Encerrada a primeira fase da temporada 2010, a imagem que se desenha é, sob vários aspectos, mais rica do que se poderia antecipar. Drásticas mudanças esportivas saltam aos olhos, condicionadas fundamentalmente por dois fatores decisivos: o clima instável e o fim dos reabastecimentos.
Em relação ao clima, não há muito que dizer – afinal, é um agente imponderável. Ainda assim, não me recordo de outra temporada que tenha se iniciado com um índice de 75% de corridas afetadas pela instabilidade meteorológica. Se na Europa as chuvas derem um tempo, então poderemos ver exatamente o tipo de comportamento que será chave para a conquista de vitórias nas chamadas ‘condições normais’. Por ora, sensibilidade e coragem para escolher e seguir estratégias tem sido uma virtude de ouro, especialmente nas mãos de Jenson Button. Como já afirmei em análises no www.ultimavolta.com, digam o que quiserem sobre ele. Menos que não possui coração de campeão.
Já em relação ao fim dos reabastecimentos, só posso reafirmar o que já havia dito aqui mesmo durante a pré-temporada: essa regra mudou completamente a Fórmula 1. Alguns me chamaram de exagerado na ocasião, mas os maiores termômetros de que atualmente o sucesso na F1 requer qualidades e posturas muito diferentes daquelas que vigoraram durante 16 temporadas se chamam Lewis Hamilton e Michael Schumacher.
Entre 1994 e 2009, pode-se dizer que o pináculo do automobilismo funcionou sob medida para premiar os super-homens. A equação era simples: combustível ilimitado + 3 ou 4 jogos de pneus por corrida + confiabilidade mecânica + ultrapassagens nos boxes = 300km percorridos em ritmo de qualificação. Os únicos limites eram os de aderência, e quem mais conseguisse se aproximar deles durante a totalidade do GP obteria mais destaque e sucesso.
Já num universo sem reabastecimento, os limites daquilo que seria uma corrida ideal se situam muito abaixo daqueles que cada conjunto poderia explorar a cada volta isoladamente. É preciso considerar a corrida de maneira mais gestáltica, buscando a visão do todo. Ser rápido sim, mas de maneira sustentável.
Com isso, vivemos dias favoráveis a pilotos cerebrais, alinhados com a famosa frase do personagem Lex Luthor, que dá título a esta matéria. “Mente acima de músculos”, eis o velho novo nome do jogo. Super-homens, como Schumacher e Hamilton, em geral se situam acima desta linha, e já não podem se permitir os mesmos excessos que lhes renderam números tão impressionantes durante a era da correria pura e simples. Agora, aqui se faz e aqui se paga. Ayrton Senna também viveu este mesmo drama durante sua temporada de 1985, e demorou quase um ano inteiro a se adaptar. O próprio Schumacher, aliás, só deixou de ser uma promessa para se tornar uma máquina de vencer quando, em 1994, encontrou um regulamento que o permitia voar sem compromissos.
Sem reabastecimentos, portanto, estamos vendo de volta o jovem Schumacher de 1992 e 1993, e será interessante observar se a experiência acumulada poderá fazê-lo um vencedor também sob este tipo de regulamento. A idade, para isso, não será um handicap tão decisivo, tão logo ele volte a se sentir à vontade dentro do carro.
Apenas para reforçar a importância dessa conjugação entre o talento específico e o ambiente que se encontra, reproduzo aqui um trecho de entrevista exclusiva que fiz com Alessandro Zanardi, e que ainda não publiquei em lugar nenhum. Numa certa altura, sem meias palavras, perguntei ao italiano sobre o porquê dele ter guiado tanto na extinta Cart, e não ter repetido o mesmo desempenho na Fórmula 1. Sua resposta foi igualmente franca.
“Eu acredito que todos nós temos grandes talentos para áreas específicas. (...) A este respeito, eu acredito que aquele tipo de carro, da Indy naquela altura, era absolutamente fantástico para meu estilo de pilotagem. Eu guiava aquele carro de maneira absolutamente natural, da forma como gostava, e ele me fazia me sentir realmente rápido e eficiente.”
“Na Fórmula 1 foi diferente, embora este não tenha sido o único problema. (...) Em minha segunda experiência com a F1 em 1999, com a Williams, o grande problema era que o carro era completamente contrário aos meus instintos naturais. No entanto, de qualquer maneira eu acredito que não teria sido possível dar certo. Eu jamais me entrosei com a equipe, nós perdemos confiança muito rapidamente um no outro... E foi isso.”
Rubens Barrichello não desaprendeu a guiar na chuva, até porque este tipo de coisa simplesmente não existe. O que acontece, no fim das contas, é que este é um dos grids mais fortes em toda a história da Fórmula 1 e atualmente mais da metade dos pilotos que alinham são efetivamente muito bons sob estas circunstâncias. Ainda assim, basta o comparar a Hülkenberg para ver que suas prestações continuam do mais alto nível.
Além disso, a Williams e os motores Cosworth ainda pecam muito em relação à dirigibilidade, e a chuva apenas amplifica estes problemas, tornando a tarefa de Rubinho muito mais difícil.
Por falar em chuva, ela em si jamais foi um problema para a Fórmula 1. O problema, de fato, são as mudanças nas condições de competição.
A questão é que existem duas zonas fronteiriças entre as condições climáticas, sobre as quais pneus de concepções completamente diferentes podem entregar desempenhos equivalentes nas mãos de determinados pilotos. Estou falando daquele tipo de chuva fraca, na qual pneus slicks ou intermediários podem proporcionar os mesmos níveis de aderência, ou então aquela chuva mais forte, na qual não fica claro se é o caso de usar intermediários ou compostos de chuva extrema. Estas sim são situações críticas, nas quais o mais importante será tentar antecipar o próximo rumo das circunstâncias. E aí, vai secar, ou molhar de vez?
Este é o tipo de situação que gera dúvidas e acaba dividindo o grid em dois grupos. Falando especificamente sobre este GP da China, podemos dizer que ele foi inteiramente disputado sob estas circunstâncias, tornando a disputa algo muito mais complexa e democrática.
No fim, não tivesse sido a bandeira amarela que o Edu previu em sua coluna de 9/4/2010 (sob a alcunha elegante de ‘safety car’), a ordem dos primeiros colocados iria premiar única e exclusivamente a sensibilidade e a coragem de terem apostado certo, quando radares e computadores não conseguiam equacionar qual o melhor caminho a seguir.
De minha parte, considero um verdadeiro crime ao esporte este tipo de interferência, que por pouco não mudou inclusive o vencedor da corrida. Antes do safety car, apenas para fins de registro, Jenson Button se encontrava 54,5 segundos à frente de Lewis Hamilton. Uma vantagem construída com méritos, e evaporada graças a interesses externos.
E já que falei de Lewis Hamilton, de que vale adverti-lo corrida após corrida?
Como todos se lembram, Lewis foi advertido por ciscar na frente de Petrov em Sepang, de tal forma que se imaginou que ele viria a ser punido efetivamente caso voltasse a agir segundo suas próprias regras. E então 15 dias depois ele e Vettel protagonizam uma perigosa batalha ao longo de todo o pitlane, e por fim Lewis ainda isola Mark Webber para fora da pista no momento da relargada, expondo o australiano a riscos absolutamente desnecessários – sem falar no prejuízo definitivo para sua corrida.
Ao fim de mais um dia no qual o campeão de 2008 agiu de forma desrespeitosa e temerária, a direção de prova optou por dar-lhe nova advertência, e nada mais. E o que me pareceu mais insensato: a admoestação foi em virtude da disputa com Vettel, e não a ocorrência com Webber.
Ora, é claro que o pitlane não é lugar para disputas, dada a quantidade de pessoas que por lá circula. Isso é fato. Mas, outrossim, a maneira como dois dos maiores talentos do esporte a motor disputaram cada metro da pista de boxes até o limite da sanidade foi, até aqui, o momento de maior sinceridade em toda a temporada.
Numa época de diplomacia estéril, declarações castradas e encenações politicamente corretas, a insanidade de Hamilton e Vettel continua sendo passível de repreensão, é claro. Mas, em meio a tanta maquiagem, parte de mim não deixa de considerar uma tremenda hipocrisia querer mascarar a essência viril do esporte.
Retire os milhões de euros, a televisão e as garotas e ainda assim restarão pilotos loucos e máquinas sedentas de serem levadas aos limites. No fundo, tudo não passa de uma tremenda disputa territorial. Um racha de rua do mais alto nível, e embalado para consumo.
Melhor teria sido punir Hamilton pelo que ele fez a Webber.
Está aí uma resposta difícil e subjetiva. Se não tivesse sido em cima de um companheiro de equipe, talvez estivessem todos exaltando o oportunismo do bicampeão. Mas, realmente, este não é o tipo de coisa que se faça com um irmão de armas. Tanto mais quando se é recém-chegado à casa.
O prejuízo para a corrida de Felipe foi monstruoso, em virtude da espera extra na troca dos pneus. Massa, no entanto, mediu palavras ao comentar o episódio, e está mais que certo. Afinal, ele sabe que este tipo de resposta se dá na pista, e não diante dos microfones. Até porque hoje ele ganhou seu salvo conduto.
Podem apostar. Muito antes do fim da temporada - e em meio a muita diplomacia e panos quentes -, Felipe vai dar o troco ao espanhol. É tudo uma questão de surgir a oportunidade.