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Depois de ler as suas duas últimas colunas, me vem a questão: com toda a dinheirama disponível hoje , pilotos e equipes erram menos do que na “época de ouro” da Fórmula 1?

Mauro Fernando, São Paulo




Hummmm.

Acho que, na média, os pilotos certamente erravam mais antigamente mas não necessariamente os grandes campeões. Em relação às equipes, acho que se dá o mesmo, ainda que não afirme isso com tanta certeza.

Os pilotos erram menos hoje porque têm menos oportunidades. O exemplo maior é o câmbio eletrônico que tornou impossível o engate errado das marchas e o consequente estouro nos limites de giro do motor.

Quem acompanhou a Fórmula 1 nos anos 70 se lembra bem que dificilmente um GP terminava sem que alguém abandonasse a prova por quebra do motor depois de uma ou umas mudanças desastradas de marcha, mandando os motores para bem mais das 12 mil rpms normalmente aceitas.

Outros exemplos das facilidades atuais são as áreas de escape asfaltados, que permitem ao piloto voltar à corrida sem maiores problemas, a possibilidade de trocas de pneus (na época de ouro, só se faziam pit stops quando os pneus furavam), o volante servo-assistido etc. Importante considerar também que os pilotos de hoje testam seus carros absurdamente mais do que os pilotos do passado. Mais treino, mais habilidade… Só para não dizer que pilotar um Fórmula 1 tornou-se trabalho de criança, lembro que, com estes recursos, pilotos e carros são consideravelmente mais rápidos do que no passado.

Isso, porém, só vale para a média dos pilotos. Para os grandes campeões, a coisa não mudou muito.

Ascari com Ferrari na Espanha - 1951.
Pelo que me consta, Juan Manuel Fangio segue sendo o piloto mais eficiente da história da Fórmula 1, com 24 vitórias, 10 segundos lugares e um terceiro – ou seja, 35 pódios - em 51 GPs! Alberto Ascari não fica muito atrás: 13 vitórias e 4 segundos lugares em 32 GPs. Fangio ganhou cinco campeonatos em sete que disputou (estou deixando de fora o de 58, quando só correu duas provas); Ascari ganhou dois em quatro.

Claro que o preparo físico de ambos – homens francamente obesos para os padrões atuais – não se compara ao de Michael Schumacher mas também não vale o argumento de que se corria menos GPs naquela época (entre 50 e 57 houve um máximo de 8 GPs por ano – estou deixando de fora Indy 500) pois todos os pilotos da Fórmula 1, inclusive os grandes campeões, corriam em outras categorias. Stirling Moss, um doente por corridas, chagava a disputar mais de 50 por ano, inclusive em carrinhos de cortar grama.

Ou seja: grandes campeões sempre erraram pouco, o que nos faz pensar que esta, talvez, seja a característica mais importante deles em relação aos demais. E como errar é humano, temos aí uma das belezas deste esporte maluco para malucos disputado por malucos.

Agora, pela lógica, as equipes deveriam errar muito menos na atualidade, já que podem testar tanto quanto quiserem (ou seu orçamentos permitirem), dispõem de equipamentos de laboratório incrivelmente mais sofisticados, sem contar equipes enormes de engenheiros.

Alain Prost com a McLaren MP 4/2 no Rio - 1984.
Nos anos 70, uma equipe grande se virava com uns três engenheiros no máximo, nada de computadores, nada de túneis de vento, nada de equipamentos de simulação. Carros mitológicos, como o McLaren de Lauda e Prost saíram quase que inteiramente do trabalho de um único projetista.

Mas, mesmo com todas as facilidades, as equipes de hoje ainda erram porcamente. O que se pode dizer, apenas para citar dois exemplos recentes, de Ferrari e Bar no campeonato do ano passado, a Ferrari tendo sido “ajudada” pela Bridgestone? E o que dizer de Toyota e McLaren na pré-temporada deste ano?

Verdade que, hoje, os erros podem ser reparados com mais rapidez mas isso é o mínimo que se pode exigir, dadas as facilidades existentes. E notem que nem sempre acontece. Vale, por exemplo, para a McLaren do ano passado: começaram mal mas se recuperaram e tinham um carro nota 8 no meio da temporada. Mas não se pode dizer que Ferrari e Bar conseguiram melhorar consideravelmente seus carros mal nascidos, não, pelo menos, a ponto de vencerem corridos.

Rubinho em Interlagos 2003, onde ficou sem gasolina.
Se olharmos para as equipes nos GPs, também resta a dúvida de que hoje elas erram menos. Quantas vezes não vimos nas últimas temporadas estratégias de corridas esdrúxulas ou então erros palmares, como o que custou a provável vitória de Rubinho em Interlagos por falta de combustível em seu Ferrari?

Conclusão: apesar de todo o dinheiro, conhecimento, equipamentos, recursos, engenheiros e treinos, o toque humano, a sensibilidade, a intuição, a criatividade e a malícia ainda continuam sendo diferenciais marcantes na construção dos carros.

Abraços (EC)
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