Logo que soube da notícia do retorno de Michael Schumacher à F1, surgiu a ideia de escrever um 'especial' com as melhores corridas de sua carreira. Schumacher, sempre tão aclamado por seus recordes, dificilmente tem um desempenho na ponta da língua de torcedores ou mesmo especialistas - de vez em quando o GP Brasil de 2006 é mencionado como o seu “supra-sumo”, mas isso se dá muito mais por aquela ter sido sua (ex-)última corrida do que pelo desempenho em si (aquela corrida, claro, está nessa lista).
Ao longo de sua carreira de uma década e meia e duas centenas e meia de GPs, Schumi protagonizou momentos inesquecíveis no bom e no mau sentido - como, aliás, a maioria dos grandes pilotos; iremos nos ater aqui aos positivos, aos que fazem com que todos nós fiquemos atentos para ver o que ele poderá nos proporcionar nesse seu retorno que, por si só, já é marcante. Exigir que Schumacher, aos 41, faça corridas como aquelas dos anos 90 é como pedir que Jimmy Page componha “Stairway to Heaven” aos 66 anos; mas tanto de Page quanto de Schumy pode-se sempre esperar algo genial.
Para a criação dessa lista (que terá mais detalhes no meu blog, feito em parceria com Cassio Yared), os critérios foram extremamente subjetivos, mas procurei levar em conta pelo menos três fatores: condições da corrida (tempo, posição de largada), qualidade do equipamento (dele e dos adversários), importância da situação (para efeitos de campeonato). Cheguei ao número sete não para coincidir com seu número de títulos, mas para manter a fórmula tradicional daquelas que um dia foram conhecidas como “Sete Maravilhas do Mundo”.
E como é duro escolher! Deixei de fora, por exemplo, um dos episódios mais marcantes de sua carreira: a conquista do seu terceiro título, o primeiro de um piloto ferrarista em 20 anos. Também não pude incluir Áustria 2003 (a corrida em que seu carro pegou fogo no pitstop e ele venceu) nem Espanha 1994 (seu carro ficou preso na quinta marcha, mas ele chegou em segundo lugar).
Mas o resultado final não ficará afetado.
Largada do GP do Japão de 2000
Maravilha número sete (ou “O Mausouléu de Halicarnasso”): GP da Hungria de 1998
A etapa húngara de 1998 é a que melhor ilustra aquilo passou para a história como a marca registrada de Michael Schumacher na Fórmula 1: as voltas mais rápidas em corrida. O fato de Schumacher possuir o recorde de melhores voltas em GP (foram 76 até hoje) possui importância menor do que a forma com que cada uma dessas “flying laps” foi obtida.
Em Hungaroring (pista onde venceu nada menos que quatro vezes), ele realizou algo impressionante: estabeleceu voltas rápidas numa seqüência alucinante, chegando a abrir 3 segundos num só giro (!). E o mais marcante é que – assim como faria na França, em 2004 – o alemão superou seus adversários (Coulthard e Hakkinen, da McLaren) mesmo tendo feito uma parada nos boxes a mais.
O mais impressionante é ver como o carro balança – em várias curvas, ele entra de lado – e as freadas “tardias”. Schumy estava andando tão forte naquele dia, que em dado momento chegou a escapar da pista; mas sua vantagem era suficiente para que a vitória não fosse ameaçada. Com essa obra-prima, Schumacher diminuiu para apenas 7 pontos a vantagem de Hakkinen – faltando 4 etapas para o fim.
Maravilha número seis (ou “O Templo de Ártemis”): GP do Brasil de 2006
É muito interessante ver (hoje em dia) comentários de pessoas que estiveram em Interlagos naquele 22 de outubro de 2006 dizendo que “infelizmente, não podem mais dizer que assistiram ao último GP da carreira de Schumi”. De fato, assistir aquele espetáculo, de antemão sabendo que era a aposentadoria de um dos maiores esportistas da história, é algo como quem pôde ver o Santos X Cosmos de 1977.
(Antes desse GP, o protagonista daquele jogo entregou a Schumacher um troféu, pelo encerramento da carreira).
Schumacher já não tinha mais chances de título naquele dia, embora a matemática queira me desmentir e dizer que bastava que o alemão vencesse aliado a uma 9ª (ou inferior) colocação de Fernando Alonso ao final da etapa. Para piorar, nos treinos o alemão teve problemas no carro que o impediram de participar do Q3: teria de largar em décimo. Justamente por isso, Schumacher optou por uma pilotagem agressiva e, digamos, descompromissada.
No final, apesar da 4ª colocação, Schumacher realizou a melhor “corrida de despedida” de todos os grandes campeões: ganhou diversas posições (algumas, mais de uma vez, após um furo no pneu), marcou a volta mais rápida da prova, e fez uma ultrapassagem antológica sobre Raikkonen – uma das melhores de sua carreira, somente atrás daquela aplicada em Damon Hill, no Estoril/1995.
Uma apresentação “de gala”. Que não será mais a derradeira.
Schumi acaba de superar Fisico: Interlagos 2006
Maravilha número cinco (ou “O Colosso de Rodes”): GP da Europa de 1995
Sempre que penso numa corrida que seja um “exemplo de determinação” por parte de Schumacher, a edição de 1995 do GP da Europa me ocorre. Creio que talvez tenha sido nesse dia que o alemão melhor demonstrou sua obstinação pela vitória de modo que somente os corredores fazem. Para usar uma gíria do futebol, nesse dia Schumacher correu com muita “raça”.
Ainda havia 40 pontos em disputa, e Schumi tinha 17 de vantagem sobre Damon Hill. Nos treinos, como na maior parte da temporada, as Williams largaram na frente. Schumacher conseguiu a terceira posição. Na largada, beneficiado por largar do lado limpo, Michael pula para a segunda colocação. A partir daí, as variações climáticas é que ditariam o ritmo da corrida.
As Ferraris se deram bem nos pit stops – isto é, continuaram na pista, enquanto a maioria dos pilotos colocava pneus slick –, e ao fim destes Alesi (que havia largado em 6°) era líder com 20s de vantagem. Schumacher vinha em segundo, e realizaria sua obra-prima em dois atos...
O primeiro acontece quando, com um carro bem mais rápido, Damon Hill o pressiona: o inglês chega a ultrapassá-lo, mas antes de completar a volta, Schumacher retoma a segunda posição quando ninguém imaginava. Mas o melhor estava por vir. Michael começou com suas voltas rápidas e o francês, pressioando, chegou a rodar. Faltando poucas voltas para o final, Schumi estava colado em Alesi. Não é difícil imaginar o que aconteceu...
Agora, Schumi só precisava de um quarto lugar em 3 GPs para ser bicampeão...
Na próxima coluna, outras 4 maravilhas automobilísticas criadas por Schumacher.