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Sessenta anos 19.05.10
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Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com

Jim Clark com Lotus em Nurburgring 65 - Clique para ampliar
Dia 13 de maio, a Fórmula 1 completou sintomáticos 60 anos de vida. Uma marca grande demais para ser considerada apenas expressiva, especialmente quando pensamos nas violentas turbulências econômico-sociais vividas ao longo do período. Não. Sobreviver a tantas intempéries e a tanto fogo amigo ao longo de todos estes anos é, no mínimo, uma situação factual. Existem razões muito fortes para a existência contínua do Campeonato Mundial, que merecem sim ser estudadas com atenção.

Pensando a este respeito, cada vez mais me convenço que um evento tão caro e complexo só pode vencer cenários desfavoráveis e a própria corrosão temporal quando fincado profundamente em básicas paixões humanas. Não se iludam com o banho de loja e a pirotecnia da organização. Fórmula 1 existe porque mexe com duas coisas que fascinam grande parte da população mundial, há muito mais do que seis décadas: limites e dinheiro. Nessa ordem.

E enfatizo a ordem pois a busca por limites veio primeiro, e é ela que homens de negócio como Bernie Ecclestone vendem como espetáculo. Tire do campeonato os melhores carros e os melhores pilotos do mundo (o que, dada a atração mútua entre estes polos, talvez seja até uma frase redundante), e boa parte do dinheiro migrará junto.

Fangio com Alfa Romeo em Silverstone 50 - Clique para ampliar
Fã de Fórmula 1 não liga a tevê para ver uma centena de ultrapassagens-placebo. Para isso existem centenas de categorias genéricas muito eficientes. Fã de Fórmula 1 liga a tevê para ver os carros mais rápidos que o homem é capaz de construir, serem levados aos seus limites por um punhado de pilotos tão talentosos quanto loucos. Tendo competição e disputas verdadeiras, então, tanto melhor.

O grande problema da Fórmula 1 é que ela já não pode se dar ao luxo de viver apenas de seus fãs.

Contando com credibilidade e abrangência comerciais inigualáveis, a categoria que antecipou a própria globalização atraiu para si um complexo microcosmo das principais empresas mundiais em áreas que vão desde a própria indústria automobilística à fabricação de bebidas. Investidores muito bem-vindos, mas que no fim das contas possuem compromissos unicamente com os próprios balancetes anuais, e se estão na F1 é porque ela lhes dá lucro, de uma forma ou de outra.

Então, para a máquina toda funcionar, temos de um lado as equipes rumando cegas a uma corrida tecnológica que, se em última análise consumirá rios de dinheiro sem oferecer qualquer garantia de sucesso, ao menos irá assegurar de maneira colateral que os carros continuem sendo os mais fantásticos do mundo. Enquanto, do outro lado do espelho, promotores estarão cada vez mais ávidos por entregar índices de audiência mais e mais inflacionados.

Emerson com Lotus em Interlagos 73 - Clique para ampliar
Trata-se de uma zona de pressão que faz lembrar as máquinas de guerra (disputa de mercado decidida em corrida tecnológica), dentro da qual é fácil se perder. Certamente existirão conflitos de interesse, e seria ingenuidade imaginar que o esporte poderia sobreviver imaculado a tantas contas por pagar. As rodas só continuarão girando se mais de 100 milhões de pessoas ligarem as tevês a cada 15 dias durante as corridas, e simplesmente não existem tantas pessoas por aí interessadas em provas sem batidas ou ultrapassagens a cada 30 segundos.

Até aí, no entanto, tudo bem. O problema é quando tais concessões em busca de espetáculo ferem os fundamentos mais básicos da categoria, tão propriamente defendidos aqui mesmo, por Eduardo Correa, em coluna de 11/2/2010.

Quando abro o site da referencial revista inglesa Autosport, por exemplo, e dou de cara com um artigo especial intitulado: “Por que a F1 deveria tentar corridas divididas em baterias”, assinado pelo jornalista Thomas O'Keefe, compreendo nitidamente o porquê de tantas instituições tradicionais naufragarem diante da renovação em suas bancadas diretoras. Empresas de sucesso tendem a durar mais que seus fundadores, e a consequência é que numa certa altura pessoas jovens demais para compreenderem por que certas coisas são como são, começam a ter ideias tão criativas quanto fadadas à ruína. Nada contra renovação ou adaptação, muito ao contrário. Mas o fato é que instituições seculares (ou quase) não devem ser palco para experimentações aventureiras. Simples assim.

Alonso com Ferrari em Mônaco 2010 - Clique para ampliar
A própria FIA, em sua mais recente pesquisa de opinião(!), perguntou aos fãs suas ideias acerca da duração das provas. Uma pergunta simples na aparência, mas que joga pela janela o próprio significado histórico do termo “Grande Prêmio”. Afinal, é preciso lembrar que o Campeonato Mundial, organizado a partir daquele sábado em 1950, nada mais foi do que uma vinculação dos legendários Grand Prix, que ocorriam isoladamente havia muito mais tempo. Provas de distância intermediária, situadas nos limites entre resistência e velocidade, cuja herança praticamente se restringe à Fórmula 1 na atualidade.

Levando-se em conta o peso deste passado, portanto, a distância a ser percorrida durante as corridas torna-se uma questão quase que dogmática, tanto mais diante das aberrações tornadas possíveis com as famigeradas rodadas duplas. Grids invertidos, pilotos privados de disputar corridas por terem se acidentado pela manhã, e por aí vai.

Piquet com Brabham em Monza 81 - Clique para ampliar
Da mesma forma, me posiciono radicalmente contra o fornecimento de chassis a equipes clientes, tão defendido por David Richards e seus correligionários. Fórmula 1 é lugar de construtores, no sentido mais literal que se possa conceber, e é justamente a concorrência entre eles que no fim das contas a torna o palco atraente que ela é. Claro que já houve equipes clientes no passado, e que os carros de Rob Walker escreveram algumas das melhores histórias que conhecemos sobre corridas. No entanto, a própria grandeza dos feitos de Stirling Moss e Walker passa pela aceitação de que a F1 sempre foi dos construtores. Tire-os de cena, e o que restará será pouco diferente de uma Fórmula Indy mundializada, fazendo curvas para a direita.

A comemoração dos sessenta anos, portanto, mais do que inspirar badaladas festas na noite de Mônaco, deveria servir de estopim para uma profunda releitura dos pilares esportivos que nos trouxeram até aqui. Vivemos dias de grandes questionamentos acerca de perguntas fundamentais para homeostase do pináculo do esporte a motor, e cada vez menos numerosos são os ‘dinossauros’ entre as pessoas que decidem os rumos a serem adotados.

Seria interessante que, para encarar o futuro, a Fórmula 1 voltasse os olhos um pouco que fosse para seu próprio passado. Década a década, corrida a corrida, gênios dentro e fora dos carros sempre tiveram talento de sobra para garantir o funcionamento de uma verdadeira fábrica de lendas esportivas. No campo tecnológico, impossível mensurar a contribuição dos Grandes Prêmios para a qualidade do transporte em suas diversas frentes.

Senna com McLaren em Spa 91 - Clique para ampliar
No fim das contas, se depois de sessenta anos os melhores carros e pilotos do mundo já não forem mais capazes de atrair sem apelações um público que os permita correr, então, talvez o problema esteja com o próprio público e o imediatismo a que foi acostumado. E, neste caso, com certeza não haverá comércio de chassi ou grid invertido capaz de salvar a categoria.

Em meio a tantas ideias mirabolantes, apostar nos velhos fundamentos e no público fiel continua sendo o caminho mais seguro a se tomar.

Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com

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