Tradição até quando?

Olá, amigos!

Na coluna de hoje vou falar de um tema que é sempre bastante discutido entre fãs de praticamente todas as categorias de automobilismo, a tradição.

Recentemente vi uma pesquisa, em um canal de internet, na qual perguntaram se o mecânico que levanta os carros da NASCAR deveria ser substituído por um sistema de ar, semelhante ao modelo utilizado na F-INDY. A resposta dos fãs foi bastante negativa, muitos deles falando sobre o fato de o mecânico que levanta o carro ser uma das tradições da NASCAR. Isso me fez pensar nessa questão, analisando algumas mudanças ocorridas durante os anos e que, invariavelmente, acabaram afastando alguns fãs.

Tudo na vida passa por mudanças e o automobilismo, obviamente, não é exceção. Muitas das mudanças são baseadas em questões de segurança, o que é perfeitamente cabível em qualquer esporte, afinal, ninguém quer os grande astros e atletas sejam feridos, certo?

Muitos fãs torcem o nariz para algumas dessas alterações em regras, pistas e nos próprios carros, mas quem não gostaria de ter de volta os grandes Dale Earnhardt e Ayrton Senna, por exemplo? Nem precisamos pensar muito para ter essa resposta, claro. Pra quem assiste, o entretenimento é o objetivo principal ao deixar a família de lado ou acordar em horários pouco amigáveis para ver as corridas. O risco tem grande papel nessa equação, mas só para quem está dentro do carro, nas pistas. Pergunte para qualquer piloto dos dias atuais o que ele acha dos carros dos anos 60 ou 70, imaginando-se sentado naqueles carros, a mais de 200 km/h, em pistas precárias e sem segurança. Sou capaz de apostar que eles vão dizer que os “old-timers” foram muito corajosos. Às vezes, até demais.

Na NASCAR tivemos grandes mudanças através dos anos e praticamente todas elas geraram polêmica. Citando alguns exemplos: pistas de asfalto tomando o lugar das pistas de terra e areia, carros sendo modificados além de suas configurações originais, limite na quantidade de corridas, limite no número de carros, redução de cilindradas por conta da crise energética, entrada de patrocinadores, transmissão na televisão, tecnologias sendo introduzidas nos carros, maior seguranças nas pistas com novos tipos de muros, padronização de equipamentos dentro e fora das pistas, obrigações com imprensa e muitas mudanças de regulamento. Ufa! Bastante coisa.

Esses foram apenas alguns exemplos de mudanças através da história. É possível contar nos dedos as que foram bem aceitas logo de cara, sem sombra de dúvidas. Muitos fãs reclamam que todas essas mudanças fazem com que a categoria perca suas raízes e se torne algo que eles não estão acostumados, deixando de ser a tão amada corrida que eles assistiam desde que eram bastante jovens. Todo mundo é um pouco saudosista, eu me incluo nesse time, mas é sempre bom quando uma mudança busca evolução, principalmente no quesito da segurança. A introdução do HANS Device, por exemplo, salvou e ainda salvará muitas vidas. É realmente uma pena que tal tecnologia não tivesse sido criada há muitos anos atrás. Quem sabe Dale Earnhardt não teria ganho mais títulos, tornando-se uma lenda ainda maior do que é?

Atualmente se discute muito a introdução do Halo na F1, com muitos argumentando se tratar de um dispositivo que vai tirar a identidade da categoria. Esse é um assunto bastante polêmico, principalmente por ser um elemento de segurança. Alguns pilotos gostam da novidade, outros já dizem que a F1 deve envolver um certo risco, essa é sua natureza, sua raiz, sua tradição.

Eu mesmo acho que devíamos ter um regulamento livre, como tínhamos nos anos 80, por exemplo. Cada fabricante cria e desenvolve seu motor da maneira que acha melhor, com a aerodinâmica mais flexível, com apenas algumas regras básicas. Mas você pode imaginar o nível de risco que isso traria, com vários carros andando com configurações diferentes? Uma equipe com mais recursos teria carros muito mais rápidos que outras com pouco dinheiro. Enquanto uma chegaria ao fim de uma reta a 380 km/h, outra chegaria a “apenas” 310 km/h. Uma batida com essa diferença de velocidade pode ter consequências seríssimas.

Algumas tradições podem (e deveriam) ser mantidas, principalmente as que não envolvem riscos para pilotos, mecânicos e fãs. O som, o trabalho das equipes nos boxes, as cores, a diversidade, tudo isso faz parte do espetáculo, mexendo com os fãs de uma maneira emocional. Quando foi anunciado que a F1 iria aumentar o tamanho dos pneus traseiros em 2017, muitos fãs ficaram muito felizes, principalmente porque a imagem os remeteria aos belos carros dos anos 70 e 80. São essas as tradições que os dirigentes deveriam levar em conta, antes de promover grandes mudanças nas categorias.

A NASCAR vive do som de seus motores, daquela câmera colada ao muro que mostra os carros passando a mais de 300 km/h, do som das “pistolas” nas trocas de pneus, da liberdade de regulagem dentro e fora dos carros, dos “pirulitos” que demarcam o ponto de parada nos boxes, das grandes pistas (algo que a F1 parece não cultivar tanto assim), dos grandes números nas portas dos carros, dos ovais mais inclinados, do cheiro de borracha das comemorações, do contato com os fãs e de muitas outras tradições que fazem ela ser o que é.

Acredito que não se deve alterar as características de uma categoria, principalmente quando falamos dessas características citadas acima. As mudanças mais importantes devem ser sempre nas questões de segurança e esportividade. É muito chato quando um piloto ganha o campeonato com antecedência, um pouco da graça se perde. Nesse sentido é vital equalizar regulamentos para que todos possam ter uma chance, para que as corridas fiquem mais disputadas, e para que o público tenha aquilo que sempre buscou, o entretenimento.

Falando sobre o campeonato desse ano, Martin Truex Jr e Kyle Larson estão despontando como os grandes favoritos do ano, com o piloto do Toyota Camry #78 da Furniture Row seguindo na liderança com 4 vitórias, 10 top 5 e 16 top 10. Números impressionantes. O piloto do Chevrolet SS #42 vem na cola com 3 vitórias, 10 top5 e 13 top10. Kyle Busch, Kevin Harvick e Brad Kaselowski completam os 5 primeiros no campeonato. Ainda tem bastante coisa para rolar, mas já podemos prever uma bela disputa no fim do ano.

Você concorda que as tradições precisam ser mantidas na NASCAR e em outras categorias do automobilismo? Prefere a novidade e evolução tecnológica? Deixe seu comentário!

Grande abraço.

Rafael Mansano

 

10 thoughts on “Tradição até quando?

  1. Rafael,

    eu sou saudosista, mas não sou contra as mudanças até por que para mudar tem que testar … as mudanças que deram certo, fica. As que não deram certo, não fica.
    Meu maior temor em relação a Formula 1 é ela evoluir para um jogo de vídeo game. Quando isso acontecer nenhum piloto irá mais se machucar ou morrer nas pistas … estarão todos dirigindo seus carros de dentro dos boxes com seus joysticks … Quanto ao “HALO”, não tenho ainda uma opinião bem definida … mas adoraria que a Formula 1 voltasse a ter um ronco de motor de verdade.
    Com relação a NASCAR, tradição e cultura andam lado a lado e os “Americanos” sempre gostaram de ser diferentes principalmente em relação ao automobilismo … acho o atual regulamento da NASCAR complicado e tenho as minhas duvidas se no fim o campeão foi aquele que realmente correu melhor durante o campeonato. O sistema de pontos de forma simples pode até definir um campeonato por antecedência mas dificilmente ele é injusto …
    Parabéns pela excelente coluna!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Olá Rafael,
    Já escrevi a respeito, sobre como é tênue a linha entre esporte e entretenimento. A Nascar é uma das categorias que mais ultrapassa essa linha. Particularmente eu detesto os Play-Offs e seus sistemas cada dias mais complicados. Um dos motivos para a perca gradual de público (cada ano que passa, se vê mais lugares vazios nos autódromos das corridas da Monster Cup…) seria a dificuldade de se entender a fase final.
    Para tentar resgatar o público perdido, a Nascar trouxe esse segmentos nas provas, pois outro ponto de reclamação era o tamanho das corridas. Na minha humilde opinião (podem discordar à vontade), é outro tiro no pé!

    1. Olá, João! Obrigado pelo comentário. Confesso que algumas dessas mudanças realmente são difíceis de entender, mas esperamos sempre que tragam mais competitividade. Estive na final da NASCAR em 2016 e posso dizer que é emocionante a expectativa de um campeonato ser decidido na última volta. Talvez não seja o mais justo levando em conta o ano todo, mas ajuda a trazer emoção.
      Grande abraço!

  3. Grande Rafael!

    Belíssimo tema, parabéns mais uma vez!

    Um intem tradicional que eu sinto muita falta na F1, é da luz verde na largada, que poderia voltar no lugar do “apagar das luzes”.

    A respeito do Halo, eu sou totalmente contra.

    Na Nascar, gosto muito dos patrocinadores clássicos, e de todo o esquema que envolve os pits top clássicos.

    E gostava muito dos capacetes abertos.

    É isso, esse tema sempre vem bem a calhar.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

    1. Grande Mauro!
      Concordo 100% com seus comentários, sem tirar nem por.

      Obrigado pelo comentário.

      Grande abraço!

  4. Parabéns por mais uma excelente coluna, Rafael!

    Quanto à sua pergunta, eu sempre fui um defensor ferrenho da “old school” (não tenho nada contra esta geração atual de pilotos, mas as feras dos anos 80 e 90 como Bobby Allison, Darrell Waltrip, Dale Earnhardt e Rusty Wallace protagonizaram duelos inigualáveis nas pistas) e apoio a tal “evolução tecnológica” somente para melhorar a segurança e equilibrar ainda mais as corridas.

    Marcelo C.Souza
    Amargosa-BA

    1. Olá, Marcelo! Obrigado pelo comentário. Tem algo que parece distinguir os pilotos dos anos 80, mesmo qu seja nossa memória afetiva, mas concordo com seus comentários.

      Grande abraço!

  5. Ótimo texto Rafael!

    Tirando formula truck e formula E(já tentei assistir, mas me dá sono ver aqueles carrinhos andando, meus autoramas da estrela são muito mais interessantes, que esses liquidificadores ambulantes) assisto e acompanho todos os campeonatos de 4 e 2 rodas
    Na atualidade dois campeonatos me deixam com mais tesão de acompanhar, a Nascar e a MotoGP
    A Nascar tem que manter as suas origens, que está mantendo, carros grande e motores V8
    O ronco daqueles V8 juntos arrepia demais!!!!!
    Que continue assim e não siga o caminho da F-1, com esses carros híbridos chatos
    Gostaria só de fazer um agradecimento, a Fox sports 2 por dar espaço ao automobilismo e trazer uma equipe de comentaristas do mais alto nível com o Edgar Mello Filho(sou fã dele desde a rádio bandeirantes anos 80) e o Rodrigo Mattar, verdadeiras aulas de automobilismo
    Globo acorda !!!!!!!

    1. Olá Ricardo! Obrigado pelo comentário.

      Concordo que a NASCAR e Moto GP são as categorias mais emocionantes no momento, mas ainda consigo ver alguma emoção na F1, ainda que tenha muitos problemas, na minha opinião (Asa móvel, limitação de testes, economia de combustível e etc.). Também sou fã do Edgard Mello Filho!

      Grande abraço!

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