos, com
6 e 5 pontos, respectivamente (ou 12 e 11, de acordo com o novo
sistema de pontuação).
Se
os números são alarmantes, o que dizer da própria
performance? Nenhuma equipe vêm poupando tanto os motores
nos treinos livres como a McLaren. Para nada. Nas três etapas,
as flechas de prata completaram em média 400 quilômetros
antes da corrida. Quem andou mais na Austrália foi a Jordan
(600 km); na Malásia foi a vez da Renault (615 km) e a Toyota
liderou a quilometragem no Bahrein (650 km). Mesmo com a precaução,
já foram quatro unidades quebradas nas mãos de Kimi
Raikkonen e uma com David Coulthard.
“São diferentes os motivos para
cada abandono”, é o que diz Haug. “Tenho certeza
de que vamos solucionar os problemas. Antes destas quebras, inúmeros
motores completaram 800 km tanto no carro como no banco de provas.”
Mas o dirigente sabe que melhorar a confiabilidade do equipamento
é apenas um primeiro e pequeno passo para sair da crise,
já que a Mercedes está atrás das rivais também
em termos de potência.
Resta saber até quando vai durar a paciência
dos chefões da empresa que, por sinal, também está
na lama economicamente. Desde que a Daimler se fundiu com a Chrysler,
em 1998, suas ações se desvalorizaram em 51%. Outro
erro foi assumir 37% das ações da Mitsubishi: os japoneses
acabaram de assumir uma dívida de mais de dois bilhões
de dólares para sanar alguns custos. O dia D na fábrica
de Stuttgart será o próximo feriado de 1° de maio,
quando Wolfgang Bernhard assume o comando da Daimler-Chrysler, substituindo
o fã de corridas Jürgen Hubbert.
É pouco provável que Bernhard
tome a drástica decisão de sair da Fórmula
1. O que a mídia alemã espera, pelo contrário,
é uma presença mais contundente da Mercedes na McLaren.
Ninguém no país jamais perdoou a passividade da fabricante
de motores em aceitar que Ron Dennis reservasse por tanto tempo
um cockpit para o fraco David Coulthard. Sem falar no fracasso dos
dois últimos projetos de Adrian Newey, um dos quais jamais
chegou a competir.
A imagem elitária da equipe também
não agrada ao público e já existe pressões
para
que tanto Norbert Haug como Ron Dennis saiam de cena, deixando o
posto de líder para alguém com mais carisma e simpatia
(seguindo o exemplo da união BMW e Gerhard Berger). O problema
é que Dennis, junto com seu parceiro Mansour Ojjeh, é
dono de 60% da McLaren. A parte inglesa da equipe também
quer retirar espaço dos alemães e já se move
para colocar o gerente comercial Martin Whitmarsh à frente
da Ilmor, no lugar do engenheiro que a Mercedes mandou para a fábrica
na Inglaterra, Hans-Ulrich Maik.
Assim, enquanto lutam para solucionar os problemas
de chassi e de motor, McLaren e Mercedes se preparam para encarar
uma feroz briga pelo poder interno. Pode ser o ingrediente que falta
para acabarem de mãos dadas no fundo do abismo do fracasso,
lutando na pista e na tabela para se manter à frente de Sauber,
Jaguar e Toyota. Um golpe fatal no orgulho de duas empresas que,
acima de tudo, detestam perder.
+++
Para terminar, uma dica para quem anda bocejando
com a falta de competitividade na Fórmula 1. Após
quatro etapas, o Mundial de Rali tem os quatro primeiros colocados
(todos representando diferentes marcas) separados por apenas quatro
pontos. Se a categoria não é transmitida ao vivo em
nenhum lugar do mundo, não dá para perder os boletins
do WRC, com imagens incríveis e várias explicações
técnicas ao longo dos programas para deixar o espectador
a par das minúcias desta fascinante modalidade. No Brasil,
o boletim passa no canal a cabo AXN. Vale a pena acompanhar também
pela Internet, no site oficial da categoria (www.wrc.com), e se
inteirar sobre os bastidores em revistas especializadas, como a
Universo Rally.
Abraços e até a próxima
semana!
Luis
Fernando Ramos |
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Os bastidores da entrevista
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19/04/04 |
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As fitas cassete ficaram largadas pela casa por quase dez anos.
Eu as gravara na noite de 5 de janeiro de 94,
em quase duas horas de conversa pelo telefone com Ayrton Senna,
reunindo material para o meu livro Fórmula 1, Pela Glória
e Pela Pátria, que seria lançado em março daquele
ano.
Eu
havia pedido a entrevista a Leonardo, irmão de Senna, em
setembro de 93, no auge da temporada. Como eu não poderia
ir à Europa, teria de aguardar pela vinda de Senna ao Brasil.
Leonardo naturalmente não podia me prometer uma data mas
garantiu: o irmão iria me procurar.
Procurou, de fato. Na hora do almoço
do dia 5 de janeiro, eu estava em minha sala, nos escritórios
na Rede Globo, em São Paulo, quando ouvi o telefone tocar.
Atendeu um contínuo – a única outra pessoa por
ali, além de mim -, que me avisou: “é para você”.
Atendi:
_ Eduardo? É o Ayrton.
Nada de secretária, nada de intermediário,
ele mesmo ao telefone. Estava preocupado com o meu prazo. De fato,
eu estava em cima da hora para entregar os originais à editora.
Senna não sabia quando poderia vir a São Paulo e perguntava
se não poderíamos conversar por telefone, mesmo sabendo
que não seria uma conversa rápida. Poderia, claro,
mas, num ato temerário, disse a ele que não estava
pronto para fazer a entrevista naquele momento. Poderia ser à
noite?
Concordou, meio a contragosto, anotando o telefone
da minha casa e prometendo ligar depois das 22h. Pensei que tinha
jogado minha oportunidade pela janela.
Mas ele cumpriu a palavra; ligou e não
teve pressa em desligar. Me contive em lhe dirigir umas dez perguntas.
Ele as respondeu de uma forma surpreendentemente franca e minuciosa.
Ao contrário de outros pilotos que entrevistara nos meses
anteriores, Senna tinha uma memória precisa, dando o devido
valor aos seus feitos mas sem trair o mais remoto traço de
vaidade ou deslumbramento. Não tenho ilusões que uma
ou outra resposta foi sutilmente distorcida ao seu próprio
favor – ninguém, nem mesmo Senna, resiste à
tentação de retocar a própria biografia. Não
o contestei, não polemizei. Não era o meu papel, não
era o meu desejo.
Terminamos a conversa por volta da 1h da manhã
com a vaga promessa de nos encontrar em Interlagos, meses depois,
durante
o GP. O encontro nunca aconteceu.
Eu estava nos boxes no domingo pela manhã,
uma bela credencial de livre trânsito cedida pelo Fernando
Calmon, diretor de Auto Esporte, pendurada no pescoço mas
o meu senso de medida me conteve. O clima na Williams já
não era dos melhores e Senna certamente já tinha gente
demais atrás dele.
Tive nova chance um ou dois dias depois, durante
um evento no qual ele era o principal convidado mas, de novo, havia
muita gente por perto. Preferi dar uma carona para Maurício
Gugelmin até o hotel dele.
Depois, tudo se precipitou e a mim só
restou render homenagens a Senna quando seu corpo descia a Avenida
23 de Maio, em São Paulo, em meio a oito Dragões da
Independência montados em cavalos brancos.
///
O grande repórter aqui se preparou para
a entrevista com Senna estudando dezenas de livros, revistas e vídeos
mas esqueceu de providenciar um microfone apropriado para captar
o som do telefone.
Assim,
não tive outro remédio que não segurar o meu
gravador próximo ao bocal do telefone durante quase duas
horas, o que me rendeu um torcicolo e uma péssima qualidade
de áudio. E quem paga o pato são vocês, leitores,
que terão de decifrar a voz de Senna nas gravações
que disponibilizo a partir de hoje aqui no GPTotal.
E acreditem: o som estava ainda pior. Melhorou-o
e bastante o trabalho do amigo David Mazzuca Neto, do estúdio
Avant Garde. Durante alguns meses, ele lutou contra as fitas com
ajuda de softwares e dicas de amigos, tornando o som um pouco mais
audível, ainda que consideravelmente mais metálico.
Terminado o trabalho de David, editei cada
pergunta, usando um software Sound Forge e contando com ajuda da
minha filha Letícia, de Abrahan Aguiar e Alexandre Ganzella,
dois craques em informática. A amiga Alessandra Siqueira
deu uma mão na transcrição das fitas. Maurício
e Dani finalizaram o trabalho que está agora nas mãos
de vocês.
São, ao todo, treze perguntas que serão
publicadas às segundas, quartas e sextas, de hoje até
dia 14 de maio.
Espero que o trabalho tenha valido à
pena.
Na próxima 4a-feira, Senna fala sobre
sua vitória em Portugal 85
Eduardo
Correa |
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Escrevo esta coluna com uns dois anos de atraso. Mencionei por alto
o tema em alguma oportunidade prometendo voltar ao assunto “em
breve” – e esqueci completamente da promessa. No final
do ano passado, ela foi gentilmente cobrada por um de nossos leitores,
Annibal Magalhães, a quem agradeço pela paciência.
Garanto que a espera não foi em vão. Muito
do relato a seguir foi publicado na revista brasileira Auto Esporte
número 16, de fevereiro de 1966. O texto foi escrito por
Antônio Carlos Scavone, que se tornaria organizador e promotor
das temporadas internacionais de F-Ford, F 2 e F 3 realizadas no
Brasil entre 1970 e 1972, e dos GPs do Brasil de F 1 de 1972 e 1973.
Scavone foi um dos mortos no famoso acidente do avião da
Varig no aeroporto de Orly, na França, em julho de 1973.
Seu desaparecimento prematuro privou o automobilismo brasileiro
de um personagem que poderia ter contribuído com enormes
avanços na área promocional.
Em seu artigo, Scavone esclarece que boa parte
do conteúdo foi extraído de um capítulo do
livro “Speed was my life” (“A velocidade foi a
minha vida”), escrito por Alfred Neubauer, o chefe da equipe
de competições da Mercedes-Benz entre as décadas
de 1930 e 1950. O capítulo em questão tem o sugestivo
título “The race that was rigged” (“A corrida
que foi uma fraude”).
Em
1933, a Líbia era uma colônia da Itália. A autoridade
máxima da colônia era o marechal Italo Balbo. Decidido
a promover o “império romano” sonhado pelo ditador
Benito Mussolini, Balbo decidiu promover um Grand Prix na capital,
Tripoli, onde algumas corridas vinham sendo organizadas desde 1925.
O traçado era um dos mais rápidos do mundo: mais de
13 km de extensão, permitindo velocidades de mais de 200
km/h. A pista contornava um oásis no deserto de Mellaha e
tinha longas retas, algumas curvas bem abertas para a direita e
leves desvios para a esquerda, feitos a plena aceleração.
No segundo semestre de 1932, foi anunciada
a criação de uma loteria para o GP de Tripoli do ano
seguinte, que seria disputado em 7 de maio. Bilhetes foram vendidos
por toda a Itália ao preço de 11 ou 12 liras (minhas
fontes divergem sobre esse aspecto). Três dias antes da corrida,
foram sorteados 30 bilhetes, cada um representando um piloto. O
prêmio maior, é claro, seria destinado ao portador
do bilhete que correspondesse ao piloto vencedor. A título
de curiosidade, lembro-me que, no começo da década
de 1980, o governo brasileiro promovia uma loteria idêntica
aproveitando o GP do Brasil de F 1.
Também encontrei números diferentes
sobre a quantia que seria paga ao vencedor. No livro de Neubauer,
consta 7.500.000 liras. Mas Don Capps, colunista do site AtlasF1,
detalha que 1.200.000 liras ficaram com o Automóvel Clube
de Tripoli para pagamento de despesas; 550.000 liras foram destinadas
a pagar prêmios de largada e chegada; e 6.000.000 de liras
pagariam os prêmios aos portadores dos bilhetes correspondentes
aos três primeiros colocados (3.000.000 para o vencedor, 2.000.000
para o segundo e 1.000.000 para o terceiro colocado). Seja como
for, aponta Don Capps, “não era pouca coisa em 1933”.
A proporção entre os valores do bilhete e do prêmio
não deixa dúvidas quanto a isso.
Na noite anterior à corrida, o piloto
italiano Achille Varzi, um dos grandes astros da época e
um dos favoritos à vitória, foi procurado
em seu hotel (onde ficavam praticamente todos os participantes)
por um senhor baixo e careca. O homem apresentou-se como sendo Enrico
Brivio, comerciante de madeira da cidade de Pisa. Varzi estava acompanhado
por sua namorada (jovem e muito bonita, descreve Neubauer). O senhor
Brivio afirmou que precisava conversar a sós com Varzi, e
ela se retirou. Rivio explicou então que estava ali para
pedir a Varzi que que vencesse a corrida do dia seguinte.
“Não é difícil imaginar
a reação de Varzi”, escreveu Neubauer. “Ele
deve ter ficado surpreso com o fato de o sr. Rivio ter viajado de
Pisa para Tripoli para fazer-lhe um pedido tão óbvio.”
Mas em seguida Rivio mostrou ao piloto o bilhete da loteria com
o número que correspondia ao de seu carro. E em seguida entregou-lhe
um documento em que se comprometia a dar a Varzi metade do valor
do prêmio. Varzi, surpreso, agradeceu e prometeu “ver
o que poderia fazer”. Sabe-se que, tão logo o sr. Rivio
deixou o quarto, Varzi telefonou a Tazio Nuvolari.
Dia seguinte, 7 de maio de 1933. Uma tribuna
especial foi montada para 30 pessoas – os portadores dos bilhetes
sorteados. Entre eles, claro, estava o sr. Brivio. O governador
Italo Balbo baixa a bandeira da Itália (para quem não
sabe, a largada era dada com a bandeira nacional, ou com uma bandeira
quadriculada nas cores nacionais; somente em meados da década
de 1970 seria introduzido o sistema de luzes). Era o início
da maior farsa registrada na história das corridas de automóvel.
Nuvolari, Baconin Borzacchini e Giuseppe Campari assumem as três
primeiras posições, seguidos por Louis Chiron, Luigi
Fagioli, Henry Birkin e Piero Taruffi. Varzi tem problemas em sua
Bugatti e fica para trás, mas isso não parece aborrecê-lo.
Na
quinta volta, Campari (que atuava como tenor no teatro La Scala,
em Milão, e era sobrinho do fabricante do vermute Campari)
assume a liderança, seguido por Nuvolari e Birkin. Varzi
já estava quase um minuto atrás. Duas voltas depois,
Campari entra nos boxes sem qualquer sinal aparente de defeitos
em seu carro. Os mecânicos abrem o capô, mas um irritado
Campari comunica sua desistência. Minutos depois, é
visto sentado em um canto do box bebendo vinho chianti, sem qualquer
sinal de inconformismo.
Na 20ª volta, Nuvolari lidera seguido
por Borzacchini, Chiron, Birkin, Giorgio Battilana e Taruffi. Logo
depois, Varzi aparece em 7º e na 25ª volta é o
3º. Passa à frente de Chiron e Birkin, mas seu carro
tem defeitos de distribuição. O som do motor indicava
que dois cilindros não estavam funcionando. O mais lógico
seria parar para uma troca de velas e, mesmo perdendo de três
a cinco minutos, tentar uma recuperação. Mas Varzi
decide continuar em frente, mesmo com o carro falhando. Pode-se
imaginar a agonia do sr. Rivio naquele momento.
No final da 27ª das 30 voltas, a multidão
grita o nome de Nuvolari. Borzacchini diminui a velocidade e olha
para trás, procurando a Bugatti azul de Varzi. Entra mal
em uma curva, sai da pista, bate em um tambor de óleo vazio
(usado para demarcar a pista) e desiste da competição.
Não aparenta qualquer sinal de contrariedade.
Nuvolari entra na última volta com 30
segundos de vantagem sobre Varzi. Quando aparece na reta de chegada,
a multidão começa
a se calar: o Alfa Romeo vai perdendo velocidade até parar
a 300 metros da bandeirada. Nuvolari sai do carro e vai para o meio
da pista, berrando e acenando freneticamente para seus mecânicos:
“Estou sem gasolina! Estou sem gasolina!”. Os mecânicos
correm com latas de gasolina e as esvaziam no tanque do Alfa. Enquanto
isso, surgem Varzi e Chiron liderando um grupo de carros, todos
andando lentamente. O público volta a respirar fundo quando
Nuvolari parte para terminar a corrida. Recebe a bandeirada apenas
uma roda atrás de Varzi. A empolgação geral
faz esquecer que Chiron estava uma volta atrás. O 3º
lugar é da Maserati de Birkin, seguido pelas Alfa Romeo de
Battilana e Taruffi. Varzi, exausto, sai carregado do carro e recebe
seu prêmio. Um dos primeiros a dar-lhe parabéns é
um senhor careca e baixo que ninguém conhecia – Enrico
Rivio, é claro. A média do vencedor é de 163
km/h, enquanto que nos treinos o mais rápido fez 215 km/h
e o mais lento, 185 km/h.
Naquela mesma noite, Varzi, Nuvolari e Borzacchini
tomavam champanhe (a mais cara disponível) no restaurante
do hotel. Enquanto isso, começam os rumores. Na manhã
seguinte, os jornais especulavam sobre uma possível fraude
na loteria. A coisa assume proporções de escândalo
e as autoridades esportivas locais reúnem Varzi, Nuvolari,
Borzacchini, Campari, Birkin, Chiron e Battilana. O presidente da
comissão abre os trabalhos acusando diretamente “certos
pilotos” de terem feito antes da corrida um conluio para facilitar
a vitória de Varzi. Um dos dirigentes pergunta quem seriam
esses pilotos. O presidente cita Varzi, Nuvolari e Borzacchini,
lançando ainda “fortes suspeitas” sobre Campari
e Chiron.
A
intenção inicial era desclassificar todos e cassar
suas licenças. Fez-se silêncio na sala: eram os melhores
pilotos da Europa, e uma medida dessas significaria acabar com as
competições internacionais, tanto pela desmoralização
do esporte quanto pelo afastamento dos grandes nomes. Todos foram
somente advertidos. O sistema da loteria, porém, foi modificado:
do ano seguinte em diante, os 30 bilhetes passaram a ser sorteados
minutos antes da largada, com os pilotos já sentados em seus
carros.
+++
Aproveitando o clima, separei uma uma “boa”
história de escândalo também para quem aprecia
ralis.
Até algum ponto da década de
1960, o Rally de Monte Carlo era disputado com sistema de handicap.
O pretexto era equilibrar a disputa, mas a intenção
real era, na medida do possível, favorecer os carros franceses.
Foi assim, por exemplo, que a edição de 1961 teve
a vitória de um Panhard, cujas características jamais
lhe permitiriam ganhar um rally “normal”.
Nos anos seguintes, porém, as vitórias
no “Monte” ficaram com equipes e carros da Inglaterra.
Para 1966, os organizadores modificaram o handicap, tornando as
coisas ainda mais difíceis para a categoria na qual se enquadravam
os carros ingleses mais competitivos (Mini Cooper S e Ford Cortina-Lotus).
O rally começou e, ainda na segunda
fase, anunciou-se uma inspeção técnica com
exame especial de faróis e faroletes, que precisariam ser
de luz amarela (faróis de luz branca infringiam as leis de
tráfego francesas). Já se falava que os cinco carros
mais bem colocados até aquela altura (todos ingleses) estavam
ilegais por causa dos faróis. Só que a tal inspeção
não terminou antes do horário de saída para
a fase seguinte, a última da prova, e muitos pilotos partiram
sem saber se estavam ou não dentro do regulamento.
Durante a terceira e última fase, anunciou-se
a desclassificação de nove carros ingleses e de um
Simca, carro francês mas inscrito por ingleses. Motivo: as
lâmpadas de filamento duplo dos faróis dianteiros haviam
sido substituídas por outras de filamento simples de quartzo-iodo.
O rally terminou com três Mini Cooper
S, tripulados por Timo Makinen/Paul Easter, Rauno Aaltonen/Ambrose
e Paddy Hopkirk/Harry Liddon, nos três primeiros lugares,
seguidos pelo Ford Cortina de Roger Clark/Melia. Todos foram desclassificados
por causa dos faróis, e a vitória passou para o Citroën
DS 21 dos finlandeses Pauli Toivonen/Ensio Mikander. Toivonen declarou
a Makinen, também finlandês, que não queria
ganhar daquele jeito. E mostrou que isso era verdade ao não
comparecer à cerimônia de entrega de prêmios.
O príncipe Rainier também fez “forfait”,
algo inédito até então.
Exatos 20 anos depois, em 1986, Henri Toivonen,
filho de Pauli, venceu o Rally de Monte Carlo (a essa altura, já
uma prova de velocidade pura, como hoje) a bordo de um Lancia. Henri,
um dos pilotos mais promissores do Mundial de Rally, passou a ser
o maior favorito ao título. Quatro meses depois, ele e seu
navegador, o norte-americano Sergio Cresto, morreram durante o Rally
da Córsega (atual Rally da França) quando o Lancia
saiu da pista e se incendiou após bater em uma árvore.
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Luiz Alberto
Pandini |
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