– Luiz Fernando Ramos
À primeira vista, havia
um mundo separando Ayrton Senna e Roland Ratzenberger. O brasileiro
era um ídolo em todo o planeta, tricampeão mundial e
estava na equipe mais poderosa da Fórmula 1. O austríaco,
um completo desconhecido (mesmo em seu país natal) e correndo
em uma equipe estreante, cujo orçamento anual não pagaria
o salário de Senna. Exemplos dos dois extremos deste fascinante
esporte.
Mas
havia alguns pontos em comum unindo estes seres humanos. Tinham praticamente
a mesma idade (Ayrton era três meses e meio mais velho que Roland)
e tiveram um casamento curto que fracassou em nome da busca pela verdadeira
paixão de suas vidas: correr na Fórmula 1. Quis o destino
que o brasileiro tivesse o talento e os meios para atingir este objetivo
com mais rapidez e sucesso que o austríaco. Quis o destino
que os dois morressem em nome deste sonho e que suas mortes permanecessem,
para sempre, ligadas.
Ratzenberger nasceu em Salzburg
no dia 4 de julho de 1960 e foi infectado pelo vírus da velocidade
aos cinco anos de idade, quando a avó o levou para ver uma
corrida de subida de montanha. Pouco depois a Áustria foi invadida
pela “febre Jochen Rindt”, e o sucesso do compatriota
nas pistas foi o argumento final para a decisão de Roland:
iria ser piloto e, acima de tudo, correr na Fórmula 1.
Seus pais tinham outros planos
para o único filho homem. Mandaram o adolescente para estudar
em uma escola técnica em Graz, mas nada atrapalharia seus planos.
Roland pegou o dinheiro e foi para Monza, onde participou de um curso
em uma escola de pilotagem.
A decisão lhe custou uma
justa bronca paterna e o fez decidir: iria se virar sozinho para seguir
no automobilismo. Enquanto o motorista da família Senna buscava
o jovem Beco na escola para levá-lo ao kartódromo de
Interlagos, Ratzenberger metia a mão na massa trabalhando como
mecânico na escola de Walter Lechner em Salzburgring, podendo
andar de Fórmula Ford quando um carro estivesse livre.
“Só assistimos uma
corrida sua ao vivo uma vez, de F-Ford em Salburgring”,
relembra o pai Rudolf. “Roland ganhou as duas baterias, mas
não ficou feliz em nos ver. Com freqüência não
sabíamos onde ele estava, o que fazia... Ele não queria
ajuda e eu não sou nenhum carrapato. E jamais ele nos procuraria
para dizer: ‘estou mal, vivo só de sanduíches’”.
Não demorou muito para
o austríaco se estabelecer como um homem de ponta na Fórmula
Ford 1600. Além dos títulos europeus em 1984 e 1985,
Ratzenberger triunfou em 1986 no famoso Festival de Brands Hatch,
uma espécie de Mundial da categoria, com cerca de 100 pilotos
inscritos. Seu companheiro de equipe era um tal de Eddie Irvine. “A
vitória foi em uma espécie de ‘photo-finish’.
Foi sensacional para ele porque, como piloto privado, conseguiu derrotar
diversas equipes de fábrica”, recorda o irlandês.
Mas as portas da Fórmula
1 não se abriram e, para sobreviver, Roland pilotou nos anos
seguintes qualquer carro que lhe fosse oferecido: Fórmula 3,
Fórmula 3000, carros esporte e também protótipos.
Além de acumular experiência e alguns bons resultados,
o caráter afável do austríaco lhe rendeu também
muitas amizades entre os companheiros de pista.
No fim dos anos 80 e início dos 90, o automobilismo viveu um
enorme ‘boom’ no Japão. O sucesso da Honda e de
Ayrton Senna na Fórmula 1, aliado à um período
econômico especialmente frutífero, fez com que empresas
despejassem rios de dinheiro no esporte a motor. Como ocorreu no futebol
com a J-League, as principais equipes correram para a Europa em busca
de pilotos com experiência ou jovens postulantes ao sucesso.
Roland mudou-se para Tóquio
em 1990 e logo pôs em prática seu lado versátil,
competindo ao mesmo tempo na Fórmula Nippon (a F-3000 de lá),
Grupo A (turismo, com a BMW) e Grupo C (protótipos, com a Toyota).
Dentre suas vitórias, a mais importante veio nesta última
categoria, sua favorita, nos 1000 Km de Fuji.
Fora da pista, formou-se uma
turma da pesada: Ratzenberger, Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Mika
Salo, Jeff Krosnoff e Andrew Gilbert-Scott. Vivendo como reis, dividindo
hotéis com aeromoças e na mira das fãs japonesas,
os pilotos europeus logo passaram a competir também no número
de conquistas sexuais.
O norte-americano Krosnoff, que
viria a morrer em um acidente na Fórmula Indy em 1996, era
o que mais divertia seus colegas. Desenhista talentoso, o piloto tinha
mania de enviar faxes às recepcionistas de hotel com esquetes
pornográficos.
A
amizade era grande e um episódio famoso ocorreu num bar da
capital japonesa. Um executivo árabe discutiu com sua noiva
oriental até chegar à agressão. Frentzen resolveu
intervir, no que o nervosinho sacou uma faca e partiu em direção
ao alemão. Sua sorte é que Ratzenberger agiu rápido,
dando uma gravata no sujeito e o desarmando. “Roland salvou
minha vida”, admite Frentzen, que lembra de outro episódio
não tão heróico. “Ele também era
muito malandro. Uma vez abandonei em Sugo e ele me deu carona após
a bandeirada. Só que foi a 150 km/h para os boxes enquanto
eu fazia de tudo para me agarrar ao carro... e desceu do cockpit rindo!”
O que pegou a turma de surpresa
foi a decisão de Ratzenberger, o mais bem-sucedido com as mulheres
entre todos eles, em se casar com a aeromoça norueguesa Bente.
A cerimônia ocorreu em dezembro de 1991, em Salzburg. Um ano
depois, estavam separados. “Foi um erro”, reconheceu mais
tarde o piloto. “E o pior é que joguei minha agenda telefônica
com os números importantes fora. Agora tenho de começar
tudo de novo!”
Aos poucos, os europeus do oriente
foram conquistando espaço na Fórmula 1. O primeiro a
entrar foi Irvine, na famosa corrida de Suzuka em que levou um soco
de Ayrton Senna por ultrapassá-lo quando era retardatário.
“Roland foi um dos poucos que me ligou para me felicitar pela
estréia”, afirma o irlandês.
No final de 1993, a Sauber chamou
Frentzen para a temporada seguinte e
Krosnoff foi para os Estados Unidos desenvolver os motores Toyota
na Fórmula Indy. Quando parecia que sobrariam Ratzenberger
e Salo no automobilismo japonês, a recém-formada equipe
Simtek resolveu chamar o austríaco para fazer parceria com
o australiano David Brabham na Fórmula 1. O sonho finalmente
se realizaria.
“Não posso permitir nenhum acidente. Nosso orçamento
anual é igual ao salário de Gerhard Berger. Não
temos dinheiro para consertar carros.” Foi com este pensamento
que Roland Ratzenberger iniciou a temporada de 1994. Pilotar com segurança
e inteligência, sem querer extrapolar os limites de seu já
limitado equipamento.
No Brasil, Ratzenberger andou
mal na sexta-feira e teve problemas no treino classificatório
do sábado, ficando a pé no meio da sessão. Terminou
fora do grid, com o penúltimo tempo dentre os 28 pilotos, melhor
apenas que o aventureiro Paul Belmondo, filho do famoso ator francês.
As coisas melhoraram em Aida.
O austríaco deixou os carros da Pacific para trás e
largou na última posição do grid. Terminou a
prova em 11º lugar, com cinco voltas de atraso em relação
ao vencedor Michael Schumacher. Mas ficou satisfeito. “Pilotei
sem assumir qualquer risco, dirigindo dentro dos limites do carro
para não abandonar. Mas meus limites são maiores que
este”, analisou.
Seu único momento importante
em relação ao resultado final do GP do Pacífico
foi uma quase colisão com Rubens Barrichello no grampo, justamente
na corrida que marcou o primeiro pódio na carreira do piloto
brasileiro. “A culpa foi toda dele. Já havia subido com
o carro todo na zebra, mas ele virou cedo demais. Sempre tomava cuidado
quando ia receber uma volta de alguém, especialmente se eram
Berger ou Wendlinger”, afirmou Roland.
Curiosamente,
diversos ciclos na sua vida se fecharam na semana anterior ao fatídico
GP de San Marino. Em Salzburg, uma pacífica conversa com o
pai sobre automobilismo ganhou um caráter de reconciliação.
“Ele já é quase um fã meu”, comentaria
o piloto em Ímola.
Depois, uma semana em Mônaco
o ajudou a se integrar aos pilotos da Fórmula 1 que ainda não
conhecia. Algumas horas passadas no iate de Gerhard Berger serviram
para uma primeira (e única) aproximação entre
os dois compatriotas. No final, a viagem até Ímola de
carona no Porsche Carrera 4 de Jirki Jarvi Lehto, onde o austríaco
reafirmou sua felicidade em estar na categoria e seu otimismo para
o fim-de-semana.
Na sexta-feira, um susto na curva
Villeneuve: Roland, em sua volta de desaceleração, é
quase tocado pelo companheiro David Brabham, que iniciava uma volta
rápida. O choque a quase 320 km/h poderia ter tido graves conseqüências,
mas foi levado numa boa pelos dois pilotos. “Demos boas risadas
sobre isso. Ele não olhou direito e a gente quase bateu”,
disse o austríaco, poucos minutos antes do treino de classificação
no sábado.
Às 14h20, um pedaço
da asa dianteira do Simtek S941 se soltou na aproximação
da mesma curva Villeneuve. Ratzenberger perdeu o controle do carro
e foi em direção ao muro. São duas pancadas quase
que simultâneas: a primeira, a 308 km/h, com a parte dianteira
esquerda do carro num ângulo inferior a 90º. A segunda,
com toda a lateral do carro, na qual o piloto bateu a cabeça
contra o muro. Morte instantânea. A Fórmula 1 em estado
de choque.
Ayrton Senna interrompeu sua
participação no treino classificatório, assim
como os pilotos da equipe Benetton (Schumacher e Lehto, ambos amigos
de Roland) e Karl Wendlinger. Gerhard Berger, surpreendentemente,
voltou mais uma vez à pista. “Em uma hora destas, ou
você continua, ou pára de vez. E eu resolvi continuar”,
explicou. À noite, com lágrimas nos olhos, o austríaco
da Ferrari soltou uma frase tristemente profética em uma conversa
com o repórter Heinz Prüller. “Eu esperava por um
acidente como este. Tinha de acontecer, já tivemos sorte por
muito tempo. E eu temo que esta série negra vai continuar.
A morte de Roland não foi nossa última na Fórmula
1.”