Não, esse não é mais um texto sobre Fangio, muito menos reacende a discussão "Senna ou Schumacher?". Esse texto, aliás, nem é sobre Fórmula 1. É sobre motos. Mas não vou falar de Giacomo Agostini, Michael Doohan ou Valentino Rossi...
Você já ouviu falar de Burt Munro? Se já, peço desculpas pelo que vou dizer: não o conhecia. Mas assistindo ao filme "Desafiando Limites" (o título original é "The World's fastest Indian", em alusão à marca da moto), estrelado por Anthony Hopkins, fiquei absolutamente impressionado. Por isso, dedico-lhe um pouco de minhas palavras.
O filme me impressionou não pela atuação sempre segura de Hopkins, por sua fotografia excelente ou por seu roteiro bem construído. O que me causou esse impacto foi saber, somente ao fim da película, que se tratava de uma história real. É praticamente inacreditável que aquilo fosse real. Só vendo para entender porquê.
A obra-prima de Munro
Herbert "Burt" Munro, também conhecido como "a lenda neozelandesa", nasceu em 25 de março de 1899 na cidade de Edendale. Faleceria 79 anos depois (em 06/01/1978), na cidade de Invercargill, também na Nova Zelândia.
Na capa do filme - que só fui ver depois, pois o vi em companhia de amigos -, é mencionada uma frase de Burt: "Durante toda minha vida eu quis fazer algo grande". Pois creio que as palavras vontade e grandeza combinam perfeitamente em se tratando de Munro. Ele teve uma vida bastante humilde - considerando-se que estava na Nova Zelândia -, e dedicou-a inteiramente ao seu sonho de bater o recorde mundial de velocidade. Munro, aliás, chegou a trabalhar por nada menos que 25 anos com o intuito de realizar esse sonho!
Para isso, era necessário que ele fosse até Boneville (EUA), um "deserto de sal" onde, desde 1912, são realizados eventos destinados ao mundo da velocidade (a "Speed Week", no último terço de agosto): lá, por exemplo, foi registrado o recorde máximo, superando a marca dos 1000 km/h, num veículo supersônico.
Burt Munro comprou a moto Indian no ano de 1920, e a partir de 1926 começou a desenvolvê-la, modificando e inovando nas suas peças (criou, por exemplo, diversos modelos de pistão, de forma praticamente artesanal). A velocidade máxima possível de se atingir era de 55 milhas por hora, ou 88 km/h - guarde bem essa informação. No filme, podemos acompanhar as modificações aplicadas por Munro não só na sua moto, mas em outros tantos veículos onde fosse necessário.
O deserto de sal de Boneville
Munro chegou em Boneville pela primeira vez no ano de 1962, aos 63 anos (!) e com artereosclerose (!!). E de cara estabeleceu orecorde mundial para motos com até 1000 cc: 286 km/h! O piloto seguiu indo ao "festival" por mais nove edições, e em outras duas oportunidades estabeleceu a marca máxima: 1966 e 1967. O seu recorde de 1967 permanece até hoje: 305 km/h.
Essa marca, além de fantástica por si só, é ainda mais impressionante se lembrarmos os 88 km/h máximos atingidos com uma Indian "normal": basicamente, o piloto aumentou a velocidade em 350%. Há, ainda, um registro de 1969 que aponta Munro como tendo atingido a marca de 331 km/h, mas esse não é um dado oficial.
No filme, o personagem principal cita uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que diz o seguinte: "Não é o crítico que conta: o crédito pertence ao homem que está realmente na arena, cujo rosto está sujo de poeira, suor e sangue".
Essa talvez seja a melhor descrição para o que foi e o que representa Burt Munro para os amantes da velocidade.