Eu tinha acabado de completar 11 anos quando comprei minha primeira revista Motoshow. Gostei tanto que me tornei assinante, e não perdi mais nenhum número até o fim da revista.
Portanto, muito antes de cursar as faculdades de engenharia e jornalismo, e também muito antes do nascimento do GPTotal, eu já conhecia e admirava o trabalho de Roberto Agresti.
Seja bem vindo, Roberto. Assinava a Motoshow na época em que ela começou (tinha desde o numero 1) e agora sou leitor assíduo da Moto!.
Sempre fui fã de motores, não importando se montados sobre 2, 4 ou seja lá quantas rodas fossem, portanto fico feliz com a chegada de mais um especialista no assunto. Só faltava o Tite deixar de ser turrão e voltar....
Sem dúvidas, sua narrativa lembra-nos de valores que parecem um pouco esquecidos hoje; a amizade e os nossos sonhos. É incrível perceber que muitas vezes, nascem os sonhos, embora individuais, do compartilhar de uma amizade (e vice-versa), que desta forma divididos, tomam consistência e cor.
Fico feliz por descobrir mais um ponto em comum entre nós, além do Amor pelo Automobilismo: o despertar para o Automobilismo por conta do Ótimo e Inigualável Filme Grand Prix.
Confesso que outrora, fiquei emocionado ao ver uma foto sua, tirada na Curva Inclinada do Circuito de Monza, curva esta, infelizmente desativada. Naturalmente esta foto, ilustrava uma Coluna sua, "Enterrem meu coração em Monza", publicada em 10/9/2004.
Num final de tarde do outono de 1990, Edu em plena Curva Inclinada de Monza
Tenho certeza de que a presença do Roberto Agresti virá somente a engrandecer e reforçar o já ótimo GPTotal.
A Ferrari não é um anjo (e você não disse isso), mas a torcida não é uma dimensão racional, Ferrari, McLaren, Corinthians ou Vasco, estamos falando de preferências absolutamente (apenas uma generalização) subjetivas.
A McLaren ou a Williams a Renaut também não são primores de simpatia mas de certa forma são um tanto assépticas e isso no meu entender distancia o grande público das equipes. Na Ferrari exatamente por sua Beretta ao lado faz perceber, mais claramente, as pessoas dentro das equipes.
Muitas vezes cretinas, é verdade, mas tudo é questão de perspectiva, aos olhos dos tifosi a equipe está acima de tudo, não é o piloto que importa, é o cavalinho. Não tem meias palavras, e por fim os torcedores alemães não reclamam da relação Barrichello Ferrari, nos tempo do Sapateiro!
Minha mente não é vazia, mas talvez meu coração seja mesmo frio. Não assisto a novelas, partilho do ponto de vista de sua mãe sobre elas. São insuportáveis por dois motivos: seus enredos são absurdamente irreais e não variam: casal protagonista, vilão, o galã, a gostosa, quem matou quem, e pronto. Não sou artista (considerando a teledramaturgia uma arte), mas, para mim, arte não é alienação da realidade. Quando vou ao cinema ou ao teatro, mais do que diversão, eu procuro reflexão. Antes de entreter, eu penso que a arte espelha a realidade e é capaz de agir sobre ela. Um filme como “Simplesmente amor” é, para mim, uma mostra bem-humorada da (des) ordem que rege as relações amorosas em nossos dias. Mesmo no humor, pretenso entretenimento absoluto, eu procuro significados para a vida “real”. Por exemplo, eu interpreto o “vô num vô” do “Pânico na TV” como uma mostra da “involução” da abordagem masculina sobre as mulheres. Isso é ainda mais válido para a literatura.
Por que governos proíbem livros de ficção? Porque sua leitura pode agir sobre a realidade, e assim incomodar o staus quo. Por que a PM do Rio quis proibir “Tropa de Elite”? Se o filme fosse apenas entretenimento, se o público o esquecesse ao sair do cinema, ela não teria este interesse. Por que tantos se mataram depois de ler “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe? Evidente que o autor não tinha a intenção de ceifar vidas. Estes exemplos mostram que a arte, incluindo os musicais da “Metro” (pois a música também é arte), pelo menos para aqueles que, como eu, têm o coração frio, é mais do que diversão. Talvez por isso, por ver seriedade onde a maioria vê relax, minha vida amorosa até aqui tenha sido ridiculamente exígua – mas isso é assunto para psicanalista.
Se assim é para a arte, não será também para a Fórmula 1? Ela é um esporte, sem dúvida. Entretenimento? Também. Emblema do capitalismo transnacional, laboratório das grandes montadoras, fonte de renda e lucro, meio de ganância e competição desmedidas? Sim, e, arrisco dizer, mais isso do que esporte e entretenimento.
Quando vejo a Fórmula 1 na China, penso na contradição que é uma ditadura comunista de partido único permitir um evento sustentado por companhias que representam a essência do capitalismo. Quando vejo o alarde em torno de Hamilton como “o primeiro negro na Fórmula 1”, percebo nisso o desejo dos “pluriculturalistas” de desenhar uma imagem do Reino Unido – e, por extensão, da Europa – que ultrapasse a tradicional imagem de população homogeneamente branca que se tem daquele país e do Velho Continente. Quando olho para Jean Todt no meu aparelho de TV, não vejo na Ferrari uma família bagunceira, mas uma organização comandada com mão-de-ferro por Luca di Montezemolo (isso pode ser tributado à Era Schumacher, mas a marca agora é indelével).
Ron Dennis no GP da China
E será que podemos culpar a McLaren pela frieza e irritante capacidade? Quem age diferente hoje? Times de futebol se comportam como empresas. Escolas de samba também. Futebol e carnaval – essência do entretenimento brasileiro –, cada vez mais vigiados pelas instituições repressivas, e seletivos em seus públicos.
Mas, se você acredita no entretenimento, se ainda quer diversão neste final de campeonato, não torça por Raikkonen, mas por Alonso. Sério! O finlandês não vai derramar vinho na mesa no jantar de comemoração. Já Alonso, fulo com sua equipe, pelos motivos que todos sabemos, se ganhar, vai pular, gritar, empunhar os braços, mostrar três dedos, bater no peito e dizer: “EU SOU F...!”. Por fim, pense na cara do Ron Dennis e principalmente do Hamilton. Eu rolaria no chão de tanto rir.
Conclusão: McLaren, isso sim, That’s entertainment!
Nós, brasileiros, gostamos muito de ufanismos, assim, o maior estádio do mundo é o Maracanã, o maior jogador de futebol de todos os tempos o Pelé, o maior piloto de todos os tempos foi o Senna ou Piquet ou Emerson, e assim por diante.
Assisti algumas corridas em Interlagos: foram quatro Mil Milhas entre outras, e olha que viajava mais de mil km do RIO Grande do Sul para São Paulo para ver Bird Clemente, Mario Cezar de Camargo Filho, Jaime Silva, Ciro Cayres, Chico Landi, Camilo Christófaro, Celso Lara Barbieri, Christian Heinz, Emerson, Wilsinho e Moco, entre outros tantos e qualificados pilotos. Lembrei mais dois ilustres desconhecidos que venceram umas Mil Milhas: Justino de Maio e Vitorio Azalin Filho. Deliberadamente não citei pilotos gaúchos para não parecer provocação
Em 1976, corri pela primeira vez em Interlagos, com um Passat. Algumas provas em 1977. Tive uma parada no esporte que durou 5 anos, e em 1983 corri umas 6 horas de Interlagos, com um Fiat 147, válida pelo Primeiro Campeonato Brasileiro de Marcas. A prova foi noturna de 9h da noite às 3h da madrugada com um detalhe: chuva forte do começo ao fim. Nesta prova estavam lá Toninho da Matta (uai) Paulo Gomes, Ingo Hoffmann, Atila Sippos, Xandi Negrão, Luiz Otavio Paternostro e um paranaense que tirava leite de pedra com um Chevette: Gastão Weigert, entre tantos outros.
Depois da reforma do traçado, dei umas poucas voltas com um protótipo MCR, aliás fabricado aqui no Rio Grande do Sul.
No velho traçado, havia momentos em cada volta de tirar o fôlego, como fazer as Curvas 1 e 2 num traçado só de "pé no porão", descer o Retão (e põe retão naquilo) a mais de 200 kmh com um 147 na chuva e à noite, "alicatear" no fim do Retão para fazer as Curvas 3 e 4 também num único traçado, e depois de um pequena reta a aproximação e freada para a ferradura, outra breve reta e tinhamos a Subida do Lago, para então enfrentarmos a reta oposta, em busca da espetacular Curva do Sol, que se fazia de "vara enfiada" mesmo com chuva, mais uma breve reta e lá estava o Sargento, de onde se retomava o traçado atual no Laranja.
Emerson rumo ao Pinheirinho, em Interlagos 75
Li, acho que foi no blog do Ico que algumas pessoas, por ganância, lotearam o autódromo e fizeram esta cirurgia castrativa em Interlagos. Importante dar-se o nome destas pessoas, Luiza Erundina e Ayrton Senna da Silva, assessorados pela Shell.
Lamento que esta nova geração de aficcionados pelo automobilismo não tenham podido conhecer aquela que foi a pista mais espetacular do planeta. E eu não gosto de ufanismo patriótico.
Discordo do Galvão (e todos que vão na onda dele) de que Hamilton não deveria lutar pela posição. Aliás, o Galvão tem dessas! Às vezes, ele crê que um piloto deve ceder a posição, só porque não está disputando o título, só porque logo, logo, vai abastecer! Campeão que deixa um adversário passar sem disputa? Difícil lembrar de um!
A obrigação de Lewis realmente era endurecer com o finlandês até onde podia e isso ele fez... Sem provocar acidente, pois aí eu seria irresponsável! O que não dá para entender é dar duas voltas a mais depois de perder a posição sendo até 7 segundos mais lento que o Alonso. Isso realmente não dá para entender! Ele errou e a Mclaren também!
Outra coisa que não concordo é com o que o leitor Peter Marx disse ao afirmar que após descolar de Alonso, o inglês passou a ser o pior dos 4! Pior dos 4? As duas poles em condições adversas não foram suficientes? A vitória no Japão não foi coisa de maestro, quando todos sabemos que Alonso é, reconhecidamente, um grande piloto na chuva? O erro na China foi uma fatalidade, pela imaturidade, pelo arrojo, pelo vacilo da equipe!
As coisas ficaram difíceis para Hamilton? É claro que ficaram! Afinal, Alonso vencer a prova e Raikkonen terminar em segundo não é nada de extraordinário. Apesar da experiência de Alonso, considero Hamilton ainda o favorito! Até porque Massa e o finlandês podem muito bem atrapalhar os planos do espanhol!
Uma coisa que, mesmo que o título não fique em mãos do Hamilton, não se pode negar é o quanto esse piloto é especial! Por mais que a equipe possa o estar beneficiando, quem ousou imaginar que ele bateria de frente com Alonso dessa forma? Que ele o encararia e lutaria de igual para igual? Um estreante contra um bicampeão? E a equipe só o beneficiou porque ele deu mostras de que, se não é melhor, pode ser tão bom quanto!!! E considerando o talento de Alonso, isso não é pouco!!!!!!!!!E mais: durante a temporada, ele deu muitas demonstrações de que possui um talento especial, raro!!!! A ultrapassagem sobre Kubica (não me lembro o GP, pois acho que ninguém viu, após sair dos boxes) mostra um piloto decidido, que sabe quando não pode perder tempo. E a ultrapassagem sobre Raikkonen? E a corrida no Japão? E as largadas? E as relargadas ?
Um campeão de laboratório? Não será romantismo querer um piloto com falta de patrocínio, em cadeiras elétricas, vencendo na raça? Qual foi o último piloto que enfrentou isso?
Para finalizar, se eu pudesse escolher como o campeonato deveria terminar, diria o seguinte:
- 1º lugar - Hamilton - Magnífico ano - Se Rubinho um dia queria brigar pau a pau com o alemão, deveria ter feito o que o Hamilton fez, o que Senna fez em 1988. Mostrar arrojo, personalidade e coragem;
- 2º lugar - Kimi - vejo-o como grande piloto! Ainda vai ser campeão do mundo, pois merece;
Kimi está em 3o no Mundial
- 3º lugar - Alonso - tenho antipatia por ele, mas não posso negar que é um grande piloto! Tem tudo para ficar na galeria dos mais mais de todos os tempos. Ano passado foi perfeito contra um Schumacher quase perfeito!!!!! Mas neste ano cometeu muitos erros, não conseguindo ser superior a um estreante (mesmo sendo campeão, ninguém pode dizer que ele foi superior ao inglês).
- 4º lugar - Massa - dos 4, talvez tenha sido o que mostrou mais arrojo, ousadia e atrevimento. Quando disseram aqui que o Massa parecia o Mansel, eu não consegui entender de onde tiraram isso! Mas no decorrer do ano, consegui compreender! Tem um talento excepcional, mas parece-me que falta lapidação, falta um não-sei-quê de campeão! Que no ano que vem, tenha mais sorte!
”é que a maior parte dos brasileiros, se não torcem por Alonso isoladamente, demonstram preferência por ele nesse embate.”
Penso que há um ledo engano.... Reginaldo Leme em sua última coluna , acho que de 12 de Outubro, dá claros exemplos de que Hamilton será o apoiado pela torcida.
Convenhamos, Alonso não é Dick Vigarista. Na verdade, é o contrário: ele acha que todo mundo é dickvigarista contra ele. Desconfio que ele tenha até mesmo um transtorno Bipolar por causa disso. Fez um auê apontando uma sujeirinha no carro para as câmeras em Nurburgring e depois vibrava com a vitória.
Penso que a falta de bons ídolos brasileiros ganhando campeonatos poderá aumentar uma era de torcedores xiítas, sejam por pilotos dick-demoniacos ou por outros do tipo mamãe sujaram meu carro
Vendo fotos de temporadas antigas, percebi que alguns companheiros de equipe como Mansell e Piquet e Villeneuve e Pironi usavam macacões de cores diferentes, mas com os mesmos patrocínios.
Era comum isso? Por que acontecia? E isso pode acontecer hoje?
Abraços
Francisco Luz, Novo Hamburgo
Oi Francisco
Piquet, entre Senna e Mansell, brinca depois de vencer mais um GP
Não duvido nada que, nestes tempos loucos, até o uniforme dos pilotos seja objeto de regulamentação. Os carros, como se viu no caso Bar, têm de ser idênticos em sua decoração.
Fuçando a internet, buscando uma foto de um Copersucar para colocar de papel de parede, achei esse muito bom site que fala um pouco da história do Automonilismo Brasileiro: o Brazil Yellow Pages: Automobilismo Brasileiro, desenvolvido / criado pelo Carlos de Paula.
Existem links bem legais, fotos raras e muito amplo. Creio que valha a pena visitá-lo.
Premio “olhos de lince” para o atirado que acerto o crânio de Ayrton Senna quando este contornava a Tamburello a quase 300 Km/h. Esse aí podia fazer parte da KGB! Teria sido o Lee Oswald? Será que ele agiu sozinho?
O Helio Maia dos Santos Filho realmente conseguiu surpreender! E vocês sabem da última? Kennedy não morreu baleado! Na verdade ele bateu o seu carro presidencial num muro e a barra de direção atingiu a sua cabeça! Essa foi a do ano!
Bom, sobre o que o leitor Helio disse, consta nas informações da telemetria que o Senna reduziu 2 marchas, pisou no freio e reduziu bem a velocidade, isso em 0,4s, mas não o suficiente. Essas informações eu li na internet, não lembro o site, é só procurar que se acha, devido a isso, com uma bala na cabeça seria dificil.
Outras informações que eu li: Senna estava trazendo a Audi para o Brasil, estava com o relacionamento com Adriane Galisteu contra a família. O carro problemático, sem a eletrônica que o fez vencedor, os dois acidentes, a desvantagem no campeonato... isso é pressão demais para qualquer um.
Não penso em um erro, e sim que um pouco de sua sensibilidade para sentir o carro possa ter sido abalada. Uma barra de direção, antes de partir por fadiga, iria primeiro torcer, para depois quebrar, deixando o volante meio bobo, com outro tipo de resposta.
Enfim, foi uma fatalidade, e como diz a lei de Murphy, se algo tem a tendência de dar errado, vai dar e da pior maneira possível.
Obs.: tudo que eu escrevi aqui, eu li na internet, é so dar uma pesquisada...
Gostaria de uma ajuda dos amigos do GP Total, quero saber se vcs conhecem alguém que vende dvd´s gravados de corridas de F1? Há como me enviar algum contato?
Pra quem ainda não assitiu, recomendo um especial no Youtube sobre os pilotos brasileiros na F1, em 10 capitulos. Basta digitar na busca A ERA DOS CAMPEÔES.
Abraços a todos do site, que continua uma referência para os, ainda, amantes da F1.
Você está correto quanto ao Jean Todt não estar na Toyota em 1995 no
WRC, foi erro meu. Mas porque ignoraste o resto da mensagem, dizendo apenas que "no mais, quem lê sua carta vai achar que só a Ferrari fez sacanagens."?
Longe de mim dizer tal coisa. Sacanagem praticamente todo mundo ali
faz, em maior ou menor grau. Eu poderia citar várias sacanagens nos
últimos anos, nos mais diversos graus de seriedade e vindo das mais
variadas equipes. Creio que você não entendeu minhas críticas. O
problema não é a "Ferrari trapacear mais que as outras". Isso é
impossível de se afirmar, pois nós simplesmente não sabemos o quanto
cada equipe trapaceia, já que enquanto há trapaças reveladas, muitas
(talvez a maioria delas) provavelmente ficam escondida por anos e
anos. Não fosse Nigel Stepney, jamais saberíamos que a Ferrari começou
essa temporada correndo com um carro ilegal, por exemplo. Assim como
jamais desconfiaríamos de que a BAR usava um segundo tanque de
gasolina se não tivessem virado o carro deles de cabeça pra baixo.
O que está em questão aqui não é julgar "quem trapaceia mais", visto que
isso é algo que jamais saberemos. A questão é o tamanho da punição
para cada trapaça. É nesse ponto em que a diferença da Ferrari para as
demais é brutal.
Como todo mundo sabe, há dois homens, hoje, que "mandam na F1". Vamos começar falando de Bernie Ecclestone.
A única coisa que move Bernie Ecclestone é o dinheiro. E Bernie
Ecclestone sabe muito bem do potencial mercadológico da Ferrari. A
maioria dos fãs de Fórmula 1 torcem por pilotos, e pilotos vêm e vão -
se hoje a Espanha acompanha apaixonada a F1, isso provavelmente vai
acabar quando Alonso se aposentar, e se de repente um piloto belga
começar a ganhar tudo, provavelmente a F1 vai virar febre nacional na
Bélgica. Para equipes, pouca gente torce. A única equipe que tem
torcida cativa é a Ferrari. Não importa quem esteja no cockpit
vermelho, sempre haverá gente na Itália e no resto do mundo torcendo
pela Ferrari. E isso significa dinheiro.
Bernie Ecclestone, sabendo disso, participou ativamente do movimento
que "reergueu" a Ferrari no início dos anos 90. Isso começou antes
mesmo da ida do pessoal da Benneton para lá em 96 ou da transferência
do patrocínio da Marlboro, e está descrito, por exemplo, no livro de
Gerhard Berger. No último Pacto de Concórdia, garantiu-se à Ferrari a
maior quantidade da divisão dos direitos de TV, independente de sua
posição no campeonato de construtores, pelo simples fato dela ter
"valor histórico", o que faz com que a Ferrari não precise se
preocupar muito com crises financeiras, pois já tem garantida, de
cara, uma bela grana da FOM. Aliando isso à vista grossa para
ilegalidades, o efeito foi devastador: de 1996 a 2007, a Ferrari
ganhou nada menos que sete campeonatos de construtores e cinco
campeonatos de pilotos (podem ser seis, nunca se sabe o que ainda pode acontecer esse ano). E antes que alguém diga que isso foi "por causa do Schumacher", é bom lembrar que todos os companheiros do alemão venceram corridas e ficaram bem colocados nos campeonatos nesse período. Eddie Irvine, piloto que estava muito longe de poder ser
colocado entre os melhores de sua época, quase foi campeão em 1999.
É mais ou menos como se a CBF decidisse que, por terem grandes
torcidas, Flamengo e Corinthians têm que receber mais dinheiro que
todo mundo do bolo dos direitos de transmissão de jogos e têm sempre
que estar lá em cima na tabela dos campeonatos (afinal têm torcidas
imensas), seja por méritos próprios ou "na marra" (como aconteceu em
2006, em que a Ferrari só se tornou postulante ao título graças à
leniência da FIA com os apêndices aerodinâmicos ilegais da Ferrari e à
proibição do amortecedor de massa da Renault).
Quando a Ferrari construiu um "carro de outro mundo" em 2004 e o
Schumacher ganhou todas as primeiras corridas do ano, Bernie
Ecclestone disse que "isso é bom para a Fórmula 1, pois assim as
pessoas vão ficar acompanhando atentamente toda a temporada, para ver se Schumacher conseguirá ganhar todas as corridas do ano". Em 2005 a mudança da regra dos pneus foi desastrosa para a Ferrari, e Bernie
disse que "Pior que a Ferrari ganhar tudo, é a Ferrari não ganhar nada
- isso não é bom para a Fórmula 1". Esse ano, quando ameaçou-se
eliminar a McLaren do campeonato atual e do próximo, sua primeira
reação foi a frase de efeito "a Formula 1 sobreviveu e sobreviveria à
perda de Senna, de Schumacher ou da McLaren, mas a única coisa sem a qual ela não poderia existir é a Ferrari".
Não é que Bernie Ecclestone "torça" pra Ferrari. Ele provavelmente não
torce pra ninguém. Quando toma alguma atitude em relação a F1, está
sempre buscando uma forma de ganhar mais dinheiro, e isso envolve ter
todo tipo de idéias (algumas estapafúrdias) para "aumentar o interesse
na categoria", e também fazer o possível para deixar pelo menos uma
coisa imutável - a Ferrari entre as melhores equipes. E não porque ele
tenha motivos pessoais para isso, apenas porque ele sabe que a Ferrari
sempre dará garantia de lucro, que é o que realmente importa para ele
- na época do julgamento do "Stepneygate", ele foi um dos partidários
da não-exclusão dos pilotos da McLaren do campeonato, tirando somente os pontos da equipe. Isso aplacaria ao menos parcialmente a fúria dos italianos, enquanto garantiria a boa audiência da F1 até o fim da
temporada.
Já Max Mosley tem outra característica importante - ele tem ódio
mortal contra Ron Dennis. Os dois não se bicam há muito tempo, e com o
advento do tal "escândalo de espionagem", Max ficou com a faca e o
queijo na mão. A imprensa ajudou transformando o caso em algo muito
maior do que ele realmente era, comparando o "Stepneygate" aos piores
casos de espionagem industrial. Ora, sejamos razoáveis: espionagem
industrial é quando uma empresa contrata alguém para obter segredos de outra empresa. Nesse caso tínhamos um empregado que estava p. da vida porque achava que merecia uma promoção e não conseguiu, passou um monte de dados pra um amigo que trabalhava na concorrência e os dois foram bater na porta de uma terceira empresa atrás de emprego. No julgamento, a existência desses dois cidadãos foi solenemente ignorada, assim como os apelos de Ron Dennis para que a FIA fizesse um escrutínio no carro atual da McLaren para provar que não houve utilização dos dados da Ferrari.
Se Mosley não mandou ninguém ir lá verificar, provavelmente é porque
sabia que não encontraria grande coisa. A construção dos carros das
duas equipes seguiam linhas tão diametralmente opostas que era
possível descrever em poucas palavras quais as características das
pistas que favoreciam um carro e quais favoreciam o outro: foi o
próprio Jean Todt a apontar tal fato, dizendo que "a McLaren tinha
larga vantagem em pistas que necessitam de altíssima pressão
aerodinâmica e que fazem muito uso das zebras, enquanto a Ferrari era
superior nas demais" - e foi exatamente isso que aconteceu durante
todo o campeonato.
E assim a FIA ao invés de virar de cabeça pra baixo o carro da McLaren
desse ano (e foi por causa de uma suposta vantagem ilegal com o carro
desse ano que ela foi excluída do campeonato), disse que a
participação da McLaren no campeonato de 2008 dependerá de uma
cuidadosa análise do seu novo carro para verificar se não houve
apropriação de dados da F2007 (por que não fizeram isso com o atual?),
e aplicaram aquela que foi provavelmente a maior punição já dada a uma equipe de Fórmula 1 em toda a história do esporte - exclusão do
campeonato de construtores e uma multinha de cem milhões de doletas.
Depois de toda a campanha de demonização da McLaren, ainda teve gente achando que foi pouco. Com o detalhe até cômico de ver Flavio Briatore e Jean Todt posando de paladinos da honestidade. O primeiro, pra quem não lembra, encabeçava a Bennetton na época da bomba de gasolina sem o filtro para fazer pit stops mais rápidos que os das outras equipes, do controle de tração proibido, do sistema de largada automática. O segundo estava na Ferrari quando da utilização do assoalho móvel, dos aerofólios traseiros flexíveis, das asas dianteiras móveis, etc. A diferença é que enquanto o primeiro tomou punições exemplares (mas não tão rigorosas quanto a que a McLaren recebeu por uma falta muito menor), o segundo nem se lembra direito qual o significado da palavra "punição" - ou alguém se lembra quando foi a última vez em que a Ferrari perdeu um pontinho sequer por correr com um carro ilegal?
É compreensível a reação de Briatore: para ele é ótimo que o circo
pegue fogo - ele também não vai com a cara de Ron Dennis, e adoraria
ter Alonso de volta. Já Frank Williams, quando teve sua opinião
solicitada, foi irônico - disse que preferia não usar o termo "caça às
bruxas", mas que estava surpreso com a "tenacidade" com que o caso
estava sendo direcionado. Sir Jackie Stewart, disse que "a FIA,
historicamente, tem uma relação muito próxima com a Ferrari", e
ressaltou o fato de haver um grande número de representantes da
Ferrari no Conselho Mundial, justamente entre os mais poderosos.
Quando soube das declarações, Mosley preferiu atacar pessoalmente o
ex-piloto, chamando-o por alguns dos piores adjetivos dentre os
publicáveis.
Enfim, a Ferrari goza uma situação bizarra na Fórmula 1 atual. Para
ela é praticamente garantido o direito de correr fora do regulamento
(se há denúncia e comprovação, a FIA solta um comunicado pedindo pra não usar de ilegalidade a partir da corrida seguinte e fica por isso
mesmo, como aconteceu na atual temporada e na anterior). Se a coisa
fica ruim pra eles (e pra audiência), dá-se um jeito. Alguém lembra de
quando detectou-se que o carro da Ferrari foi considerado ilegal no
finalzinho do campeonato de 1999, pois usava bargeboards com tamanho fora do permitido? Isso daria o campeonato a Mika Hakkinen por antecipação, e depois de alguns dias mediram a peça de novo e, olha só, ela não estava mais ilegal, não é incrível? As únicas punições das
quais me recordo recebidas pela Ferrari nos últimos anos foram em
casos que escandalizaram a opinião pública, como Schumacher tirando
Villeneuve da pista em 97 ou "estacionando" em Mônaco em 2006. Note
que são infrações cometidas por um piloto, não ilegalidades cometidas
pela equipe (o que aconteceu diversas vezes, sem punições, nas últimas
temporadas).
Em resumo: trapacear, toda equipe trapaceia. Quanto a ser punida
depois de um "flagrante", bem, nem todas.