Errei, erramos

Ano passado, o Baku caiu na minha mão. Lucas tinha pedido para falar sobre Le Mans, que acontecera no mesmo dia. Desta vez, não houve coincidência de datas entre a prova de turismo e da F1, mas outra vez precisei pegar o Baku: eu iria comentar Montreal, mas fui acometido por forte gripe. Márcio, como Lucas no ano passado, mais do que deu conta do recado.

Mas agora não tenho nada do que reclamar: que corrida foi essa?!

Entre as posições de largada e o final, apenas uma se manteve: Vettel partiu e terminou em quarto. Mas absolutamente NADA se manteve como o esperado: se ano passado a corrida teve zero nuance, nesta edição tivemos zero previsibilidade.

Comecemos pelo vencedor.

Daniel Ricciardo, que agora iguala nomes como Michele Alboreto e Keke Rosberg em vitórias, conquista seu triunfo mais especial, tendo largado em décimo e caído para décimo-sétimo nas voltas iniciais

Sua vitória foi um misto de estratégia, sorte e braço.

A estratégia se dá de início, quando ele fez sua troca de pneus (duros-macios).

Na sexta volta, recém-saído dos boxes, qualquer prognóstico que não apontasse para a vitória de um dos líderes do campeonato seria irreal, e sugerir o piloto da Red Bull como o provável ganhador não passaria de piada.

O jogo começa a virar para Ricciardo no abandono de Kvyat. A saída do russo demandou a entrada do Safety Car, e aí foram várias voltas sob bandeira amarela e com carro de segurança. Vários pilotos vão aos boxes, e Ricciardo é quinto no momento da bandeira vermelha.

O braço foi seu segundo e mais importante momento para garantir a vitória: na relargada ele ganha duas posições — na verdade, tecnicamente  foram três, porque Hulkenberg o ultrapassou por instantes — em uma mesma ultrapassagem. Agora só havia Hamilton e Vettel à sua frente.

Vem então a sorte, traduzida na parada emergencial de Hamilton e na punição a Vettel.

Em suma, Ricciardo provavelmente não venceria em condições normais ou simplesmente realistas. No entanto, teve o desempenho individual mais notável dentre todos os pilotos da prova.

Falemos agora do possível vencedor, Felipe Massa.

O brasileiro foi bem, tendo um desempenho mais sólido do que nas etapas anteriores. Foi mais aguerrido e não teve a curva descendente que normalmente apresenta ao longo de uma corrida.

Acabou tendo seu desempenho comprometido por uma avaria, notada pouco antes da relargada. Mas não passa de achismo e desnecessário exagero a ideia de que “a corrida era dele”.

(É preciso elogiar Burti, que foi extremamente lúcido ao comentar o “Se…”).

Como Edu bem apontou, a carreira de Massa vai cada vez mais espelhando a de Barrichello.

O companheiro de equipe de Massa teve uma corrida igualmente notável e, apesar de ter perdido a segunda posição nos últimos metros, sua colocação final foi uma boa coroação: mais jovem a subir ao pódio.

Seus primeiros pontos no Canadá, e a boa performance no Azerbaijão (lembremos que ele já havia superado Felipe nos treinos) mostram que muitos de nós — e eu fui um dos que afirmou que ele não tinha condições para ser piloto de F1 — erramos nos prognósticos.

Mesmo oriundo do PlayStation, Stroll pode se adaptar, aprender e crescer, futuramente se tornando um piloto importante na categoria.

Do restante do grid, mais uma vez destaque para o desempenho de Alonso — finalmente os primeiros pontos dele e da McLaren! — e para a Force India: negativa (outra batida) e positivamente (invariavelmente a melhor fora das principais, tanto com Perez quanto com Ocon), outra vez.

Hamilton e Vettel mais uma vez protagonizaram a prova, mas o resultado final contrariou tudo que se esperava de ambos.

O acidente que mudou o rumo da corrida nasce do excesso de confiança de Hamilton.

Tática muito explorada por Ayrton Senna e elevada por Schumacher, a ideia de diminuir sensivelmente a velocidade para retomar a aceleração em seguida sempre foi questionável, embora pouco questionada.

Vettel, então, “pagou pra ver”, e o resultado foi ruim para ambos, ainda que o alemão tenha saído vencedor no duelo pessoal.

Além dos três pontos de vantagem, o alemão consegue encaixar o primeiro golpe psicológico contra Lewis: o inglês, que até outro dia elogiava Vettel — muito pra cutucar Alonso, é claro — dizendo ser ele seu melhor e mais honrado adversário, agora o chama “para provar que é homem fora do carro”.

A história da categoria mostra que não é só na pista que se vence campeonatos.

O prejuízo de Hamilton poderia até mesmo ter sido maior, caso Bottas não protagonizasse tamanha recuperação.

Após mais uma batida com seu compatriota, o piloto da Mercedes foi lá para o fim do grid e no final ainda conseguiu uma segunda colocação irretocável.

A ultrapassagem sobre Stroll na linha de chegada não deve ser colocada na conta do novato. O mérito foi do #77, que não diminuiu o ritmo e soube pensar sua ultrapassagem, buscando o melhor posicionamento e usando-se da asa móvel.

Bottas já conquistou sua vitória na temporada, e não deve ir muito além disso, no final das contas — talvez um ou outro triunfo, mas nada muito maior do que isso.

No entanto, poderá ser lembrado no futuro como peça chave na decisão do Mundial 2017.

A famigerada asa móvel é o tipo de coisa em que há uma lei, e aqueles que se beneficiam dela não podem ser culpados: questionados devem ser os que as tornam a regra do jogo.

Na corrida, muito se criticou a possibilidade de se mexer nos carros durante a bandeira vermelha — chegou-se ao cúmulo de ver pilotos que já haviam abandonado a prova retornando à pista.

Afinal, prova interrompida e prova suspensa não são exatamente sinônimos, e uma corrida pausada não deveria, a meu ver, sofrer qualquer espécie de interferência externa.

Outra regra que me parece bizarrice mas que agora já foi posta em prática é a “pontuação negativa” dos pilotos: como consequência do que somou pelo imbróglio com Hamilton, Vettel corre risco de ser suspenso de uma prova.

Quer algo mais artificial para o decorrer do campeonato?

Vettel que se adapte, pois.

A Fórmula 1 agora volta a se reunir na Áustria, onde, meus queridos, o setup dos carros NÃO SERÁ IGUAL ao do Azerbaijão.

Não tem nada como o Baku. O Baku é um só.

5 thoughts on “Errei, erramos

  1. Grande Marcel!!

    A corrida foi interessante, apesar de o que a MOTOGP nos protagonizou as 08h00 na Holanda, era até covardia querer que a F1 conseguisse superar, e olha que os pilotos até tentaram.

    Porem, eu sou da opinião que esta pista de Baku não serve pra F1, é muito estreita, e aquela reta longa cercada de muros, é um perigo enorme.

    Ou seja, na minha opinião, esta pista não é segura para os carros de F1.

    A respeito da prova, só gostaria de acrescentar que este segundo lugar do Bottas, pode lhe fazer uma diferença lá no final do campeonato, SE ele tiver chances de ser campeão.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Marcel,

    Corrida muito emocionante, imprevisibilidade é algo bem legal, valeu a pena assistir.

    Bela vitória de Ricciardo, é algo bem improvável na F1 para alguém estando na 17ª posição chegar em 1º.
    E o Stroll finalmente desencantou, eu também sou outro que não dava crédito a ele e ai temos o mais jovem piloto a conseguir um pódio, mas sendo surpreendido nos metros finais por uma ultrapassagem de Bottas.

    Sobre Vettel x Hamilton concordo com o que o Fernando falou. Assisto F1 e Indy há um bom tempo e não me recordo de ter visto outro piloto ter tido uma reação semelhante ao do Vettel, ou seja após levar um toque, tomar uma fechada ou o seu competidor reduzir a velocidade à sua frente, revidar daquela maneira emparelhando o carro ao lado e bater rodas no carro do outro. Me pareceu fruto de um desequilíbrio emocional. Na Nascar sim, já vi coisas piores.

    Na minha visão aquilo nunca foi direção perigosa como disseram os comissários, mas atitude antidesportiva, conforme salientou o Fernando, e pela gravidade e mau exemplo dado por um tetra campeão achei a punição aplicada a ele muito branda. Cabia uma desclassificação.

    Pela análise da telemetria os comissários concluíram que Hamilton não freou, então não houve o break test alegado por Vettel. O que percebi foi uma redução acentuada de velocidade de Hamilton, coisa que quem está comandando um pelotão costuma fazer para levar vantagem sobre os demais na relargada.
    Mas mesmo que isto fosse passível de punição o revide de Vettel é injustificável.

    Usando um exemplo do futebol é como se alguém fizesse uma falta passível ou não de levar cartão amarelo em outro ou espertamente o provocasse e este revidasse com uma agressão. Isto logicamente é um caso de expulsão para o agressor. A agressão é injustificável. Vide o caso da cabeçada de Zidane em Materazzi na copa de 2006, após este ter insultado seus familiares. Ao ser expulso Zidane acabou prejudicando a seleção francesa, no caso de Vettel ele perdeu a chance de ganhar a corrida.

    Mas há males que vem para bem, se não houver baixarias, o acirramento da rivalidade vai ser benéfico para a disputa do titulo e nós espectadores vamos ganhar com isto. Creio que Hamilton deve endurecer o jogo daqui por diante, parando finalmente com os elogios desnecessários que vem fazendo sobre o adversário que disputa um titulo com ele.

    No mais foi um bom fim de semana para mim onde também pude acompanhar a vitoria de Rossi na Moto GP e Helinho chegando em 3º no belo circuito de Road America.

    Márcio

  3. Pelo visto neste fim de semana fui péssimo nos meu prognósticos. Leiam o que eu disse na coluna passada: “Quanto a corrida em Baku, vou ver é claro mas não espero muita coisa … aquele trecho onde só passa um carro de cada vez não tem nada a ver.
    Quem largar na frente, ganha.” … Passei longe …
    O que eu vi no domingo foi algo totalmente inverso ao que fale … corrida maluca? … talvez sim … a melhor corrida do ano até agora? … com certeza que sim … Salve Baku!!!!
    A corrida foi tão maluca que cheguei a sonhar com uma vitória do Massa após aquela tentativa de nocaute do Vettel em Hamilton … mas infelizmente sua Willians o traiu … O Massa guiou o fino em Baku, como há muito tempo não se via dele … foi triste ver ele ficando para trás …
    Quanto ao que Vettel fez, vou aqui discordar da opinião do MArcel … Vettel foi anti esportivo … tomar apenas 10 segundos de punição foi muito pouco, ele saiu no lucro e na frente do Hamilton … tão pouco quanta a punição que Prost tomou quando bateu em Senna de propósito e Senna quando revidou o golpe em Prost no ano seguinte, e tão pouco quando o Alemão Dick Vigarista bateu em Damon Hill e J. Villenueve … Vettel deveria ser desclassificado e suspenso por 1 ou duas corridas, assim como os demais citados … se no regulamento houver uma punição exemplar para atitudes anti esportivas não veríamos tantos precedentes desde que Prost bateu em Senna … o Vettel aliás já merecia isso quando jogou o Massa para fora da pista ano passado … decepção total com Vettel …
    Quanto a vitória do Ricciardo, ladeado com Bottas (outro que fez umcorridaço) e L. Stroll no pódio, deu outra vida a Formula 1. Pelo visto as críticas do J. Villenueve fizeram bem ao Stroll …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Olá Marcel, você deu uma misturada na Force India com a Sauber ali rs

    Eu também achei estranho e confesso ter ficado sem entender a permissão dos carros voltarem após conserto e ainda na mesma volta dos demais.

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