Corrida de geladeiras

Há quem espere para breve o falecimento da Fórmula 1 como a conhecemos. Foi o anúncio da Porsche, de trocar o WEC pela Fórmula E a partir de 2018, o que tornou tão iminente o passamento da categoria, da mesma forma que as denúncias de Joesley Batista e seu irmão Wesley levaram muita gente a considerar uma questão de horas, dias no máximo, a renúncia ou o impeachment ou a prisão de Michel Temer.

Temer, porém, resistiu graças a uma combinação de pusilanimidade do Congresso Nacional, passividade geral da sociedade e falta de alternativa melhor. Creio que a Fórmula 1 também resistirá, pelo menos por mais uma década por motivos equivalentes: há todo um estamento – equipes, federações, patrocinadores, emissoras de TV, organizadores de GPs, imprensa especializada e uma miríade de prestadores de serviços, uns maiores, outros menores – habituado às condições presentes da categoria e que resiste a mudar, tanto mais agora, que está ganhando uma sobrevida graças à gestão mais arejada que vem sendo adotada pela Liberty Media. Nós, torcedores, seguimos pouco podendo fazer para mudar qualquer coisa que seja na categoria, enquanto que as alternativas seguem padecendo ou de juventude ou dos reflexos de crises econômicas ainda não completamente superadas e da concorrência feroz da própria Fórmula 1, que drena para si todos os recursos de que é capaz.

A Fórmula E poderá ser uma alternativa válida? Não sei, ninguém sabe.

Não acompanho a categoria novata, mas sei que ela cresce rápido e imagino que possa continuar crescendo, principalmente se os organizadores seguirem investindo na sua divulgação e se as montadoras acreditarem que pode ser uma boa. Nos anos 70/80, porém, elas acreditaram que os motores turbo comprimidos seriam importante para o futuro dos carros de passeio, despejaram muito tempo e dinheiro na ideia e simplesmente não rolou. Agora, muitos consideram que o futuro dos automóveis passa pela eletricidade e não mais pelo petróleo. Há, porém, muitos problemas técnicos por serem resolvidos nos carros elétricos, o preço sendo um deles. Roberto Agresti se confessa entusiasmado com as qualidades do Toyota Prius, mas o modelo, um compacto, custa cento e vinte mil reais – e lá se vão vinte anos desde o seu lançamento.

Não podemos considerar que o simples desinteresse das montadoras pela Fórmula 1 seja o bastante para condenar a categoria. Ela, afinal, virou-se e muito bem durante décadas sem o apoio direto das grandes montadoras e sempre haverá uma Cosworth ao alcance da mão para produzir um motor versátil que garagistas possam montar em seus próprios chassis e fazê-los correr.

A questão não é propriamente esta. Me preocupa acima de tudo o esfarelamento da base mais profunda a sustentar Fórmula 1: a relevância do automóvel em nossas vidas.

Creio que não dura por muito mais tempo a visão do automóvel como um símbolo de status, masculinidade, conquista e ascensão pessoal (esqueci de algo?). Carros viraram geladeiras: todo mundo tem e quem não tem não se sente frustrado ou diminuído por causa disso. Carros compartilhados e sem motoristas são discutidos abertamente, à luz do dia, e ninguém mais se choca.

As corridas de automóvel certamente não resistirão a esta visão menos passional da sociedade. Será que alguém vai querer ver corrida de geladeiras? O tempo inexoravelmente passa, tornando a Fórmula 1 e outras categorias mais e mais distante dos jovens, para quem uma hora e meia, uma hora e quarenta de atenção concentrada pode ser um pouco demais.

É a mesma coisa que já aconteceu com o rock. Ficou datado, perigosamente próximo do anacrônico, simplesmente passou.

Dia desses, desafiei três jovens na faixa dos trinta anos, um pouco mais, um pouco menos, a identificar o rock que estava tocando ao fundo. Só um acertou e assim mesmo se atrapalhou com o nome da música. É triste, sim, mas como posso achar ruim que alguém desconheça uma música que foi sucesso 51 anos atrás, cantada por um senhor que hoje tem 77 anos e já é bisavô (tente matar a charada: de que música, grupo e cantor estou falando? É fácil. Resposta no final da coluna). Gostar de rock ficou mais ou menos como gostar de tangos e boleros. Em breve gostar de corrida de automóvel carregará a mesma pecha, com o agravante de fazer mais mal ao meio ambiente que os riffs de Keith Richards.

Nas últimas semanas, depois da minha última coluna, não sei bem explicar o porquê, passei a olhar a temporada 2017 da Fórmula 1 com olhos menos benevolentes. Suponho que a estamos superestimando, graças a alguns avanços técnicos e de marketing e pelo desalento em esperar por coisa muito melhor, mais ou menos como o Brasil em relação a Temer. E, claro, também porque toda a cadeia alimentar da Fórmula 1 sente a água bater no queixo ou mesmo acima dele – perguntem a Ron Dennis.

Autosprint consultou Luigi Mazzola, engenheiro com vinte anos de experiência na Ferrari: quem são os favoritos para os GPs de Spa em diante?

Mazzola cravou empate na Malásia, Mercedes em Spa, Monza, Interlagos e Abu Dhabi, Ferrari em Cingapura, Suzuka, Estados Unidos e México, nestas duas últimas frisando que a vantagem italiana é pequena, a equipe se destacando em pistas que exigem mais aderência e onde possam ser usados os compostos macios.

Temo que Mazzola tenha sido benevolente para com o antigo empregador (ele deixou a Ferrari em 2009). Temo que Lewis Hamilton ganhe seu quarto Mundial com alguma facilidade em 2017

A música que estava tocando era Yellow Submarine, dos Beatles, cantada por Ringo Starr que se tornou bisavô de uma menina no ano passado. Nem sei se Paul McCartney já igualou o feito do antigo colega de banda.

Boa semana a todos

Eduardo Correa

9 thoughts on “Corrida de geladeiras

  1. Texto deveras negativo e comparação bem ruim com Temer não acha? rs. Serio que vc pensa que o amor ao esporte a motor é pq da “masculinidade, brio, vigor e ascensão pessoal”? Se vc pensa isso com certeza vc deve ter uma visão meio “capitalista” do mundo — mts que gostam de F1 gostam pq do desafio homem-máquina e o quão bom o ser humano consegue ser, para produzir com suas mãos equipamentos capazes de o levar à vitória. E claro, do controle quase “divino” que alguém precisa ter para levar esta mesma máquina ao limite e vencer a si mesmo, e a seu adversário, numa luta digna e honrada.

    Recentemente vi o Chris Horner confabulando com seus botões que brevemente o componente “piloto” esteja fora dessa equação — o q de fato nos privaria da magia de ver um homem pilotando sua máquina “in loco”. Mas tudo me parece tão distante qnt uma força aérea inteira formada apenas por drones que precisam de pilotos apenas para dizer “fire” — ou seja, tudo mt distante e de certa maneira louco. Não que seja impossível, pelo contrário, mas na verdade um (os drones) não querem dizer que os pilotos de caça e suas esquadrilhas serão extintas. Na vdd, um complementa o outro e provavelmente assim será tbm com o esporte à motor. Quem sabe não vamos ver corridas de drones como já tem lutas de robos? Agora que um substituirá outro Necessariamente…

    Sobre o crescimento dos carros elétricos, oras, qnd eles se tornarem realmente práticos e baratos de forma geral, com certeza essa tecnologia surgirá na F-1. Isso é o de praxe. Acho que o que precisa-se manter é uma certa… caridade. N precisa ficar mergulhado em tanto compadecimento só pq o governo não é o que se quer, ou pq não se gosta de carros elétricos (n gosto deles tbm). Mas a humanidade sempre acha meios de persistir e de florescer. É assim que somos. E o progresso está aí tão alto e claro que não me deixa mentir. Tanto que oras veja, mts pessoas podem ter “geladeiras” — elas não são mais para poucos abastados, mas para mts que possam e têm força para o trabalho. Isso é progresso.

    Abraços. Seja mais positivo meu amigo!

  2. Muito boa a discussão levantada.
    Concordo com o Lucas, não é o advento do crescimento do interesse pelos carros elétricos que tem roubado a audiência da F1, tão pouco acredito que seja por falta de emoção nas corridas, se assim fosse, a MotoGP estaria concentrando audiênciase gigantescas uma vez que tem um campeonato super disputado , recheado de corridas com emoção até o fim.
    Acho que o Eduardo acertou “na veia” ao apontar a redução da relevância do automóvel na vida da humanidade como fator principal. Alio a isto ao vasto leque (ainda crescente) de opções de lazer disponível nos dias atuais. Sou de uma geração que tinha acesso a uma gama minúscula de canas de TV aberta para escolher, com programações limitadas, onde o telespectador tinha que escolher entre assistir um GP de F1 ou um programa de auditório. Hoje a maioria dos jovens têm uma infinidades de opções para escolher além da F1. Isso só para falar da competição na TV, mas acredito que nas te linhas o maior competidor da F1 é a Internet. Fora das telas há também um enorme número crescente de opções de lazer ao alcance dos potenciais espectadores.
    A tarefa da Liberty Media para aumentar ou até mesmo manter a audiência não será nada fácil.

  3. Grande Edu!

    O mundo está virado em mimimi, e infelizmente, tanto o Rock como o automobilismo estão sendo atingidos por isso.

    Essa música da propaganda da F1 na globo, é muito Nutella, pra não falar outra coisa.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  4. Oi Fernando, obrigado pela resposta

    Considerei a charada musical fácil pelo fato de, pelo que sei, só Ringo ser bisavô entre os dinossauros do rock

    Abração

    Edu

    1. Edu,

      não sabia que o Ringo já era um bisavô … mas pensei em Satisfation talvez numa tentativa da Formula 1 ainda continuar satisfatoriamente esportiva de ser … em todo o caso sua comparação foi mais que perfeita …

      Fernando Marques

  5. Eduardo,

    Acredito que a F1 ganhe sobrevida com algumas propostas da Liberty Media como, por exemplo, a padronização de alguns componentes. A busca de maior interação com os fãs é algo também bem interessante.

    Se conseguirem também uma redução de custos vindas de um menor investimento na aerodinâmica e no abandono deste caro grupo moto propulsor hibrido atual acredito que mais montadoras serão atraídas. Seria bom ver muitas delas participando como fornecedoras de powertrain.

    Um motor 1.6 V6 biturbo com limitação de rpm e pressão é uma solução bem legal. O uso de Kers para recuperação de energia que seria perdida nas frenagens também seria ótimo.

    A ideia dos fabricantes de apostarem no turbo era boa, haja visto o grande aumento da sua aplicação nos automóveis atuais, principalmente por causa da questão das emissões. Era só continuar baixando a pressão do turbo como vinha sendo feito e tudo se resolveria. Ao bani-los a FIA impediu a F1 de ser usada como laboratório de desenvolvimento da tecnologia turbo por 26 anos, o que foi uma grande perda.

    Quanto à questão do papel e imagem do automóvel nos dias atuais concordo plenamente com você.

    Márcio

  6. Edu,

    o futuro da Formula 1, e/ou possivelmente do automobilismo esportivo vai ser mais ou menos isso aí que você escreveu na sua coluna. E torço para continuar ainda gostando dela.
    Quanto ao rock sou fã dos anos 59,60 e 70. Em termos de rock nada se compara a este período na minha opinião. Não me entusiasmo por mais nada do rock que seja dos anos 80 para cá … nem sequer escuto … continuo fiel as minhas preferências …
    Mas errei a musica, pensei que fosse “Satisfaction” dos Rollin Stones …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  7. Só discordo quanto à “falta de alternativa melhor” em relação ao Temer – não seria nem um pouco difícil achar alternativas melhores a um presidente que provavelmente é o maior desastre a ocupar o planalto desde José Sarney 🙂
    Já sobre a F1, não sei se coisas como o advento de carros elétricos sejam o que realmente estejam fazendo com que o interesse diminua. Fosse assim, a Formula E deveria ser um sucesso, mas quem se importa com ela? Pra mim o problema é outro: a dificuldade dos carros atuais em proporcionar boas corridas.

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