Dessa vez vou aproveitar o espaço aqui do GPTotal para escrever sobre algumas
competições que agitaram agosto. Começo pelo Rally dos Sertões.
À véspera da prova fui visitar e conferir de perto os últimos acertos de algumas
equipes - as novas tecnologias e os macetes nos preparos dos veículos me chamaram
a atenção. Minha primeira visita foi na oficina improvisada de Robert Nahas,
bicampeão dos quadriciclos. Além do modelo com o qual iria disputar o Sertões,
estavam lado a lado outros, como a versão original e “quadris” de competições
anteriores. Para quem já andou num veículo desses, sabe que o acelerador é no
dedão direito, mas num rally de longa duração como o Sertões - saindo de Goiânia
e chegando em Fortaleza, depois de 10 dias e mais de 4400 km – imagina como
ficaria o dedo! Por isso mesmo, a transformação inicia-se logo aí - o acelerador
é deslocado e fica como o de uma moto, no manete. Além disso, o tanque de combustível
é aumentado para o “quadri” ter mais autonomia. Proteção para os pés é outro item
importantíssimo – afinal, se o pé escorregar (o que não é difícil no rally) o
pneu traseiro vai jogar o piloto para longe do veículo. Além disso, há também
uma roda especial que “morde” o pneu, impedindo que em um tranco ou outro, o
pneu destalone, pulando para fora da roda.
Minha segunda parada foi em Mogi das Cruzes, na oficina de Zé Hélio (pentacampeão nas motos).
Um dia antes ele acabara de retirar da caixa uma encomenda vinda da Alemanha: uma moto
BMW preparada para rally. A moto vem prontinha, recebe apenas alguns acertos
pessoais. Como ponto alto, ela tem a ótima distribuição de peso, o tanque de
combustível não fica na parte frontal e sim atrás, embaixo do banco. Com essa
solução, a frente fica mais fina, as pernas podem, assim, agarrar mais a moto,
facilitando as manobras.
Mit de Guilherme Spinelli, tri dos Sertões
Para conhecer melhor as mudanças nos peso-pesados das trilhas, os caminhões,
fui à oficina de Edu Piano (bicampeão nos caminhões). Além de disputar a categoria,
ele também montou mais dois caminhões para outros competidores (um deles, Vanderlei
Cassol, levou o caneco).
Nesses veículos, tudo é grande, motor, peças, cabine, pneus, e claro, as mudanças.
O motor, por exemplo, é deslocado mais de um metro para trás e sai debaixo da cabine
para ficar atrás dela. O equilíbrio e distribuição de peso do veículo melhoram muito.
O chassi é muito bem aproveitado. Aquele espaço todo, onde normalmente fica a carreta,
carrega pneus e peças sobressalentes. Na cabine, ao invés de duas pessoas
(piloto e navegador), há ainda espaço - e o regulamento permite – que se leve mais um,
e lá vai ele, um mecânico a bordo.
Para a categoria carros, escolhi dois dos grandes pilotos “off-road” para
acompanhar, Guilherme Spinelli e Klever Kolberg.
Em Mogi Guaçu, fui ao ninho da Mitsubishi, ver de perto a preparação da
Triton SR ultra tecnológica, veículo com o qual Guilherme Spinelli conquistaria
mais tarde seu terceiro título no Sertões. O carro é brincadeira! Tem tudo de mais
moderno, preparado e testado. A “Mit” usou as competições que organiza, como a “Mit Cup”
para desenvolver o modelo. Por isso, já tinha até escalonado a troca de peças durante o
Rally, ou seja, elas seriam trocadas antes mesmo que pudessem apresentar problemas.
Toda a carroceria é feita de fibra de carbono, mais resistente. A caixa do motor é revestida
de Kevlar (material usado em coletes a prova de bala), o que impede que qualquer pedra
arremessada com força pela tração do pneu dianteiro entre no motor e o danifique. Os conectores
e fiação usados vieram da indústria aeronáutica, mais leves e resistentes. Enfim, uma máquina daquelas!
O caminhão de Edu Piano
Em Curitiba, fui até a sede da Pro-Macchina, oficina comandada por Maurício Neves,
também piloto de rally, que competiu pela equipe Volkswagen no Dakar deste ano. Ele
e sua equipe desenvolveram o Protom, um carro que une evoluções técnicas de vários
outros, mas em um veículo econômico. A idéia foi fazer um carro acessível e competitivo,
e parece que conseguiram, já que Klever terminou em segundo lugar geral o Sertões 2010.
O que é legal também é que tanto o carro de Spinelli quanto de Kolberg são movidos a
etanol, uma solução mais ecologicamente correta.
Esses acompanhamentos que pude fazer só reforçou minha idéia de como o rally ajuda
na evolução de tantas máquinas, mais ou menos como a Fórmula 1 ajudou na evolução dos
carros de rua. Parabéns ao Rally dos Sertões e sua maioridade - são 18 edições, e
também aos seus vencedores, além dos já citados - o espanhol Marc Coma nas motos e Rafal Sonik nos “quadris”.
A outra competição a que me referi em agosto, foi o Racing Festival, disputado em
Interlagos. No começo do ano, já havia feito alguns comentários sobre a categoria,
elogiando a iniciativa. E quanta alegria, comprovar, que aquela expectativa positiva
toda, se traduziu em verdade. Ela é o que promete ser - um degrau para uma categoria de
fórmula superior, para aqueles pilotos recém-saídos do kart! Os caras aprendem como se
comportar num fórmula, se preparam com carros maiores, e numa competição muito igual,
afinal, os carros tem todos o mesmo motor movido a etanol - chegam a 230 km/h! O câmbio
com power-shift, permite as trocas sem embreagem e pé embaixo o tempo todo, e no volante,
um painel com muitas páginas de informações dá a chance para o piloto estudar a
telemetria e melhorar sua performance. Podem também controlar, a cada curva, a
distribuição de freios traseiro e dianteiro, o que permite ter mais tração no momento
exato que se deseja. A garotada, de 16, 17 anos pisa fundo e trabalha focada.
Rubinho e Tiago
Em Interlagos, tinham ainda mais um motivo, Felipe Massa acompanhava tudo. Os organizadores,
Dudu e Titonio, irmão e pai de Felipe, dão duro nos bastidores e conversam o tempo todo
com os pilotos. A premiação também ajuda a “pisar” forte - uma vaga no programa de
desenvolvimento de pilotos mantido pela Ferrari! Demais!
A Fórmula Future é só um dos braços do Racing Festival, que ainda tem a categoria de
motos (com as Hornet 600 da Honda) e o Troféu Linea, com carros de turismo. No Linea,
por sinal, estão os grandes nomes do automobilismo nacional, Cacá Bueno, Giuliano Losacco,
Christian Fittipaldi, Tiago Camilo, e chefes de equipe como Wilson Fittipaldi. O
interessante é observar a busca pelo entendimento do carro, afinal, não são só bolhas
de armação tubular como a Stock, são carros de rua adaptados para competição. A tração
é dianteira, não permite escorregar na curva, por isso mesmo, os próprios pilotos têm
de provocar o carro para que se perca um pouco.
O único pesar da categoria – problema também de outras, é o público, que não comparece.
A categoria poderia pensar em despertar a cultura de corrida na garotada também fora
do carro. Uma idéia é ir as escolas estaduais, municipais durante a semana, com alguns
pilotos, chamar a garotada, disponibilizar ônibus e um lanchinho e levar todo mundo
para a pista passar um ótimo domingo assistindo corridas. Que tal?
Para finalizar, as competições de agosto, uma disputazinha de brincadeira - eu na pista!
Pois é, mais uma vez Rubens Barrichello fez seu Barrichello´s kart day, na Kartódromo
da Granja Viana. Ele convida alguns membros da imprensa especializada e entre uma prova
e outra dá algumas dicas de pilotagem. É uma iniciativa bem bacana do Rubinho, um sujeito
que eu respeito muito e que por injustiça é muito mais celebrado fora do País que por
esses lados. Quem não viu ainda, basta ver o que ele fez no Top Gear há uns dois meses,
tradicional programa inglês de carros e referência mundial no segmento
Bom, acho que escrevi demais desta vez. Mas, tomara que gostem. Grande abraço e até a próxima