SENNA E A HONDA
30/04/04

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Eduardo Correa: Ayrton, eu queria que você agora me falasse um pouco sobre a sua influência em dois momentos da sua relação com a Honda.

Eu gostaria de saber até que ponto você influenciou - e às vezes eu acredito que você tenha tido um papel muito grande na ida da Honda em primeiro lugar para a Lotus e, em segundo lugar, na uma associação como a McLaren.

Ayrton Senna: Canadá, Canadá 85. Ali eu percebi que a Honda teria um motor vencedor nos anos subsequentes.

Eu percebi que eles tinham encontrado a fórmula do futuro. Tecnicamente eu percebi porque eu guiei junto com o Keke Rosberg que estava guiando Williams com motor Honda, mesmo eu estando atrasado algumas voltas, eu tive problemas com o turbo, que tinha soltado, eu parei nos boxes, fiquei algumas voltas até os mecânicos recolocarem o turbo, eu voltei à pista - e voltei junto com o Keke, por coincidência, e fiquei brigando com ele a corrida inteira, embora eu estivesse algumas voltas atrasado.

Dava para acelerar tudo o que dava, não me preocupando com o consumo de combustível, que nessa época era também importante etc. E eu percebi que o Keke estava andando muito porque ele estava correndo para terminar a prova na volta do vencedor etc. E para ele andar naquele ritmo que ele estava andando fazer o número total de voltas sem ter problemas de combustível é que a eficiência daquele motor, não só a potência máxima, mas a eficiência era algo assim, fantástica.

Até aquela prova, a Honda não tinha (inaudível).

EC: É... a temporada deles em 84, apesar da vitória em Dallas, foi um desastre fantástico...

AS: (inaudível) Ali, eu percebi que a fórmula tinha sido encontrada. E a partir daquele momento eu tratei de pesquisar mais o assunto e descobri que eles tinham estreado uma versão nova do motor Honda naquela prova, tinha introduzido e realmente provou ser a opção certa etc. e dali eles partiram para o sucesso e foi exatamente ali.

Então, a partir daquele momento, eu passei a me aproximar dos japoneses, procurando entender melhor quais eram os objetivos deles em termo de Fórmula 1.

EC: Você nunca tinha tido nenhum contato com a Honda, até então?

AS: Não...

EC: Eles próprios tinham chegado a Fórmula 1 ...

AS: A gente foi se aproximando, se aproximando, se aproximando e o que existia era uma estratégia assim, comum, tanto para eles quanto para mim, embora eles fossem uma fábrica, um fornecedor de motores para as equipes, e eu apenas um piloto que estava no início da carreira.

Mas basicamente a gente tinha alguma coisa em comum: eu queria muito vencer, estava no início da minha carreira, tinha todo um potencial mas tinha ainda de, realmente, comprovar. Eu já tinha vencido Grandes Prêmios naquela época mas precisava ganhar campeonatos, ganhar constantemente. Mas eu era muito competitivo, era jovem e tinha um desejo muito forte de crescer, de aprender, de vencer.

Eles também já estavam na Fórmula 1 há dois ou três anos, eu acho, desde o início do projeto sem sucesso, só com problema, investindo muito pesado e com uma estratégia clara, um desafio técnico para eles, de se sobrepor a todos os demais.

E ficou evidente que nós tínhamos o mesmo desejo, embora viessem por caminhos diferentes, pertencentes a culturas diversas mas era o mesmo objetivo, igualzinho. Era uma questão de comunicação.

E eu entrei então pela porta da frente, eu diria, porque eu simplesmente tive uma reunião com eles, que foi em Mônaco, em 86, e dali eu fui crescendo, crescendo, procurando, me aproximando deles e tive receptividade e aí nós marcamos uma reunião em Mônaco 86, num hotel chamado Beach Plaza e fui lá sozinho e entrei no quarto com os japoneses, tinham quatro ou cinco deles lá dentro.

Mas eu fui, pensando numa coisa: tudo o que eu ia falar era exatamente o que eu realmente acreditava. Eu ia tentar vender… não era conversa de vendedor, tá? Eu ia falar exatamente o que eu pensava, o que eu precisava e o porquê disso sobre um assunto que a gente ia ter. Porque, com isso, a verdade era a verdade. Naquele momento e dali a dez anos continuaria sendo a verdade.

E foi o que ocorreu. Nós fomos conversar e resolver o problema. O que a gente ia fazer, o que já tinha feito, o porquê de uma série de coisas etc. E eu percebi que ali eu entrei mesmo pela frente e naquele momento eu tive as portas da Honda abertas.

EC: Sim...

AS: E foi nada mais nada menos, fora o potencial que eu tinha, mas foi realmente porque eu entrei de cabeça e entrei honesto.

E eu acreditava realmente que eles tinham, na minha opinião, eles tinham a fórmula do sucesso. Disse a eles inclusive quando é que eles encontram aquela fórmula, que era uma coisa que eu tinha deduzido e aí foi o que eu falei... Foi no Canadá no ano passado – já tinha se passado quase um ano – que eu passei a acreditar em vocês porque ali eu presenciei de maneira clara que vocês tinha a tecnologia e que você iam vencer a partir daquele momento como vocês realmente venceram no final de 85 e 86.

EC: É... o final de 85 já foi deles...

AS: É, e eu falei assim: ali no Canadá é que vocês descobriram alguma coisa que eu não sei o que é – naquele tempo, eu não sabia - e aí ali eles olharam pra mim e falaram: é realmente (inaudível).

E aquela era a última cartada deles para andar para valer ou não. E deu certo. Eles acertaram realmente e eles confirmaram isso para mim: foi exatamente ali (inaudível).

Então acho que ali houve assim, uma coincidência dos fatos com o fato de eu ter percebido, por eu ter presenciado uma situação especial e ter notado (inaudível) coisa de oito meses mais tarde, né? E eles sentiram que eu tinha um compromisso total , um objetivo, um sonho.

E nós dali em diante começamos a nos reunir mais, mais constantemente e desenhar um plano de futuro, uma estratégia de futuro onde possivelmente nós operássemos e logicamente eu corria pela Lotus e o meu desejo é que eles então fornecessem motores à Lotus.

AS: E foi o que...

EC: A solução...

AS: Mais tarde acabou ocorrendo realmente e eu, sem falsa modéstia, é um fato. Realmente eles foram para a Lotus por todo o relacionamento que eu procurei construir com eles e a gente conseguiu.

 

NA PRÓXIMA SEGUNDA, SENNA LEMBRA COMO CONDUZIU
AS NEGOCIAÇÕES ENTRE A HONDA, A LOTUS E A MCLAREN