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Exclusivo
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Luiz Alberto Pandini
A história desta entrevista começou
durante uma conversa com Paulo Scali, historiador do automobilismo brasileiro
e autor dos livros “Circuito da Gávea” e “Chico
Landi”, no começo de 2002. Conversávamos sobre o
automobilismo de outrora quando Paulo revelou: “Você sabia
que o primeiro brasileiro a correr na 24 Horas de Le Mans chamava-se
Bernardo Souza Dantas e que isso aconteceu em 1935?”
Eu realmente não sabia. Para mim, o pioneiro havia sido Christian
Heins, que morreu durante a 24 Horas de Le Mans de 1963, quando pilotava
um Alpine e liderava na sua classe. Heins sofreu um acidente ao escorregar
no óleo deixado pelo motor estourado do carro de Bruce McLaren.
Fui conferir a revelação de Paulo Scali, e realmente consta
a participação de Bernardo (Bernard, em algumas fontes)
Souza Dantas na 24 Horas de Le Mans de 1935. Quase todos os arquivos,
porém, atribuíam a ele a nacionalidade francesa. O sobrenome,
porém, era o mesmo do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas,
que exerceu suas funções na França justamente nos
anos 30, durante a expansão do nazismo. Souza Dantas, o embaixador,
entrou para a história porque não teve dúvida em
atropelar os trâmites burocráticos para fornecer passaportes
a judeus que fugiam do nazismo. Por essa nobre atitude, chegou a receber
punições e advertências, já que o governo
de Getúlio Vargas inicialmente nutria simpatia pelos países
do “eixo” (Alemanha, Itália e Japão) e só
depois ficou claramente ao lado dos aliados (Inglaterra, França,
Estados Unidos e União Soviética). Souza Dantas passou
a ser conhecido como “o Oskar Schindler brasileiro” - uma
alusão ao alemão que, sendo membro do partido nazista,
salvou da morte milhares de judeus.
O sobrenome e a proximidade geográfica
dos dois Souza Dantas me deixavam poucas dúvidas de que havia
algum grau de parentesco entre eles. De qualquer maneira, não
tive tempo de checar a história a fundo. Quando chegou o momento
de preparar o especial sobre a 24 Horas de Le Mans, ainda em 2002, a
única informação disponível sobre a participação
de Souza Dantas na corrida de 35 é que ele havia corrido com
um Bugatti 57 e abandonado por quebra do câmbio. Preparei o especial
e fiz o registro da participação de Bernardo Souza Dantas
na 24 Horas de Le Mans, chamando a atenção para a possibilidade
de ele ser parente do embaixador Souza Dantas.
Essa citação motivou o historiador carioca Fábio
Koifman a enviar um e-mail para o GPtotal, confirmando que Bernardo
é primo do embaixador. Fábio estava prestes a lançar
seu livro, “Quixote nas Trevas: o embaixador Souza Dantas e os
refugiados do nazismo”, e havia entrevistado Bernard. Deu-me ainda
uma informação valiosa: o telefone de Bernardo Souza Dantas.
“Ele mora em São Paulo, tem quase 90 anos e um vigor total”,
escreveu-me Fábio Koifman.
Empolgado, agradeci a Fábio e entrei em contato com Bernardo
Souza Dantas para uma entrevista. Semanas depois, cheguei ao apartamento
de Bernardo Souza Dantas, em São Paulo, para uma entrevista.
Encontrei um personagem ímpar, com uma memória prodigiosa,
grande vigor físico e mental, e capaz de façanhas inacreditáveis
para um homem com a sua idade.
Com vocês, Bernardo Souza Dantas, o primeiro brasileiro a disputar
a 24 Horas de Le Mans. (Luiz Alberto Pandini)
- Como o senhor “descobriu”
o automobilismo?
- Eu comecei a dirigir quando era garoto, criança, com os carros
da família. Os carros de antigamente eram umas “cristaleiras”
enormes e eu dirigia olhando por baixo do volante. Quando fiz 18 anos,
tirei a habilitação e pedi ao meu pai para comprar um
carro. E o meu primeiro foi um Bugatti, que na época tinha a
mesma importância da que a Ferrari tem hoje em dia.
- Era um belo carro esporte...
- Havia várias marcas boas, mas o Bugatti era o carro esporte
mais conhecido do mundo, com várias vitórias em Grandes
Prêmios. Eu comecei a fazer competições de rally,
primeiro com o carro que eu tinha e depois com um outro melhor.
- O senhor se lembra em
que ano foi isso?
- Foi em 1931 ou 1932. Naquela época, a 24 Horas de Le Mans era
a maior corrida que se fazia, a que tinha mais prestígio no mundo
além dos Grandes Prêmios. Para mim, Le Mans, tinha uma
vantagem: era corrida com carro esporte. Um carro de Grand Prix já
custava uma fortuna naquela época, enquanto um carro esporte
era bem mais barato. O regulamento obrigava a ter todos os equipamentos
de um carro esporte: equipamento elétrico para dirigir à
noite, ter quatro lugares se o motor tivesse mais de 1.500 cm³
e assim por diante. E o regulamento era muito, muito rígido,
no sentido de que você não podia parar para reabastecer
fora do determinado tempo e outras coisas mais. Então eu mandei
preparar o carro para a corrida em 1935. Foi uma experiência muito
interessante, mas infelizmente eu não fui muito brilhante.
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Neste
momento, Bernardo Souza Dantas tornava-se o primeiro brasileiro
a disputar a 24 Horas de Le Mans. Era a largada da edição
de 1935 |
- O que o senhor se lembra
dessa corrida? O senhor se lembra em que posição largou?
- Na largada das 24 Horas de Le Mans, os carros ficavam enviesados na
estrada e os pilotos ficavam parados do outro lado da estrada, corriam
até o carro, entravam, davam a partida e saíam (Nota do
autor: esse procedimento ficou conhecido como “Largada Le Mans”.
Em 1970, a largada passou a ser dada com os pilotos já dentro
dos carros, e em 1971 Le Mans adotou a largada em movimento). Isto era
antigamente, hoje não é mais assim.
Os carros eram colocados na beira da pista pelo número de corrida,
de 1 a 60, começando pela maior cilindrada. Em 1935 havia 60
concorrentes e a minha posição era 6, por causa da cilindrada.
Deram a partida e eu segui andando pela minha velocidade, porque numa
corrida de 24 horas você tem que seguir um plano de corrida, senão
o carro quebra na primeira hora.
Foi interessante porque o circuito tinha 13 quilômetros e você
conseguia fazer esses 13 quilômetros uma vez, duas vezes, três
vezes, uma vez atrás da outra com uma diferença de segundos.
Você repete a mesma coisa: mesma velocidade, mesmo lugar, mudança
de marcha... É uma experiência muito boa.
- Foi o senhor quem começou
a corrida?
- Eu comecei a corrida. Eu e meu companheiro (o francês Roger
Teillac) corremos 19 horas, inclusive com chuva na largada e durante
a noite, mas aí o carro quebrou. (O Bugatti de Souza Dantas/Teillac
completou 129 voltas; os vencedores deram 222.)
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O
Bugatti de Souza Dantas e Teillac na 24 Horas de Le Mans de 1935. |
- Como era a sua equipe?
Quantos mecânicos o senhor tinha?
- Naquela época era muito mais simples do que hoje em dia. Eram
dois mecânicos para fazer o abastecimento, que acontecia a cada
duas horas. Você corria duas horas, abastecia, entrava o outro
companheiro, fazia duas horas e abastecia de novo. Foi assim por 19
horas até que quebrou. Realmente o carro não estava mais
em condições de correr, então paramos.
- O senhor se lembra em
que posição estava antes do carro começar a ter
problemas?
- Eu cheguei a andar em 6º lugar durante um certo tempo. Depois
o carro começou a quebrar e fui obrigado a parar para tentar
consertá-lo. Aí caímos muito. Paramos por quebra
do câmbio quando estávamos em 19º.
- O seu companheiro era
francês?
- Era francês. Foi ele quem preparou o carro. Ele era mecânico
especializado. Parece que tinha trabalhado na fábrica da Bugatti
e depois trabalhou numa oficina especializada em Paris que só
tratava de Bugatti. Ele aceitou preparar o carro e correr comigo de
graça, mas ele fez alguns erros na preparação que
provocaram a quebra.
- O senhor se lembra bem
desse carro?
- Muito bem. Era um Bugatti modelo 57, com motor de 8 cilindros (os
cilindros eram dispostos em linha e a cilindrada era 3.257 cm³).
Era azul-marinho com o número branco. Todos os carros tinham
número branco. Nessa corrida não era obrigado a ter o
carro com as cores da nacionalidade do competidor. A cor da França
era azul, mas em um tom claro.
- Depois o senhor não voltou a correr
em Le Mans?
- Não, porque em 1936 não houve
24 Horas de Le Mans. Foi o único ano que não houve a corrida
de Le Mans a não ser durante as guerras, porque houveram pequenas
revoluções populares da Frente Popular. Houve algumas
mortes, um acontecimento de grande repercussão na época,
e eles cancelaram a corrida em 1936. Depois disso, eu tive um problema
financeiro muito grande. Minha fortuna, que vinha da minha mãe,
foi dilapidada por um camarada que pediu falência na companhia
onde eu tinha o dinheiro. Fui obrigado a vender o meu carro e obrigado
a viver com o que eu tinha. Parei com a competição.
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