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A FIA sob Todt II 09.11.09
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Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com



Todt, abraçando Irvine e Schumacher
Leia a primeira parte deste artigo

Sob o aspecto esportivo, existe outro empecilho claro em relação ao nome de Jean Todt para a presidência da FIA: sua ligação umbilical com a Ferrari. Basta dizer, por exemplo, que Michael Schumacher o acompanhava no momento da divulgação dos resultados da eleição.

Não se trata de dizer que o dirigente irá favorecer a equipe italiana, e sim de entender que, de antemão, qualquer atitude que ele tenha em relação às equipes será, inevitavelmente, interpretada sob este viés. Para além de serem posturas justas ou não, Todt será sempre suspeito de favorecimento ou, por outro lado, de ser excessivamente rígido com os vermelhos, no intuito de não deixar dúvidas quanto à sua imparcialidade.

A questão, aqui, é que o cargo de presidente da FIA não pede apenas uma isenção prática. É também muito importante que alguém à frente de tantos e tão grandes interesses realmente pareça estar sendo isento. E parecer isento, no caso de Todt, certamente será mais difícil do que propriamente sê-lo.

Ainda em relação aos tempos de Ferrari, podemos recordar brevemente outros dois episódios paradigmáticos a respeito da personalidade de Jean Todt.

O primeiro nos leva à decisão do mundial de 1997, na pista de Jerez de La Frontera, na Espanha. Graças à desclassificação tardia de Jacques Villeneuve no GP do Japão daquele mesmo ano, Michael Schumacher chegava à última prova da temporada com a vantagem de 1 ponto em relação ao canadense. Era, portanto, um momento de enorme tensão dentro da Ferrari, que naquela altura vivia um jejum de infinitos 18 anos sem um título mundial de pilotos.

Na pista, um equilíbrio raro de forças. Ao término da qualificação nada menos do que os três primeiros colocados no grid haviam anotado o mesmo tempo, na casa dos milésimos de segundo. A pole, no entanto, cabia a Villeneuve, por tê-lo feito antes dos demais. Schumacher, segundo a marcar o tempo, completaria a 1ª fila.

Dada a largada, porém, foi Schumacher quem assumiu a ponta, seguido sempre de perto pela Williams de Villeneuve. Sempre? Bom, na verdade nem sempre, pois quando ambos se aproximavam da Sauber do argentino Norberto Fontana, Jean Todt foi pessoalmente ao boxe da equipe que na época recebia motores Ferrari. O objetivo? Instruir o argentino a facilitar a ultrapassagem de Schumacher, e então bloquear o caminho de Villeneuve.

Existem diversos vídeos deste momento na internet, e fica claro que a ordem foi recebida e cumprida. O próprio Fontana já admitiu o episódio publicamente. O golpe, no entanto, não surtiu efeito, uma vez que Villeneuve instantes mais tarde conseguiu a ultrapassagem na marra, e ainda teve a justa sorte de sair ileso de uma tentativa de acidente por parte de Schumacher.



O mesmo Todt, cinco anos mais tarde, foi um dos responsáveis pelo patético episódio da inversão de posição envolvendo Rubens Barrichello e Michael Schumacher, na última volta do GP da Áustria.

A bem da verdade, a mesma ordem já havia sido dada no ano anterior, porém com menor repercussão por envolver a troca de um segundo lugar por um terceiro. Em 2002, contudo, Rubens foi privado de uma vitória mais que merecida, naquela que era apenas a 6ª corrida do mundial. Além disso, Schumacher havia vencido 4 das 5 primeiras provas do ano, e tudo indicava que a conquista do campeonato seria uma mera formalidade para o alemão. A equipe havia conquistado por suas mãos os dois anos anteriores, e já não havia qualquer pressão excessiva que justificasse uma agressão ao espírito esportivo como aquela. Até porque Juan Pablo Montoya, então vice-líder do mundial, encontrava-se 21 pontos atrás do tedesco. Um episódio que certamente resume bem o espírito maquiavélico de Todt. Atenção total aos fins, sem se preocupar com os meios necessários.







Por fim, resta saber como irá se sair Jean Todt exercendo um papel diametralmente oposto ao que o consagrou na esfera competitiva.

Por tantos anos, na condição de chefe de equipe ou diretor esportivo, coube a Todt procurar e explorar quaisquer brechas possíveis em regulamentos técnicos, bem como passar por cima de ideais olímpicos em nome de interesses superiores da equipe. A partir de agora, no entanto, será ele um dos responsáveis pelas questões técnicas, bem como o principal defensor das condições igualitárias e acessíveis para a competição.

No fim, se trata de saber se valerá aquela situação tantas vezes explorada nos filmes, segundo a qual um experiente transgressor em qualquer área acaba por se tornar um vigilante mais eficiente do que os convencionais, quando por alguma virada do destino acaba trocando de lado.

Colocando tudo na balança, resta a sensação de que a FIA merecia certamente um nome mais apropriado. Claro que estamos falando de substituir uma verdadeira calamidade, como foi Max Mosley, e vendo sob este aspecto quase que certamente a FIA viverá dias melhores daqui para frente.

Existe, em essência, uma grande diferença entre Jean Todt e Max Mosley, posto que o francês, inegavelmente, é um competente homem de pista. Ao contrário de Max Mosley, que jamais foi capaz de desenvolver uma visão técnica, e que conseguiu girar em círculo durante seus 16 anos de mandato, pode-se esperar de Todt uma visão muito mais técnica e menos arrogante. Afinal, quando o francês não dominar determinada área importante de conhecimento, podemos ter a certeza de que ele irá ter em sua equipe alguém que a domine.

Mosley, ao contrário, sempre fez questão de ditar ele próprio diretrizes técnicas infundamentadas, que passados 16 anos vieram a ser todas banidas. Basta lembrar do reabastecimento, dos pneus frisados, do Kers, dos formatos de qualificação e tudo o mais.

Por outro lado, existe também uma grande semelhança entre Todt e Mosley, no tocante ao desprezo em relação aos ideais competitivos. Após 31 anos sendo dirigida por nomes como Jean-Marie Balestre e Max Mosley, era urgente para a Federação Internacional a presença de um presidente que zelasse acima de tudo pela decência e pela honestidade.

E neste sentido, sem sombra de dúvidas, o nome de Ari Vatanen teria sido uma escolha muito mais adequada.

Boa semana

Márcio Madeira

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