O bom, o mau e o feio

O GP do Brasil de 2017 foi uma corrida bastante interessante — como disse o amigo Mário Salustiano, talvez a melhor dos últimos 5 anos (ano passado foi a chuva que protagonizou e bagunçou). Porém,  muito mais do que a prova em si, o GP foi importante pelos seus simbolismos e suas metáforas. E principalmente pelo que aconteceu fora da pista.

Falemos antes da parte desportiva.

Bela vitória de Sebastian Vettel. O alemão, como a querer marcar território e mostrar quem manda, consegue um domínio desde o início, atacando Bottas já na largada — aquilo que entendemos por posicionamento, característica tão importante para desportistas em geral –, em boa manobra no S, e extraindo o maior benefício possível da largada de Hamilton desde o fundo do grid.

Meu camarada Lucas Giavoni fez uma comparação excelente da temporada 2017 com aquela de 1985, mas creio também haver um paralelo muito importante com 1993: um piloto numa equipe que não deveria estar brigando no topo conquista seis pódios no início do certame, atingindo uma inimaginável liderança no mundial. Depois, sofre com quebras e o “acerto de mão” do adversário. Com tudo decidido, vence de forma incontestável.

Do outro lado, uma dupla formada por um tricampeão com um companheiro de equipe de qualidade, mas longe de ser de ponta, auxiliando e vencendo algumas corridas. Ainda, uma terceira equipe que investe em areas do entretenimento com um piloto jovem, já dono de uma vtória, talentoso e polêmico em proporções semelhantes.

No cotejo 1993-2017 Vettel foi Senna, Hamilton era Prost, Bottas é Hill e Schumy seria Verstappen.

Corrida linda de Lewis Hamilton, mostrando a força inquestionável das Mercedes. O inglês brincou de ultrapassar todo mundo até a sexta posição. Depois, foi com a superioridade dos novos compostos que Hamilton marcou uma sequência incrível de voltas mais rápidas e chegou a vislumbrar com um pódio, o qual só não veio pela experiência de Kimi e por não haver mais tantas voltas disponíveis para uma maior tentativa de ultrapassagem.

Os finlandeses fizeram suas corridas burocráticas, e os Red Bull conseguiram desempenhos excelentes, mas limitados pelos carros: Ricciardo protagonizou ótima recuperação, somente ofuscado por Lewis, e Max fechou com a volta mais rápida, possivelmente brigasse por pódio não retardasse tanto a troca.

Quanto aos incidentes e acidentes da prova, concordo com as decisões dos comissários (raro dizer isso): Grosjean me pareceu demasiado imprudente, tentando ultrapassar onde não havia espaço para tanto, e no caso da batida tripla que quase tirou Ricciardo eu não elegeria um “culpado”.

Vale mencionar a disputa Alonso vs. Massa, e a conclusão de que em Interlagos o espanhol jamais superou o brasileiro de verdade. Massa fez o que sempre foi bom em: largou bem e conseguiu imprimir um ritmo forte de início.

Agora, as simbologias.

Felipe Massa dá seu adeus definitivo — pelo menos é o que ele garante, vamos cobrar! — à categoria, e esta parece ser uma decisão demasiado adiada.

Escrevi aqui, em 2013, sobre o anúncio da saída de Massa da Ferrari: a sequência da carreira do piloto lembrava e muito a de Barrichello. Passaram-se quatro anos e, como não somou nenhuma vitória, Felipe termina com números quase iguais aos de Rubinho.

Mas vejo Massa menor do que Rubens, sob todos os aspectos que consigo observar.

O quarto título de Lewis o coloca em categoria realmente diferenciada na história da categoria [somente outros 4 pilotos conquistaram tantos campeonatos], e sabemos o quanto a era da internet é apressada em decretar vencedores e derrotados, maiores e piores, gênios e fracassados, etc.

No entanto (e pego aqui um gancho da pergunta feita por Chiesa ao final de sua maravilhosa coluna sobre Hermann Lang), essa ideia de decretar alguém como o melhor de todos os tempos só pode ser feito se não apenas respeitarmos e conhecermos o passado, mas se o esmiuçarmos em todas as suas nuances, contextualizando todos os prós e contras.

Outra coluna que escrevi em 2013 foi procurando “o lugar na História” de Sebastian Vettel, que também se tornava tetra ali. Os comentários que fiz parecem todos eles pertinentes para o momento atual, trocando por Lewis Hamilton.

Há apenas 4 anos, Hamilton era somente mais um campeão mundial que teve belas vitórias na carreira, mas que parecia fadado à posição de “grande piloto”, longe do olimpo. Vettel, por outro lado, parecia destinado a superar seu ídolo e compatriota Michael Schumacher nos números, e a ascender ao pódio histórico – hoje, na minha visão, ocupado por Fangio, Senna e Clark.

Isso mostra duas coisas: primeiramente, que a F1 atual propicia muito mais chances (equipamento e regulamento) para que algum piloto especial – como é o caso de Hamilton e Vettel – estabeleça domínios e os reverta para grandiosidades estatísticas.

Em segundo lugar, mostra como e quanto pilotos que não tenham essas condições favoráveis em conjunto podem ser errônea e injustamente considerados menores do que suas capacidades e talento – vide o que o ocorre com Alonso, principalmente, e que Vettel pena para voltar ao topo.

Até algumas décadas, os domínios de equipes eram muito menos duradouros do que os recentes apogeus de Ferrari (00-04), Red Bull (10-13) e Mercedes (14-17). E isso acontecia não porque os pilotos fossem menos capazes ou porque as equipes fossem menos competentes em seus trabalhos de pesquisa, engenharia e experimentação.

Havia, pelo contrário, mais liberdade criativa e muito menos restrições do ponto de vista desportivo. Temos, sim, que respeitar pilotos das mais variadas eras e entender que aqueles diferenciados poderiam triunfar em distintos momentos se lhes fossem dadas as possibilidades.

Fora da pista, três episódios chamaram atenção: como naquele faroeste famoso, tivemos “o bom, o mau e o feio”.

De bom, a mensagem do filho de Felipe Massa. Com um inglês bem apurado — melhor que o do narrador, que inclusive deu uma escorregada (ou enfeitada?) na tradução — e em tom emocionado, houve uma quebra de protocolo mostrando que, afinal, a glória não é maior do que a honra. Sem hipocrisia, a família supera qualquer conquista profissional ou financeira que se tenha.

O feio fica por conta da exibição de Anitta no hino nacional: é aquela afinação falaciosa, uma vez que não se corre riscos em elevar o tom ou a extensão vocal. Ainda, a junção de versos diferentes, encurtando o hino de forma quase lesa pátria. Mas nada supera o diálogo com o repórter da emissora oficial:

– Então, Anitta, você vai torcer pelo Hamilton, seu amigo, ou pelo Massa, brasileiro?
– Vou torcer pela Renault, que é pra isso que eu vim.

Sem esforço, pode-se cravar que a cantora não saiba quem sejam os pilotos da marca francesa. Mas o que vale é o $$$.

E o mau se configura na presença do atual prefeito da capital paulista no pódio, em sua expressão de sorriso amarelo e uma total falta de pertencimento. Mas a questão não é nem essa “distância” da realidade dos autódromos mas, sim, a nefasta negociação aberta para que empresas passem a controlar o autódromo — nada contra a privatização em si, mas o temor pelo fim do complexo esportivo.

Como perfeitamente definiu Márcio Madeira, “foi como Judas beijando Jesus para entregá-lo aos inimigos”.

Resta-nos torcer para que Interlagos não seja crucificado.

5 thoughts on “O bom, o mau e o feio

  1. Bela coluna, amigo Marcel!

    Pois é, isso sem falar da onda de assaltos que atacou os membros das equipes, que ficou muito mal para o nosso GP.

    A respeito dos domínios de Vettel e agora Hamilton, você muito bem descreveu acima.

    Agora, no caso do Alonso, que é o único Bi Campeão Mundial do Grid atual, não é de todo mal para ele, quando é lembrado na lista dos Bi com nomes como, Clark, Fittipaldi e Hakkinen.

    Fraquinha essa turma!?

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Segundo Gigi Dall’igna, o engenheiro jefe da Ducati, apos falar com Dovisiozo e Lorenzo, foi um erro deles pedir a Jorge que deixasse passar a Andrea. Lorenzo, ao desobedecer, estava ajudando o italiano pois era ligeiramente mais rápido e “puxava” dele para ver se conseguiam alcançar o grupo da frente. Caso tivessem conseguido, Lorenzo afirmou que teria deixado Andrea passar à sua frente. Dovizioso confirmou que Lorenzo era um pouco mais rapido e que em nenhum momento o havia atrapallado.
    De qualquer jeito, as Ducati, em nenhum momento do fim de semana pareciam estar em condiçoes de disputar a vitória em Cheste e a queda de ambos confirma que estavam indo além do seu limite.

    1. Manuel,
      o Mundial de Motovelocidade mais uma vez foi a melhor escolha para quem quis ou pode ver uma bela disputa nas pistas , deu de 10 a 0 mais uma vez na Formula 1 e se não fosse o Marc Marquez, quem merecia o titulo era o Andrea Duvizioso que deu um show com a Ducati …

      Fernando Marques

  3. MArcel,

    na realidade não se tem muito o que falar da corrida no GP do Brasil … Vettel foi soberano e Hamilton o show man da corrida … agora eu me pergunto por que o V. Bottas não partiu pra cima do Vettel? … afinal o cara tem uma Mercedes, que é o melhor carro da Formula 1 … ou então a Mercedes dele não é melhor que a Ferrari do Vettel? …
    Quanto ao Massa, acho que desta vez ele aposenta … a não ser que o Hamilton se aposente e a Mercedes queira o Lance Stroll de piloto … hehehehehe
    A privatização de Interlagos ( a principio também nada contra) tem um cheiro que o GP do Brasil de Formula 1 pode estar com seus dias contados, até por que só Deus sabe quando teremos um piloto brasileiro na categoria …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Marcel,

    Vitória facii de Vettel sem nenhuma oposição de Bottas que decepcionou principalmente por estar disputando um vice campeonato. Torci para que ele saísse a frente de Vettel na parada de boxe para que tivéssemos um mínimo de disputa, o que quase ocorreu. Belíssima corrida de recuperação de Hamilton, merecia o pódio, acho que a Mercedes deveria ter arriscado e trocado seus pneus 2 ou 3 voltas antes.
    Marquez campeão da Moto GP com uma salvada sensacional não quis saber de pontos e partiu para cima do Zarco em busca da vitória. É o tipo de piloto que vale a pena ver em ação : rápido, arrojado, agressivo, combativo, técnico só falta diminuir o número excessivo de quedas. Candidato forte para bater os recordes de Agostini e Rossi
    Quem estragou tudo foi Lorenzo, segurando Dovizioso, desobedecendo seguidas ordens de equipe, impedindo uma disputa maior e depois ainda deu uma série de desculpas.

    Márcio

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