Pace em Le Mans

Estamos novamente às vésperas de mais uma edição das 24 Horas de Le Mans, corrida que o Brasil nunca venceu. E não vai ser este ano que teremos chances, ao menos no geral. A briga vai ficar entre duas marcas sem brasileiros a bordo: a vencedora Porsche e a eterna desafiante Toyota, que ano passado perdeu da maneira mais dramática possível.

Pilotos brasileiros como Ricardo Zonta e Raul Boesel já bateram na trave várias vezes, e vamos aproveitar a ocasião pra contar a primeira dessas grandes chances que ficaram infelizmente no ‘quase’. Adoro a prova de Le Mans, e pra isso resolvi juntar forças com o Lucas Giavoni, reconhecidamente um maluco pela corrida, e esse texto acabou saindo em dupla.

Comentei com ele o quanto seria legal falar um pouco da participação do José Carlos Pace na edição 1973, com a linda Ferrari 312 PB, ainda mais quando lembramos que neste ano já faz 40 anos que o saudoso Moco nos deixou. É uma justa homenagem.

Junto com Emerson e Wilsinho Fittipaldi, Pace foi um dos grandes personagens que ajudou o brasileiro a gostar de Fórmula 1 e que serviu de inspiração para toda uma geração. E no momento em que sua carreira começava a crescer, em 1973, Pace acabou sendo convocado por Enzo Ferrari a fazer parte do time de endurance da marca, junto a nomes como Jacky Ickx, Carlos Reutemann, Brian Redman, Tim Schenken e Arturo Merzario, todos fazendo carreira simultânea da F1 e no Mundial de Marcas.

A Ferrari vinha de uma temporada 1972 simplesmente perfeita. No novo regulamento que baixou de 5 para 3 litros a cilindrada dos protótipos, que acabou aposentando a Ferrari 512 e o temível Porsche 917 (que ganhava tudo), os italianos venceram simplesmente todas as provas de endurance que participaram com a 312 PB, dando uma surra na concorrência, composta por Porsches 908/03, Alfas T33 e Matras MS670.

No entanto, eles não se inscreveram em Le Mans porque o Flat-12 era quase que totalmente baseado no motor do carro de Fórmula 1, e a Ferrari temia que uma configuração dessas não aguentasse uma prova de 24 horas.

A vitória de Le Mans 72 acabou ficando com a Matra, que vinha de uma experiência difícil na Fórmula 1 e resolveu apostar todas as suas fichas nas endurances. O modelo MS670 ganhou em 1973 uma versão B bem melhorada, com câmbio produzido pela Porsche, e começou a vencer provas que a 312 PB antes dominava.

Então a Ferrari foi obrigada a se inscrever em Le Mans para recuperar o terreno perdido. E nesse contexto, Pace teve sua primeira – e única – experiência no mítico circuito de La Sarthe. Uma linda batalha de azuis contra vermelhos: Matra x Ferrari.

Em 1973, Pace foi contratado para disputar a temporada completa e formou dupla com o italiano Arturo Merzario, figura muito querida pela imprensa de seu país. Eles iniciam com um 4º lugar em Vallelunga, repetindo o mesmo em Dijon-Prenois na França (ambas vencidas pela Matra) e em Spa-Francorchamps.

Nos 1000 km de Nürburgring, Pace e Merzario fizeram uma grande corrida, e só não venceram por ordens de equipe para deixar Ickx / Redman na frente, nessa que foi a primeira vitória da Ferrari no ano e que deixou Merzario furioso. E então chegamos em Le Mans, que naquele ano de 1973 foi disputada nos dias 9 e 10 de junho.

Merzario marcou a Pole Position com o tempo de 3m37s, com uma média de velocidade de acima dos 225 Km/h. O traçado havia sofrido algumas alterações um ano antes, com adição de curvas antes da reta dos boxes, mas preservou inteira a longa reta Mulsanne, que ganharia duas chicanes só a partir de 1990.

A tática da Ferrari era fazer com que os Matras, que tinham melhor estabilidade, quebrassem. A Ferrari #16, de Merzario / Pace seria o ‘coelho’ que puxaria o ritmo, a #17 de Reutemann / Schenken andaria no que eles classificaram como ritmo ‘ideal’ pra se meter entre as Matras, e a Ferrari #15 de Ickx / Redman faria o ritmo ‘tartaruga’, por segurança.

Eles enfrentariam nada menos que quatro Matras com um dream team francês: #10 de François Cevert / Jean-Pierre Beltoise; #11 de Henri Pescarolo / Gérard Larrousse; #12 de Jean-Pierre Jabouille / Jean-Pierre Jaussaud; e #14 de Patrick Depailler / Bob Wollek.

Assim que foi dada a largada, a Ferrari colocou em prática seu plano. Arturo Merzario, que foi escolhido para o primeiro turno, enfiou a bota como se não tivesse amanhã. O pequeno italiano que gostava de usar chapéu estilo caubói imprimiu um ritmo alucinante nas primeiras horas. A ideia era atrair a Matra, mas os franceses não morderam a isca, mantendo todos praticamente o mesmo ritmo e deixando a Ferrari #16 se distanciar.

Ainda assim, Merzario conseguiu uma liderança tão grande no começo que, quando entregou o carro a Pace, A Ferrari até mesmo pôde trocar as castigadas pastilhas de freio, e ainda assim voltar em primeiro. Naquele momento, um piloto brasileiro liderava Le Mans pela primeira vez na história da corrida e as chances de vitória eram muito boas.

Um mundo de coisas pode acontecer numa corrida de 24 horas. Com uma sólida liderança, Pace entrou nos boxes na terceira hora numa parada de emergência com macacão e cockpit inundados de gasolina, devido a uma rachadura no coletor do tanque. A Ferrari perdeu quase meia hora para trocar a peça e enxugar o cockpit, e o carro cairia para 14º, enquanto Pace era atendido no ambulatório do autódromo com queimaduras que lhe causaram fortes dores durante as quase 20 horas restantes.

E essas horas restantes foram de uma batalha muito dura, em que as duas equipes se revezaram na ponta. O Matra #10 teve uma curta liderança, até sofrer um estouro de pneu em plena Mulsanne. Beltoise teve habilidade de evitar um acidente grave, mas a suspensão ficou seriamente danificada. Um problema parecido também atrasou o Matra #14, fazendo com que ambos abandonassem, enquanto que o Matra #11 perdeu tempo para consertar os freios e o seletor de câmbio.

Esses problemas com os franceses promoveram a Ferrari de Reutemann para a ponta na sexta hora. Só que esse carro sairia da corrida com uma biela quebrada. A ponta, a partir da hora 11, foi parar com a Ferrari ‘tartaruga’ de Ickx, seguido pelo Matra #11.

Com apenas 6 horas para o fim, Ferrari #15 e Matra #11 entraram praticamente juntos nos pits para reparos demorados. A Ferrari demorou 9 minutos para trocar um coletor de escape rachado, mas a Matra demorou apenas 5 minutos para substituir as pastilhas de freio… Com isso, Pescarolo e Larrousse assumiram uma liderança que não perderiam mais.

O carro de Ickx ainda tentou fazer frente, mas acabou tendo o motor estourado na última hora e não viu a quadriculada. Com isso, Pace e Merzario, que fizeram uma corrida de recuperação, foram promovidos para a segunda posição, completando a corrida 6 giros atrás do Matra vencedor, que rodou 355 voltas.

Moco cumpriu o resto do contrato com a Ferrari, com um 3º lugar nos 1000 km de Watkins Glen, e na Fórmula 1 conseguiu grande destaque na Surtees a ponto de ser promovido para a Brabham. E a Ferrari acabou perdendo o Mundial de Marcas para a Matra, que venceu as duas últimas provas do ano.

No final, Pace comentou: “Para mim correr em Le Mans era um sonho. Foi uma experiência muito útil. Mas se depender de mim nunca mais corro lá. É extremamente desgastante participar de uma prova de 24 horas de duração”.

Havia também um outro motivo, que Moco comentou apenas para os amigos íntimos: “Aquilo é uma loucura. A gente chega no fim da reta a 300 km/h e encontra um carro desses menos potente andando a 200 km/h. A pista é estreita e perigosa, Não quero mais saber de Le Mans”.

Não apenas Pace como a Ferrari nunca mais concentraram esforços em Le Mans em busca da vitória, já que os italianos desativaram o departamento de endurance ao final daquele ano para ter foco total na Fórmula 1.

Pena que essa curta união Ferrari-Pace ficou no quase e bateu na trave. Fosse essa uma vitória, talvez Pace pudesse mudar de ideia para participar de outras edições. Afinal, talento para isso ele tinha.

E assim como as vitórias de Emerson na Fórmula 1 e na Indy, na década seguinte, uma vitória de Pace não apenas ia ser lembrada com muito carinho tantos anos depois, como poderia abrir as portas para que mais brasileiros embarcassem nessa maravilhosa corrida.

Mas por enquanto, infelizmente, continuamos no quase…

Tenham todos uma ótima edição 2017 das 24 Horas de Le Mans!

Mauro Santana

7 thoughts on “Pace em Le Mans

  1. Mauro Santana, texto saboroso e trazendo grandes lembranças quanto a última participação da grande equipe ferrari naquela que é a prova mais difícil do planeta. Só lembrando que a ferrari havia vencido os 1000 km de Monza antes dos 1000 km de Nuburgring em 1973.

  2. Mauro,

    Fiquei impressionado como a Ferrari não se arriscou em Le Mans 72, sendo que das 11 corridas do campeonato ganhou 10, seria uma grande chance, depois de perder por 4 anos para a Ford e depois 3 anos para a Porsche. Os Porsche 908 de 3 litros, as Matra, as Alfas, as Lolas e depois os Mirage não eram páreo para a bela 312 PB. Acredito ter sido um erro estratégico, era uma questão de tornar o flat 12 confiável funcionando em rotações mais baixas por 24 h, o que provou ser verdadeiro em 73 com o carro de Pace chegando até o final. No minimo 72 serviria como um laboratório para 73, onde com mais experiencia chegariam com muito mais chances de ganhar. Acho que o orgulho e o medo de perder de novo falaram mais alto e ai tiveram que entrar de toda maneira em 73 por causa do campeonato, mas contra uma Matra muito mais forte do que no ano anterior.

    Se levarmos em conta que Pace perdeu 30 min nos boxes, que ele terminou 6 voltas atrás e que as voltas eram feitas em menos de 4 min, não fosse este problema no tanque poderíamos ter tido a 1ª vitoria brasileira em Le Mans.

    Já a decisão da Ferrari de se concentrar na F1 a partir de 74 deu resultados, pois desde 64 não conseguiam nenhum titulo na F1 e em 74 Regazzoni disputou o titulo de pilotos até a ultima prova, em 75 Lauda foi campeão, em 76 perdeu para Hunt por causa do acidente em Nurburgring, e em 77 foi campeão novamente. No campeonato de construtores estabeleceram um domínio de 3 anos(75-77) só perdendo com o advento do Lotus asa em 78, mas sendo campeões novamente em 79 tanto no campeonato de pilotos(Scheckter) como no de construtores.

    E as famigeradas ordens de equipe da Ferrari sempre fazendo raiva nos pilotos. Eles que eram os maiores ganhadores em Le Mans até então, ganharam na geral pela ultima vez em 65.

    Márcio

    1. Concordo contigo Márcio, mas sabemos que a palavra final era sempre do Comendador, e infelizmente ele errou em não ter autorizado a participação de sua equipe na prova de 72.

      Grande abraço!

  3. Mauro,

    Fiquei impressionado como a Ferrari não se arriscou em Le Mans 72, sendo que das 11 corridas do campeonato ganhou 10, seria uma grande chance, depois de perder por 4 anos para a Ford e depois 3 anos para a Porsche. Os Porsche 908 de 3 litros, as Matra, as Alfas, as Lolas e depois os Mirage não eram páreo para a bela 312 PB. Acredito ter sido um erro estratégico, era uma questão de tornar o flat 12 confiável funcionando em rotações mais baixas por 24 h, o que provou ser verdadeiro em 73 com o carro de Pace chegando até o final. No minimo 72 serviria como um laboratório para 73, onde com mais experiencia chegariam com muito mais chances de ganhar. Acho que o orgulho e o medo de perder de novo falaram mais alto e ai tiveram que entrar de toda maneira em 73 por causa do campeonato, mas contra uma Matra muito mais forte do que no ano anterior.

    Se levarmos em conta que Pace perdeu 30 min nos boxes, que ele terminou 6 voltas atrás e que as voltas eram feitas em menos de 4 min, não fosse este problema no tanque poderíamos ter tido a 1ª vitoria brasileira em Le Mans.

    Já a decisão da Ferrari de se concentrar na F1 a partir de 74 deu resultados, pois desde 64 não conseguiam nenhum titulo na F1 e em 74 Regazzoni disputou o titulo de pilotos até a ultima prova, em 75 Lauda foi campeão, em 76 perdeu para Hunt por causa do acidente em Nurburgring, e em 77 foi campeão novamente. No campeonato de construtores estabeleceram um domínio de 3 anos(75-77) só perdendo com o advento do Lotus asa em 78, mas sendo campeões novamente em 79 tanto no campeonato de pilotos(Scheckter) como no de construtores.

    E as famigeradas ordens de equipe da Ferrari sempre fazendo raiva nos pilotos. Eles que eram os maiores ganhadores em Le Mans até então, ganharam na geral pela ultima vez em 65.

    Márcio

  4. Mauro,

    já se fazia mais que tempo para se lembrada a participação do Jose Carlos Pace nas 24 Horas de Le Mans.
    E se faz necessário tambémdestacar a 2ª colocação na corrida. Aqui no Brasil só a vitória presta. Pace mesmo não vencendo, conseguiu algo inédito para o automobilismo brasileiro que foi colocar o nome do Brasil no pódio, e logo na sua primeira ( e única) participação na corrida …
    show de bola

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *