A Fórmula 1 morreu: viva a Fórmula 1!

Mostrou o nariz quebrado, fruto de um golpe certeiro na aula de jiu-jitsu. “Meus amigos disseram que eu deveria colocar uma placa na testa: cuidado, curva sinuosa”, riu-se da desgraça. Olhei de frente e, de fato, a parte de baixo do nariz fazia uma guinada à esquerda. “Ficou parecendo o Prost!”, tentei um complemento de piada. Resultou em nada, em um ponto de interrogação genuíno e a pergunta que adivinhei no olhar. “Quem é o Prost?

Em vez de responder diretamente, formulei outra pergunta. “O Ayrton Senna você conhece?” Conhecia, claro. E antes que nós, os amantes dessa categoria que se julga rainha, comecemos a rotular o jovem Rafael, 23 anos, acho que vale uma terceira pergunta. Por que um jovem brasileiro de 23 anos deveria conhecer Alain Prost?

À primeira vista, pode parecer estranho o fato de alguém conhecer Ayrton Senna e não saber quem foi seu maior rival nas pistas. À luz de dezenove anos passados desde sua morte, Senna tem sido, para as gerações que o sucederam, um personagem de história em quadrinhos, ou um rosto emoldurado pela bandeira do Brasil, ou uma frase edificante, dessas que enaltecem a perseverança e o desejo de vencer desafios e rivalizam com as máximas existencialistas de Paulo Leminski ou com a inteligência ácida de Clarice Lispector nas mídias sociais. Senna deixou de ser piloto e também deixou de ser gente. Senna mitou.

Como Carlos Gardel, Leila Diniz, John Kennedy, John Lennon ou Elis Regina. Ayrton Senna virou mito pela morte trágica e precoce, cristalizando-se na memória como um herói abatido em combate, que empunhava a bandeira do seu país qual soldado em terras estrangeiras. É claro que, a cada aniversário de morte, a cada GP do Brasil, em muitos GPs de Mônaco, ressurge na tela o mito em voltas voadoras, ou contornando Interlagos com alegada única marcha, ou extenuado, sofrendo para erguer um troféu acima da cabeça no pódio. E, nessas circunstâncias, meia dúzia de jovens que se acostumaram a vê-lo como mito podem se interessar em saber como ele fazia essas voltas voadoras, ou conhecer a história do GP do Brasil de 1991. Informação não falta. Dá um google aí e tudo vem.

Descortinar o mito e conhecer o piloto pode ser fascinante para alguns, dispensável para outros. Sei que Martin Luther King lutou pelos direitos da população negra e foi morto em 1968, mas não sabia, até começar a escrever este texto, que ele teve quatro filhos nem que foi o mais jovem ganhador do Prêmio Nobel da Paz até então. Martin Luther King morreu dois anos antes de eu nascer. Quando o conheci, pelos livros e pela mídia, ele também já havia mitado, como Senna mitou. Os contornos factuais da sua existência haviam ficado para trás, e nada me atraiu para eles. Da mesma forma que a vida e a obra de Senna hoje podem não interessar a um jovem que não tenha raízes – familiares, por exemplo – com o tema automobilismo.

Muitos de nós, ao declararmos nosso amor pela Fórmula 1, habitualmente escutamos de outros interlocutores frases do tipo: “ah, a Fórmula 1 morreu para mim junto com o Senna”. De fato, aquela Fórmula 1 morreu. A categoria que matava pilotos não existe mais (toc-toc-toc). O nível de segurança dos carros foi elevado a ponto de, há quase duas décadas, não ter havido nenhum acidente fatal nem sequer acidentes incapacitantes. Aquela Fórmula 1, realmente, morreu. Mas outras eras nasceram e foram sepultadas na história da categoria, e não foi o triste passamento de Ayrton Senna que determinou esses recomeços.

A era turbo morreu. A era das equipes garagistas morreu. A era da pré-qualificação morreu. A era do controle de tração morreu. A era dos carros cheios de aletas, aerofólios e outros penduricalhos aerodinâmicos morreu. A cada enterro, outro recém-nascido chorou. O GP do Brasil de 2013 vai marcar o fim de uma era, de novo, como já fez outras vezes. Em 2007, foi o último GP com carros equipados com controle de tração. Neste ano, a despedida dos motores V8 de 2.4 litros, que serão substituídos pelos propulsores V6 de 1.6 litro turbo. E, assim, renascerá outra era turbo, que não será igual à primeira, porque todo o resto (especificação dos carros, pilotos, pontuação, pistas) mudou.

Um novo ciclo de dominação pode se estabelecer a partir disso, equipes hoje vencedoras talvez penem para se adaptar ao novo conceito. O Vettel de hoje pode ser o Hamilton de amanhã e vice-versa. Nada disso, no entanto, fará com que a Fórmula 1 deixe de ser Fórmula 1. Lembro uma discussão filosófica em aula na faculdade. Tenho uma faca de estimação e, certo dia, resolvo trocar-lhe a lâmina. Tempos depois, por estar desgastado, troco o cabo. A faca já não é a original, mudou-se inteira, mas segue sendo a minha faca de estimação. Ainda que mude tudo na Fórmula 1, por conta dos motores, ela seguirá sendo a Fórmula 1.

No entanto, a categoria pode estar diante de uma nova era, inédita nas últimas quatro décadas: um grid sem pilotos brasileiros. Não estou cravando que Felipe Massa deixa a Ferrari no final do ano. Acho que os indícios são fortes e, mais do que propriamente a falta de resultados na Bélgica e na Itália, o adeus do brasileiro ao time italiano pode ser fruto de algo mais prosaico – uma permanência longa demais, para resultados de menos. Massa, afinal, cumpre sua oitava temporada na Ferrari.

Nesse período, conquistou onze vitórias. Um feito, sem dúvida, mas um indicador forte de que não irá além. Massa esteve na Ferrari praticamente em todas as condições: como segundo piloto de um companheiro lutando pelo título, portanto com carro vencedor (Schumacher em 2006, Raikkonen em 2007, Alonso em 2010, 2011 e 2012), como candidato ao título (em 2008), como gato perdido em dia de mudança em ano de carro ruim (2009). Com exceção do ano em que disputou o título com Hamilton até a decantada última curva da última volta, Massa apanhou sem dó dos companheiros e, pior, quase sempre viu vários oponentes entre ambos, cristalizando a certeza de que nem para escudo do colega ele serve.

O brasileiro tem declarado que, se sair da Ferrari, não quer guiar para uma equipe pequena. Defina “pequena”, pediram os repórteres em Spa, levando Massa a citar Marussia e Caterham. De onde se conclui, com propriedade, que possibilidades como Sauber, Force India, Toro Rosso e até Williams poderiam ser consideradas pelo companheiro de Fernando Alonso como destino para 2014. Não vejo nada de indigno nisso. Se Massa resolver encarar o desafio de pilotar para uma equipe média, eis um caminho.

Pode ser revigorante, até. A relação de Massa com a Ferrari, em que pese a amizade entre as partes, parece aqueles casamentos azeitados e enfadonhos. “Tem que morrer pra germinar”, diria Gilberto Gil na linda canção “Drão”, de 1982. Talvez Massa ganhe novo impulso, perca um pouco do peso que leva nas costas e possa, afinal, continuar exercendo a profissão que ama. E vai que a nova era de motores, assim, do nada, permita a essa equipe média ser guindada à condição de nova postulante ao título… Talvez, por muitas razões, seja a hora de Felipe dizer adeus a Maranello.

Mas se a nova casa, pela lógica, continuar se comportando como uma equipe média, que almeja marcar pontos e não conquistar pódios, por Deus, que não se tente incutir na plateia a ilusão de que nosso bravo guerreiro está lá para brigar por títulos. Essa ideia, embalada em bandeiras do Brasil, trilhas sonoras especiais e patriotismo de araque, só tem servido para colar na testa dos pilotos brasileiros a etiqueta de “fracasso ambulante”, “alvo de piada”, “loser”, como dizem os gringos.

O fã de automobilismo vibra e fica na ponta da cadeira ao ver uma disputa linda como foi a de Alonso e Hamilton, na Bélgica, não por serem espanhol e inglês, mas por serem extraordinários pilotos. Não somos tacanhos a ponto de torcer ou de gostar de um esporte apenas porque tem um brasileiro vencendo. Não somos xenófobos e queremos continuar não sendo. Fórmula 1 é só um esporte, não é guerra. Já temos nosso mito criado por ela.

Que descanse em paz.

12 thoughts on “A Fórmula 1 morreu: viva a Fórmula 1!

  1. Coluna muito boa, Alessandra. Apenas a ressalva quanto aos acidentes – ao meu ver, e acredito que não só “ao meu”, aqueles que vitimaram (sem fatalidade) Massa e Maria de Villota expõem sim fragilidade dos carros, não em sua estrutura, mas na eterna exposição da cabeça, algo que só mudará quando adotarem os cockpits cobertos. Mas, por outro lado, a coluna poderia ser ampliada para apontar a falta de cultura dos brasileiros, que não só quanto ao automobilismo mas no geral riscam do mapa tudo que não está na moda. “Sou feio mas tô na moda” é o jingle (ou seria ditado? Ou provérbio?? Ou maldição???) que está em “voga”. Todos querem ser celebridades, ou agir como elas, comprar o que elas compram, etc. Ok, isso está em todo lugar no mundo, mas aqui a dimensão parece ser infinitamente maior… Teria milhares de exemplos para dar, mas acho desnecessário. O próprio Jiu Jitsu citado é ainda a arte marcial da moda, onde muitos fazem para demonstrar que são machos e sabem brigar. Muitos que praticam não deveriam simplesmente por limites corporais – muitas vezes o esforço feito é tão grande que não é raro até graduados ficarem “de molho” por meses com danos nos ombros ou joelhos, e isso é inadmissível para quem não é profissional. Deveriam estar praticando outra coisa, quem sabe um caratê, que caiu em desuso por conta da tal moda…

  2. Primeiro parabéns a Alessandra Alves por mais este sensacional texto.
    Eu penso que o ciclo do Felipe Massa na Ferrari acabou. Todo ciclo tem seu inicio e seu fim. O que eu mais questiono em relação ao seu futuro na Formula 1 não é o fato dele dizer que se aposenta se não conseguir uma equipe de ponta para correr ano que vem e sim o fato que não se ouve nenhuma especulação em torno de seu nome por qualquer outra equipe da Formula 1, nem mesmo da Marussia ou da Caterham. Qual é realmente o verdadeiro valor do Massa no circo da Formula 1 atualmente?
    Com relação a Formula 1 morreu depois do acidente fatal do Senna, isto só é valido para quem não gostava de automobilismo e sim só do Senna. Para quem gosta do automobilismo como eu, isto não aconteceu e tem sido um deleite poder ver disputas com pilotos do naipe do S. Vettel, F. Alonso, L. Hamilton. K. Raikkonen, J. Button nas pistas. A Formula 1 vive um momento épico neste sentido pois são muitos os campeões mundiais ainda em atividade. E isto vale para os próximos 3 anos com certeza, se não pintar ainda mais um novo nome.
    A unica coisa chata é não poder ver um piloto brasileiro nesta briga e pior enxergar um futuro negro neste sentido para os próximos anos. Para quem se acostomou com as vitorias do Emerson, Pace, Piquet, Senna, Barrichelo e Massa isto sim é preocupante.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Alessandra, pra mim voce é a própria Alessandra Newey Alves. Só produz texto bom e de altissima qualidade…
    Ok… os demais colunistas do GEPETO são “só” um Brawn
    Pena que voce só escreve aqui uma vez por mes…
    Parabéns!

  4. Fiz uma continha rápida, e a diferença de pontos entre os pilotos da Ferrari em 2012 e 2013 diminuiu sensivelmente até o GP da Bélgica (2012 = 164×35 e 2013 = 151×67).
    Os motivos mais óbvios pra mim são o desânimo de Alonso e uma retomada de ritmo por Felipe. Não que ele já esteja brigando entre os primeiros, mas aquela apatia que vimos no ano passado está se dissipando, ainda mais vendo o gap para o companheiro fechar. Mas a apatia do espanhol pode ter resultados catastróficos.

    Se a Ferrari não fizer uma outra F2002, olho para o futuro enxergando trevas sobre Maranelo, pois, se Alonso não puder ser campeão em 2014, vão rodar ele e quem mais estiver com ele. Fala-se muito sobre atitude negativa no ambiente corporativo, e no caso específico é como se o melhor vendedor da empresa passasse o dia inteiro se queixando do produto, enquanto o outro, bem, sabemos que é assim, ruinzinho mesmo…

  5. Gostei muito do comentário da Larissa, que contraria exatamente aqueles que comentam o passado em que nunca estiveram para falar mal do nosso esporte favorito. É preciso olhar para além do negócio, que apesar de tudo, com suas altas cifras, é o que torna as paixões na F1 tão violentas. A F1 tem seu romantismo em todos os períodos, até mesmo na “Idade das trevas” entre 1994 e 2005; esse período de transição entre duas excelentes gerações, com domínio de um conjunto carro/piloto com poucas alternativas (afora os campeonatos de 96, 99 e 2003, não houve disputa real pelo título) deixou muita gente saudosa de Piquet, Senna e cia, e esse ranço passou para os novos fãs, que no Youtube vêm as ultrapassagens épicas e mais nada que tenha acontecido nas corridas. Não assisti, mas não tenho dúvidas de que o GP da Hungria de 1986 tenha sido chato, mas presenteou a história com a maior manobra de todos os tempos. O mesmo em Spa/1998, esse sim acompanhei. Um das raras corridas com tempo firme na Bélgica, chata, mas com uma daquelas ultrapassagens de te fazer levantar do sofá.

    Isso tudo apenas para concordar com todo mundo: Não é preciso conhecer para gostar, mas conhecendo, a experiência é muito mais completa, um enredo de novela, como colocou a Larissa; que começou em 1950 e que, tomara, não acabe nunca.

  6. Bom, dizer que Alonso lutava pelo título em 2011 e que por isso a Ferrari tinha um carro “vencedor” é excesso de bondade, não? 🙂 Na verdade ele sempre esteve muitíssimo distante do Vettel, e mesmo que num dado momento (logo após Monza) ele tenha figurado como segundo na tabela, a diferença pro Vettel já era de nada menos que 112 pontos – dava pro Vettel tirar férias pelas próximas quatro corridas e ainda liderar o campeonato mesmo que Alonso ganhasse as quatro. O que ainda seria bem improvável, já que, não fosse a vitória de Alonso em Silverstone, 2011 teria sido o primeiro ano sem vitórias da Ferrari desde 1993.

    Mas tirando esse errinho, o texto de fato retrata perfeitamente a situação atual. Só é uma pena que nós, os que vibraram com a disputa de Hamilton e Alonso, sejamos minoria. A maioria, pelo que vejo nos sites não-especializados, só se interessa por esporte “com brasileiro vencendo”, o que já me enche de preocupações sobre onde vou assistir Fórmula 1 num futuro próximo.

  7. Adorei o comentário sobre “depois de Senna a F-1 acabou”. Se não formos campeões da copa também vamos deixar de jogar e assistir futebol? Só a minha mãe, e lógico pq ela não ama futebol. O mesmo é válido para a F1, quem gosta sempre assistirá automobilismo. Lembrando de uma outra frase que li pela internet, “amante de velocidade assiste até corrida de velocípede”, rs

  8. Bom texto, Alessandra!

    A abordagem da Fórmula 1 pela mídia televisiva é muita errada, pois a vende como uma categoria de pilotos e o resto não importa. O título de construtores é apenas grana, não há paixão e os mecânicos, engenheiros são apenas subalternos dos pilotos Divas.
    Quando você começa a procurar por outras fontes de informação além da TV, seu entendimento sobre a F1 se amplia de sobremaneira que você começa a perceber como é um esporte complexo.
    Eu gosto muito dessa complexidade: esporte, política, fofoca, tragédia, espírito de equipe, tradição e tecnologia. Existe uma certa continuidade novelesca na Fórmula 1 que não há em outros esportes. Basta sair de frente da TV para enxergar tudo isso.

    1. Considero maravilhoso ver mais uma mulher comentando com fundamento e conhecimento, do modo como fizeste. És a vizinha que eu queria ter, bem ao lado de casa, com janelas frente a frente, pra comentar e discutir nas manhãs de domingo automobilístico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *