PARTE II

EPÍLOGO


David Brabham largou na corrida do domingo. Foi a primeira vez na Fórmula 1 que uma equipe não se retirou de uma corrida após um de seus pilotos ter perdido a vida nos treinos. Ninguém falou mal. A decisão foi tomada em conjunto com a família Ratzenberger e todos consentiram que o próprio piloto teria preferido assim. Até o final da temporada, a Simtek correu com a inscrição “For Roland” na lateral da tomada de ar do motor.

O enterro ocorreu no dia seguinte ao de Ayrton Senna. O momento mais emocionante foi quando Niki Lauda pediu a palavra. “Querido Roland: todos que também participam de corridas entendem porque você amava tanto este esporte e arriscava sua vida por ele. E aos outros, que nunca participaram, não dá para esclarecer exatamente por isto”.

Berger admitiu que nunca havia visto tantas mulheres bonitas em um funeral e comentou: “eu gostava de seu jeito espontâneo de ser, de sua personalidade aberta, com aquela tranqüila felicidade que brota de dentro. Roland havia chegado perto de enriquecer realmente o cenário da Fórmula 1.”

Imaginar o que o piloto poderia ter alcançado se o acidente não acontecesse é um exercício interessante. Ele sempre andou no mesmo ritmo de seus companheiros dos tempos de Japão, gente como Irvine, Frentzen e Salo, todos com carreiras longas na F-1. Mas teria de superar um primeiro ano na segunda pior equipe do grid e, sem apoio financeiro, precisaria obter alguma performance realmente sensacional para conseguir um lugar em outro time melhor.

Nestes dez anos do trágico fim-de-semana de Ímola, seu nome foi relembrado e a ligação intrínseca de sua morte com a de Senna comprovada. Mas Ratzenberger sempre permaneceu vivo na memória de seus companheiros de pista. O filho de Mika Salo com a japonesa Noriko foi batizado de Max Roland. “Pelo menos um pedaço dele permanece conosco”, afirma o finlandês. (Luiz Fernando Ramos)

“ELE GASTOU TUDO O QUE TINHA PARA
CORRER NA F 1”


Pelo menos um piloto brasileiro teve estreito relacionamento com os dois pilotos mortos no final de semana do GP de San Marino de 1994. O paulista Maurizio Sala disputou o Campeonato Paulista de Kart de 1974 na categoria Junior, tendo Ayrton Senna como um de seus maiores adversários. “Quando um de nós dois não ganhava, era porque havíamos batido um com o outro”, relembra Sala. “Depois disso, passamos a correr em categorias diferentes. Comecei a correr com carros aqui no Brasil em 1977. O Ayrton continuou no kart até ir correr de Fórmula Ford na Inglaterra em 1981. Eu só estreei nessa categoria no final de 1982”, recorda.

Com Ratzenberger, Sala teve um contato mais próximo. Ambos se conheceram quando corriam no Japão, e disputavam as mesmas categorias. Um freqüentava a casa do outro e o austríaco conheceu uma de suas namoradas, Kadija, na casa de Sala. “Ela era amiga da Naomi Campbell”, conta Sala. “O Roland era um cara quieto, e muito arrojado como piloto”. Em 1989, Sala e Ratzenberger dividiram um Porsche 962 na 24 Horas de Le Mans com outro austríaco, Walter Lechner. Não tiveram sorte: um pneu estourado provocou um acidente após poucas horas de corrida.

Hoje, Sala é chefe de uma equipe da categoria Stock Car Light e busca patrocínio para correr na divisão principal, a Stock Car V8. E faz uma revelação surpreendente: “Fiquei mais chocado com a morte do Roland do que com a do Ayrton. Talvez pelo fato de ele ser novato e ter investido todo o dinheiro que havia ganho no Japão para correr na F 1 por uma equipe pequena. Fez isso na raça, acreditando que aquilo poderia levá-lo a algo maior. Foi muito triste ver tudo acabar daquela maneira. Com o Ayrton foi diferente: ele já era um ídolo, um piloto consagrado. Acho que a ficha só caiu para mim quando fui ao velório e ao enterro. Antes, a morte do Ayrton parecia algo irreal”. (Luiz Alberto Pandini)