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Guerra dos mundos 07.04.10
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Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com

Um ser humano normal


Quando vejo Felipe Massa na liderança do Mundial de Fórmula 1 mais difícil dos últimos anos, poucos meses após ter vencido uma difícil luta pela vida e pela saúde, não consigo deixar de pensar no clássico livro de Herbert George Wells, A Guerra dos Mundos. Nele, como é de conhecimento geral, é narrada a luta da resistência humana diante de uma tremenda e súbita invasão alienígena. E o que é mais inusitado: no fim, não são as habilidades humanas que asseguram a vitória, e sim nossas fraquezas. As mesmas doenças que nos fragilizam, ironicamente, acabam sendo nossa garantia final de sobrevivência.

Bom, antes que digam que eu surtei de vez, permitam-me justificar a metáfora. Em minha opinião, Felipe Massa concentra muito do que restou de humanidade entre os pilotos da Fórmula 1, e, mais que isso, também acho que ele ocupa a liderança do Mundial justamente em função de todas as fragilidades que o tornam tão humano.

Para começar, e falando muito francamente, Felipe Massa não é um gênio do automobilismo. É sim, um piloto rapidíssimo e de enorme talento, plenamente merecedor de seu espaço entre a elite do esporte. Mas, em relação aos dons que trouxe do berço, Massa não pode ser comparado a um punhado de nomes do passado ou do presente, para os quais as coisas aconteciam ou acontecem muito mais naturalmente.

Isso, no entanto, apenas permite que sejam tecidos elogios muito maiores à sua pessoa.

Olhe, por exemplo, para Sebastian Vettel. Francamente, esse moleque é um alienígena! O que ele fez no miolo na pista barenita durante as cinco voltas finais do GP que abriu a temporada deste ano foi qualquer coisa de indescritível, como, entre outros exemplos, já havia sido sua incrível vitória em Monza, ao volante de uma improvável Toro Rosso. A cara de Mark Webber no pódio em Sepang dizia tudo. Por mais que o rápido australiano perca o sono imaginando maneiras de ser mais veloz, Vettel estará sempre um décimo (ou mais) à sua frente. E se divertindo muito mais com a coisa.

Nos boxes - Clique para ampliar
Poderíamos aqui falar também do brilhantismo de Robert Kubica, ou da fúria incontrolável e exuberante de Lewis Hamilton. Ainda, quem sabe, relembrar os feitos de Michael Schumacher, e a força deste incrível Fernando Alonso. Afinal, todos eles vieram do mesmo planeta, seja ele qual for. Valentino Rossi, Casey Stoner e Sébastien Loeb também vieram de lá, por acaso.

Já Felipe Massa, não. Quando a mola atingiu seu capacete, Felipe sangrou, acusou o golpe, quase morreu. Agora pense: você já viu (ou consegue imaginar) Vettel sangrando? E Kubica? O cara se choca frontalmente contra um muro no Canadá, capota com os pés expostos, e não fica com nenhum arranhão? Que humanidade é essa?

Quem se lembra do mundial de 2002 deve ter em mente a imagem de um Felipe capaz de curvas muito rápidas, mas com flagrantes dificuldades para encontrar o equilíbrio entre arrojo e segurança. Alguém que lutava muito para compreender os limites que, para outros, eram simplesmente naturais.

Um diamante bruto, enfim, nitidamente carente de lapidação.

No entanto, quando prestamos atenção à carreira de Massa, só nos resta admirar a forma como ele se reinventou ano após ano, corrida após corrida, tornando-se cada vez mais polido, seguro e eficiente. E o mais bacana é perceber que tudo isso se deu à custa de muito esforço, muita garra e dedicação. Ao contrário de outros que já nasceram prontos, Felipe é um cara deste mundo, de carne e osso, passível de erros, e que se construiu à base de muita luta.

Com Alonso
Sua liderança, portanto, é sempre um triunfo do possível, uma vitória do esforço e do trabalho duro, da transpiração sobre a inspiração. Algo, por isso mesmo, muito mais identificável ao fã comum. Além de ser uma profunda ode ao mérito.

Lembro, por exemplo, que pouco antes dos jogos olímpicos de Pequim cheguei a comentar com alguns amigos que considerava Maurren Maggi minha candidata à conquista da medalha de ouro no salto em distância, apesar de todo o favoritismo da portuguesa Naíde Gomes. E a razão era puramente subjetiva: apesar de não ser a melhor saltadora, Maurren já era mãe, e tinha enfrentado momentos muito difíceis ao longo de sua trajetória. Eu tinha a certeza de que ela não iria se intimidar diante da pressão, e sua expressão de leoa na hora da disputa sintetizava tudo.

Em relação a Felipe Massa eu penso a mesma coisa.

Para começar, Felipe sabe muito bem o quanto foi difícil atingir o nível de pilotagem que ele exibe atualmente. Não deve ter sido fácil escutar tantas críticas da imprensa mundial quando contava apenas 20 anos de idade, e muito menos tirar forças delas para dar a volta por cima num ambiente tão cruel quanto o da F1. Ainda mais sendo um homem de carne e osso, como ele é.

Há que se considerar também as duras condições em que se desenvolveu sua carreira, tendo companheiros de equipe sempre muito fortes, especialmente a partir do momento em que passou a guiar para a Ferrari. E por fim, quantos homens no grid podem dizer que viram, de verdade, a morte de perto? E quantos viveram a crisálida da paternidade?

Interlagos 2004, nos tempos da Sauber, brigando com Button - Clique para ampliar
Não, Felipe Massa não é um superdotado ou um ET. E palmas a ele por isso! Afinal, não serão os méritos proporcionais às dificuldades? Pois então fiquem sabendo que eu, que sempre me arrepiei ao ver pilotos superdotados ao volante, estou paulatinamente sendo modificado por Felipe Massa. Este homem falível e esforçado que, sem a perfeição de seus adversários, lidera hoje a tabela de pontos da principal categoria do esporte a motor mundial. E de forma muito merecida.

Ok, esta deve se revelar uma situação pontual, e também é verdade que Felipe contou com a sorte para estar onde está. Mas, que diabos, a sorte sorriu para quase todos, e tirou proveito da situação aquele que fez melhor a sua parte.

Goste-se ou não, a verdade é que hoje, após percorrer vias muito mais tortuosas que as de seus rivais, Felipe é sim um dos melhores pilotos do mundo. Talvez nem tanto pela velocidade pura e simples ou pela habilidade em condições de clima variável. Mas certamente pelo conjunto da obra, e, sobretudo, por essa determinação que o fez seguir em frente, trazendo nos retrovisores uma bagagem de vida muito mais rica e fortificante. Afinal, tudo aquilo que não mata, fortalece.

Sem jamais ter baixado a cabeça, Felipe sempre confiou ‘no próprio taco’, e não foi arrogante. Ganhou, perdeu, tudo de cabeça erguida. Não foi perfeito, não viveu apenas de glórias, como ademais qualquer outro ser humano. Por sua vez, também não inventou desculpas tampouco foi mais um brasileirinho contra um mundão desfavorável. Foi, isso sim, um verdadeiro homem, por acaso brasileiro (e dos melhores), além de um baita exemplo de superação e bravura.

Massa nos treinos de sábado, em Sepang - Clique para ampliar
Pessoalmente, acho muito legal ver Felipe liderando o Mundial. E não digo isso por ele ser brasileiro, como eu. Digo isso porque atualmente me agrada muito mais ver alguém vencer por ter coração e pela postura que assume, do que pela sorte de ter nascido com o dom da perfeição.

Digo isso por ele ser humano.

Como eu.



Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com

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