A casa e o dono

Esqueçam as distrações, Lewis Hamilton teria vencido o GP do Canadá em condições normais, mesmo que Vettel não tivesse enfrentado qualquer infortúnio. O território é dele, é a sua pista, sua casa automobilística, o local que melhor casa com seu estilo. Portanto, o prejuízo de Vettel após a dividida com Verstappen que danificou sua asa dianteira, obrigando-o a fazer uma lenta parada extra e a perder muito tempo enquanto brigava com conjuntos mais lentos, foi de apenas seis pontos. Levando tudo em consideração, saiu barato para o tetracampeão.

O respeito pela força de Hamilton em Montreal não significa dizer que a corrida teria sido uma barbada. Sabendo que seria o responsável pela cobertura da corrida aqui no GPTotal, tratei de ver a corrida inteira com um olho na pista e outro no live timing. E ficou claro por ali que o alemão da Ferrari tinha ritmo de sobra para se manter à frente de Bottas e Ricciardo, e atacar Hamilton durante a corrida. O tricampeão, contudo, deu mostras do tamanho da reserva de que dispunha ao virar na casa de 15’5 na reta final do GP, com os pneus tendo percorrido já mais de 35 voltas.

A má largada e o toque subsequente fizeram com que, pela primeira vez no ano, Vettel recebesse a bandeirada numa posição que não fosse primeiro ou segundo, apesar de ter sido prejudicado pelas circunstâncias também na Malásia. Considerando a vantagem que tanto ele quanto Hamilton têm hoje sobre o restante do grid, talvez não seja equivocado afirmar que o campeonato se decidirá justamente por aí, nos pontos perdidos em toques, quebras ou situações anormais, que lhes impeçam de ocupar os dois degraus de cima a cada pódio. Ou, como temos dito em anos anteriores, um ano a ser decidido mais pelos pontos perdidos do que pelos pontos ganhos.

Não há muito o que dizer sobre a corrida.

Hamilton largou na ponta, e por lá permaneceu sem jamais ser ameaçado. Bottas havia se posicionado em terceiro, à frente de Vettel mas atrás de Verstappen, e herdou o segundo posto quando o jovem holandês ficou pelo caminho, traído ainda no início da corrida por uma falha mecânica.

A quarta posição de Vettel é mais complexa de explicar. Tendo caído para quarto, Sebastian sofria com uma asa dianteira seriamente danificada e, ainda que fosse capaz de defender a posição, iria destruir os pneus rapidamente e perder muito terreno em relação aos líderes. Em tese, a ida precoce aos boxes o devolveria com pista livre, de modo a ganhar posições quando os carros à sua frente trocassem pneus. O “problema”, no entanto, é que a borracha durou muito mais que o esperado (curiosamente, anos atrás, esta pista tinha fama de devorar pneus), e com isso o alemão rapidamente teve de se virar para andar rápido mesmo em meio a pesado tráfego. Quando Räikkönen parou e ainda assim voltou alguns segundos à sua frente, dava para ver que sua posição real era algo perto de oitavo, com o handicap de ter pneus bem mais rodados do que os conjuntos à sua frente.

Seb foi favorecido pelo abandono de Verstappen, e também pelo problema de freios que atrasou Kimi já nas voltas finais. De resto, galgou a maior parte das posições na pista mesmo, bancando a aposta ferrarista de fazer uma segunda parada para ter condições de atacar ao fim da prova conjuntos que rendiam muito bem na Ilha de Notre Dame. Em especial as duas Force Indias de Pérez e Ocon. A ultrapassagem sobre o segundo foi um momento de muita tensão, ao passo que a disputa com o primeiro demorou tempo demais para que fosse possível emendar um ataque efetivo a Ricciardo, que ia logo à frente. Na tabela de pontos a vantagem de Vettel caiu para 12 pontos, ao passo que nos construtores a Mercedes reassume a ponta, oito tentos à frente dos rivais italianos.

Destaques ainda para a corrida decente de Lance Stroll, e para mais uma atuação de gala por parte de Fernando Alonso, cada vez mais focado em buscar novas formas de prazer (e notoriedade?) no esporte. Falaremos sobre isso em breve.

Uma disputa de altíssimo nível, uma surpresa emocionante e mal entendida, um campeão no meio do povo, um X-Men no pódio. Olhando em retrospectiva, não há espaço para dúvidas: os grandes momentos do fim de semana aconteceram fora da corrida.

A começar pelo sábado, quando, ao vencer uma dura disputa com Vettel pela pole position, Lewis Hamilton igualou a marca de seu ídolo e foi surpreendido com um presente enviado pela família Senna, descrito como um capacete usado por Ayrton em corrida durante a temporada de 1987. O inglês ficou visivelmente emocionado, e a saudação do público à memória do tricampeão brasileiro foi uma daquela cenas de arrepiar. Como se não bastasse, Hamilton ainda completou sua volta pela pista sentado na janela do carro, como Senna fez no Brasil em 1993, exibindo o presente a todos no autódromo. Mais tarde o momento perderia um pouco de seu brilho. O capacete, afinal, era uma réplica. Mas, talvez pelo embaraço, a família prometeu dar um exemplar realmente utilizado por Ayrton em eventos promocionais, trinta anos atrás.

Avançando para o domingo, a corrida já estava definida quando o motor Honda da McLaren de Alonso o roubou mais uma chance de somar pontos nesta temporada. Não havia mais nada a ser feito, mas algo definitivamente está mudado no asturiano. Segundos mais tarde as câmeras da transmissão voltam a focar no bicampeão, que a esta altura estava no meio dos torcedores, escalando a arquibancada, saudando os fãs, jogando luvas, e tirando selfies (ainda de capacete). Foi um momento inusitado, mas certamente grandioso, de alguém que tem nitidamente tem se questionado a respeito do ainda lhe importa na profissão e na carreira. A Fórmula 1 precisa demais de momentos legítimos como este.

Seguimos para o pódio, onde a entrevista foi conduzida pelo grande ator Patrick Stewart. Mostrando intimidade com o esporte e seus protagonistas, o Charles Xavier dos filmes dos X-Men bebeu champanhe na sapatilha de Ricciardo e “leu os pensamentos” de Lewis Hamilton, numa interação espontânea e sensacional.

Enquanto as verdadeiras mudanças não nos são apresentadas, a nova direção da Fórmula 1 está mandando bem demais em suas iniciativas para aproximar o espetáculo daqueles que efetivamente o sustentam. Resta torcer para que o esporte não seja vilipendiado na famigerada “busca por emoções”.

A Fórmula 1, no Canadá, viu Hamilton vencer pela sexta vez na mesma pista, e confirmar que esportistas do mais alto nível podem ser quase imbatíveis sob certas circunstâncias.

Pois bem, o assunto não diz respeito à nossa pauta aqui no site, mas não posso deixar de dedicar algumas palavras ao assombroso feito de Rafael Nadal em Roland Garros, pouco antes da corrida. Talvez, em toda a história do esporte, estejamos vendo o maior domínio de um esportista sobre um mesmo território.

Uma ótima semana a todos.

4 thoughts on “A casa e o dono

  1. Marcio,

    pelo visto foi a Mercedes que deu um belo golpe na Ferrari e não ao contrário, como pensava o Flavis em sua coluna “Falta um golpe”. E mais, foi um golpe que mostrou que a Mercedes está mais forte do que pensa o pessoal das Ferrari … fica claro que não existe uma Ferrrari mais forte que a Mercedes ou vice e versa …. o que deve gerar grandes expectativas para as próximas corridas … obvio que alguns circuitos devem favorecer mais a “A” ou “B” mas existe um equilíbrio de forças e vai ser muito bacana se houver “duelos” nas pistas … O GP de Canadá mostrou que golpe por golpe, a dela é muito forte também … o ultimo golpe vai ser ao fim da temporada …
    Quanto ao Peres, ele jamais vai ser um Top Driver pois tem um cérebro pequeno … só isso explica a sua atitude em relação ao Occon …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Grande Márcio!

    A corrida foi muito boa, porem, uma pena o que aconteceu com Vettel, porque o alemão não iria facilitar as coisas, e certamente teríamos uma corrida épica.

    Agora, uma pausa na F1, e que venha as 24 horas de Le Mans!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Márcio,

    Grande vitoria de Hamilton com direito a um Grand Chelem (Pole, Vitoria, volta mais rápida, liderando todas as voltas). Igualando num. de poles de Senna e o interessante é que são 65 poles em 195 GP’s o que quer dizer exatamente 1 pole a cada 3 GP’s. Creio que Hamilton é de fato o mais rápido piloto de F-1 dos últimos 10 anos. Pelo andar da carruagem o recorde de 68 poles de Schumacher deve cair este ano.

    Bela corrida de recuperação de Vettel, guiando com agressividade necessária a um campeão. Está com uma postura bem diferente do chorão que vimos ano passado. Gostei principalmente das ultrapassagens em cima da dupla da Force India. Creio que tem um ligeiro favoritismo sobre o Hamilton principalmente por causa da maior regularidade nas corridas e o sistema de pontuação atual privilegiar quem é mais regular. Acho que este campeonato de pilotos será decidido nos detalhes(acidentes, quebras, etc.)

    Com relação ao campeonato de construtores acho que dificilmente a Mercedes perde pois a sua dupla é mais forte. A Ferrari deve providenciar um substituto para Kimi, a idade está pesando, dificilmente vencera uma prova este ano, alem da Ferrari estar privilegiando Vettel. O titulo de construtores sempre foi especialmente importante para os italianos.

    Fiquei impressionado com a atitude de Perez prejudicando Ocon e a equipe em uma possível disputa de pódio com Ricciardo e depois abrindo a porteira para Vettel. Há muito tempo não via algo parecido na F1. Para que existe equipe então?

    Márcio

    1. O duelo Hamilton X Vettel infelizmente foi sepultado pela excelente largada de Max. Uma pena que o novo motor Renault prometido não tenha chego. Imagina o que seria uma diaputa Hamilton X Vettel X Max X Riccardo (acho que a Red Bull tem a melhor e mais equilibrada dupla).
      A atitude de Perez vai pesar na hora de negociar seu próximo contrato. Parabéns ao jovem Ocon que manteve a cabeça no lugar e preservou os pontos da equipe.

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