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Home » Colunas » Eduardo Correa » 23.09.09
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A F1, como reflexo do mundo 23.09.09


Peterson, seguido por Emerson e Stewart na Suécia 73 - Clique para ampliar
Nas últimas semanas, depois que o pesadelo de Cingapura 2008 tornou-se realidade, muita gente boa dedicou-se a bater na mesma tecla: a Fórmula 1 sempre foi assim, cutrucas e maracutais sempre existiram, blá blá, blá.

Não sei se a idéia de que a lama seria uma constante, um padrão, talvez o inevitável destino, as consolou. A mim absolutamente não. Estupefato, acompanhei o noticiário torcendo para que tudo fosse desmentido, que, por algum ato mágico, Nelsinho e Briatore comprovassem que tudo não passou de um mal entendido. Mas não rolou, infelizmente.

Sim: cutrucas sempre existiram e o GP de Tripoli de 33 não foi, certamente, o primeiro exemplo documentado de armação, da mesma forma que Cingapura 2008 não será a última. Consola-me lembrar, porém, de tantas e tantas demonstrações de honestidade, caráter e espírito esportivo na história da Fórmula 1. Juan Manuel Fangio, Graham Hill, Jim Clark, Dennis Hulme, Jackie Stewart, Jochen Rindt, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda e Mika Hakkinen – e me perdoem se esqueci de mencionar alguém -, foram campeões que se distinguiram tanto pelos seus feitos nas pistas quanto pela esportividade. Não importa quão disputados foram os campeonatos vencidos por eles, cada um a seu modo soube se comportar, preservando os limites estritos da própria consciência acima de interesse pecuniário e mundanos.

Junto a eles, alinham-se pilotos como Stirling Moss, Peter Collins, Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve e Felipe Massa, só para citar alguns, que, mesmo não tendo chegado ao título mundial, souberam preservar o senso de medida e conter os ímpetos de vitória em prol da esportividade, do companheirismo, do espírito de equipe.

Podemos até discutir se a esportividade está se tornando menos freqüente na Fórmula 1 na medida em que o volume de dinheiro envolvido cresce. Adoro a frase de Rubem Braga: “as coisas antigamente eram piores – mas elas foram piorando...” mas não acredito nela. O que tenho certeza é que a esportividade segue sendo perfeitamente possível hoje. Felipe Massa o comprovou quando cedeu uma vitória certa no GP do Brasil de 2007 a Kimi Raikkonen, permitindo assim ao finlandês chegar ao título mundial.





Rindt e Stewart na Inglaterra 69 - Clique para ampliar
O gesto de Massa, aliás, passou despercebido pelos inquisitores que se apressaram em arrolar a Áustria 2002 no rol das maracutaias. Em respeito pela história, lembro aos amigos leitores e colegas que até 12 de maio de 2002, data do GP da Áustria, a Fórmula 1, assim como as demais categorias do automobilismo, era um esporte de equipe, onde dois ou mais pilotos corriam obedecendo a ordens de um chefe que visava, acima de tudo, o sucesso da equipe. Foi o que o que fizeram no Brasil e Áustria Massa e Rubinho, este da forma infantil que lhe é peculiar, aquele de forma madura e isenta de dramas e recriminações.

Nunca é demais lembrar, já que estamos falando em esportividade, o gesto magnífico de Peter Collins, cedendo seu Ferrari a Fangio em meio ao GP da Itália de 56, o que permitiu ao argentino colher os pontos que lhe deram seu quarto título mundial. Collins não titubeou em atender aos apelos da equipe mesmo tendo chances matemáticas de vencer o Mundial daquele ano ele próprio.





Hill seguido por Clark em Mônaco 63 - Clique para ampliar
Nelsinho Piquet, pivô talvez mais ativo do que pareça nesta história sórdida, pagou da forma mais dramática e dolorida o preço da sua inexperiência e total falta de padrão moral, algo tão comum aos jovens de hoje, tanto mais aqueles criados dentro de redomas.

Mas a sua admissão de culpa, cabal e sem autocomiseração, não importa que determinada por uma vingança pura e simples, mostra uma luz no fim do túnel. Nelsinho aprendeu da pior maneira possível que “o único guia para um homem é sua consciência; o único escudo para sua memória é a retidão e a sinceridade de suas ações”, como escreveu o historiador John Lukacs.

Muito jovem, Nelsinho vai reconstruir sua vida, talvez não na Fórmula 1 ou em qualquer outra categoria esportiva, e será feliz nela, ao contrário de Flavio Briatore, a quem o banimento imposto pela Fia pode apenas prenunciar queda ainda maior. Leitores do Gepeto sugerem o ingresso na política brasileira. Lembro que Briatore não precisa emigrar para tanto, a política italiana, liderada pelo inenarrável Silvio Berlusconi oferecendo-lhe oportunidades de sobra para uma carreira de sucesso.





Collins, no Ferrari n 2, e Fangio, no n. 1, em Nurburgring 56
Em outubro, garantem todos, a Fia terá novo presidente. Mudará ele a face do automobilismo, em especial da Fórmula 1, sua expressão mais vistosa? Será o novo presidente capaz de humanizá-la ou, ao menos, eliminar os excessos tecnológicos e comerciais, devolvendo-lhe o caráter educativo - na medida em que se espera do esporte -, humano e de espetáculo esportivo que cortaria na raiz qualquer possibilidade de armações como a Cingapura?

Temo que não. Jean Todt, Ari Vatanen ou seja lá quem for o indicado à presidência provavelmente assumirá refém de uma montanha de interesses, a maioria deles lavrados por advogados hábeis, que deixam um espaço mínimo para manobras. Temo ainda que a cúpula e a burocracia que movem a Fia estejam viciadas por anos e anos de trocas de favores mais ou menos abjetos e que resistam tenazmente a qualquer reforma que custe alguns dos anéis que carregam, da mesma forma que senadores brasileiros se aferram a vagas, aposentadorias passagens aéreas, verbas indenizatórias e outros míseros capilés que arrancaram para si na calada da noite e preservam diligentemente, não importa quanta pressão a sociedade exerça contra eles.

Porque, afinal de contas, a Fórmula 1 e suas várias instâncias – mecânicos, pilotos, dirigentes, equipes, montadoras, TVs, patrocinadores etc. – são exatamente como o são do muro dos autódromos para fora. Há gente boa e menos boa, honesta e menos honesta, comprometida com algo mais do a grana ou totalmente rendida a ela. Exatamente, enfim, como na vida. A Fórmula 1 é apenas um reflexo do mundo. Foi assim no passado, é assim hoje e será assim no futuro.

Eduardo Correa

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