Confirmando todas as expectativas, Jean Todt foi eleito por folgada margem novo presidente da FIA, pondo fim à gestão de 16 anos do nefasto Max Mosley. Trata-se de uma boa ou de uma má notícia? De um lado, temos o término de um período de triste memória, no qual pouca coisa concreta se fez em relação ao universo automobilístico e inúmeros crimes capitais foram cometidos contra o esporte a motor. De outro, há a posse de Todt que - conforme veremos - está longe de ser a pessoa mais indicada a qualquer cargo que envolva valores como olimpismo e esportividade.
Antes da análise, porém, vamos aos fatos. Após quase rachar a F1, Mosley finalmente percebeu que havia atingido o ‘point of no return’, e não haveria meios de se manter à frente da FIA. A partir de então, ganharam força as candidaturas de dois nomes provenientes do mundo dos ralis: a do ex-piloto finlandês e membro do parlamento europeu Ari Vatanen, e a do ex-navegador e chefe de equipe Todt, de imediato apoiado por Mosley. No dia 23 de outubro, o francês foi eleito por 135 votos contra 49 de Vatanen. Houve 12 abstenções.
Terminada a eleição, é então hora de olhar para o passado, buscando referências a respeito do que pode vir a ser o futuro da FIA sob Todt.
Ao longo de sua carreira de 31 anos nas pistas, ele obteve raro sucesso nas diferentes atividades que exerceu. Suas capacidades analíticas são inegáveis, bem como seu grande talento como gerenciador. Os grandes sucessos obtidos à frente das divisões de competição de Peugeot e Ferrari foram frutos de trabalhos a longo prazo, planejados com estratégia e cuidado, e tornados possíveis graças a uma muito bem conduzida distribuição de tarefas.
A rigor, talvez a maior qualidade do gerenciador Todt seja justamente a enorme habilidade para montar e coordenar equipes. Sua dedicação aos projetos assumidos sempre foi total, desde a escolha adequada de pessoas indicadas para funções específicas, até os cuidados detalhistas para que cada membro tivesse total suporte e a estrutura como um todo pudesse funcionar com coesão.
Será certamente muito positivo para a FIA caso Todt adote o mesmo procedimento em sua nova missão, cercando-se dos melhores técnicos disponíveis e delegando-lhes a funções compatíveis suas respectivas competências. Após 16 anos vividos sob a prepotência geralmente ignorante e emocional de Max Mosley, seria muito bem-vinda uma administração mais fundamentada em observações técnicas, democráticas e científicas.
Por fim, vale lembrar também a curta, porém valiosa, experiência de Todt à frente do departamento de carros de passeio da Ferrari. Muito mais do que o esporte a motor ou a Fórmula 1, cabe à FIA regulamentar diversas diretrizes diretamente aplicáveis a todo o aparato de mobilidade rodoviária ao redor do globo, o que a torna muito mais importante. E graças à experiência prática do novo presidente eleito, bem como sua origem esportiva e sua proverbial seriedade, é de se esperar que esta função primeira da Instituição venha a ser muito mais bem atendida na nova administração, do que foi ao longo dos sofríveis anos da era Mosley.
Reconhecida a competência do novo presidente da FIA, é chegada a hora de encarar os pontos menos lustrosos de sua trajetória até o topo da indústria automobilística. E o principal deles, certamente, reside em sua postura maquiavélica, sempre dando cores práticas à pior interpretação da máxima segundo a qual “os fins justificam os meios”.
Jean Todt sempre foi um homem de resultados, e como vimos, alcançou inúmeros sucessos portando-se assim. No entanto, sua carreira é tão marcada por episódios controversos e avessos ao espírito esportivo quanto por momentos de glória. O francês sempre foi, por assim dizer, uma pessoa para quem o importante é vencer, ou atingir as metas programadas. Se isso será feito através de meios honrados ou ao menos politicamente corretos sempre foi, aos seus olhos, uma questão secundária.
Começando pelo fim, por exemplo, houve ao menos um caso divulgado de pressão por votos no pleito que culminou com sua eleição, mais especificamente junto à representação de Uganda. Segundo reportagem do Daily Mail, Surinder Thatthi - um dos apoiadores do francês e vice-presidente de sua campanha - foi acusado de intimidar Jack Wavumunno, o ex-presidente da Federação do Clube de Esporte a Motor de Uganda, por causa de votos. "Surinder Thatthi disse que não seria interessante para mim e nem para a FMU ficar contra ele no Conselho Mundial, e nem tampouco a Federação votar contra Jean Todt. Eu senti um tom de ameaça", afirmou Wavumunno. O ex-presidente declarou ainda que Thatthi estava oferecendo patrocínio à Federação de Uganda em troca de votos. "Eu disse a ele que a Federação estava fazendo acordos para conseguir dinheiro e não precisava vender o seu voto", declarou.
Thatthi — que por acaso é um dos três comissários que tiraram a vitória de Lewis Hamilton na Bélgica em 2008 — negou as acusações, mas o Daily Mail afirma ter acesso aos registros de telefone celular dele feitas para Wavumunno entre 29 de agosto e 11 de setembro.
Outro episódio que já se tornou clássico para exemplificar o modus operandi de Jean Todt remonta ao distante ano de 1989. Mais precisamente à edição do Rally Paris-Dakar daquele ano, vencida por ninguém menos que Ari Vatanen, candidato derrotado por Todt no último dia 23.
Pois bem, com o fim do legendário ‘Grupo B’ no mundial de rally, o vencedor modelo 205 da Peugeot deixou de ser competitivo, assim como diversos outros veículos que se tornariam clássicos. Com isso, a partir de 1986 a montadora francesa voltaria seus olhos às provas de resistência e longa duração, com destaque óbvio para o Dakar, por toda a visibilidade alcançada pelo evento já naquela época.
Em 1989 não havia entre os carros qualquer modelo que pudesse fazer frente aos modelos 405 franceses, nem tampouco à estrutura mobilizada pela marca gaulesa a seus competidores. A única ameaça, se é que podemos considerá-la como tal, vinha da Mitsubishi e seus Pajeros, sempre correndo sozinhos. À frente dos demais concorrentes, porém diversas horas atrasados em relação aos Peugeot.
Assim, restando poucas etapas para o final do rally, a Peugeot tinha seus dois principais carros destacados na liderança, com o versátil Jacky Ickx na ponta, poucos segundos à frente de Vatanen. A disputa entre ambos vinha sendo espetacular para o público, mas para um chefe de equipe prático e antidesportivo como Todt, ela representava apenas um risco desnecessário aos planos da equipe.
Sem o menor constrangimento Todt fez valer os interesses da equipe, colocando um fim à disputa entre seus dois pilotos através de uma surreal disputa de cara e coroa. Ironia das ironias, na sorte o vencedor foi Ari Vatanen, e assim a Peugeot garantiu com antecipação sua tão desejada dobradinha.
Tendo dominado as competições off-road, a Peugeot logo voltou seus olhos para a mais importante corrida disputada em solo francês: as legendárias 24 Horas de Le Mans. E Jean Todt, claro, foi o nome encarregado pela direção da fábrica a gerenciar este projeto. A partir daí, não demorou muito para que a tradicional La Sarthe conhecesse as duas principais facetas da administração deste francês implacável: o sucesso e a polêmica.
Em 1992, provavelmente antes do que se poderia esperar, veio o triunfo. O trio formado pelos ex-f1 Derek Warwick, Yannick Dalmas e Mark Blundell levou o modelo 905 da marca à vitória, seis voltas à frente do time japonês da Toyota. Para completar a glória, outro Peugeot 905 subiu ao pódio, na 3ª colocação.
No ano seguinte lá estavam novamente os franceses, lutando para conservarem sua coroa diante da mesma oposição nipônica. E tudo começou bem para a Peugeot, com Philippe Alliot assegurando a pole position ao volante do modelo 905B. No entanto, logo após completar sua volta rápida, Alliot sofreu um fortíssimo acidente, chocando seu carro contra uma barreira de concreto na curva Porsche.
Trocar o chassi, segundo o regulamento de Le Mans, significaria ter que partir na última colocação, e ainda abrir mão do significativo prêmio de largada reservado ao pole position. No entanto, não havia o que fazer. Qualquer pessoa no autódromo havia percebido que aquele era um caso de perda total. Seria impossível recuperar aquele chassi, muito menos em apenas uma noite.
Ainda assim a Peugeot levou o carro de volta para a fábrica, e no dia seguinte lá estava o carro em perfeito estado. Novinho em folha, e com toda a numeração batendo perfeitamente com a do carro destruído.
De imediato a desconfiança foi geral, mas logo o jornalista Adam Cooper, de Autosport, dissipou todas as dúvidas. Aquele de fato era outro chassi, descaradamente violado para conter os dados do carro destruído. Tudo sob a estreita vigilância de Jean Todt.
Em tempo: a Peugeot fez os 3 primeiros lugares naquela corrida, mas o carro de Alliot foi apenas o 3º na classificação final.