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O passar da régua 01.11.09
Escreva pra gente
Lucas Giavoni

Mais um fim de temporada, mais um campeão, mais um tomo escrito que vai para o arquivo da Formula 1. E no agitar da última bandeira quadriculada, inaugura-se o (pelo menos pra mim) saboroso período de retrospectivas, análises de conjuntura, considerações finais e especulações sobre o futuro.

E para quem pensa que vamos dar uma de museu e viver só de passado até o começo da temporada 2010, basta lembrar que o noticiário não dá indícios que vai estagnar. Ao contrário do que aconteceu em 2008, temos agora um mercado de pilotos e equipes fervilhando como há muito não se via, que será seguido do tradicional período de testes - cada vez mais acessível através da mídia - e os sempre ansiados lançamentos das novas máquinas.

A Formula 1 existe – e insiste. Mesmo quando parece estar parada.





O GP de Abu Dhabi terminou com alguns questionamentos. A principal dúvida é a respeito dos freios de Hamilton e quanto estes limitaram seu desempenho no primeiro stint. Vettel o perseguiu de perto até herdar a liderança e, na quarta vitória no ano, carimbar o vice-campeonato - sim, é bom lembrar que Sebastian é o mais jovem vice da história...

O certo é que houve, de fato, um déficit de performance da McLaren, já que Lewis havia conseguido a pole mais folgada do ano - nada menos que 0.667s de vantagem -, e sob condições de peso muito parecidas com a de Vettel. Lewis muito provavelmente teria vencido, pois essa era a barbada do ano.

Vettel, no entanto, teve o mérito de andar muito mais rápido que Webber, que fechou a prova com a língua de fora, apertado por um confiante Button nas voltas finais. Este pode ser traduzido como o melhor lance de uma corrida, sem muitos atrativos na pista. Mas detonarei esse bilionário elefante branco chamado Yas Marina Circuit depois.

Barrichello é pivô de outra dúvida da prova. Ele acertou ou errou ao permanecer toda a corrida com o bico danificado na largada? Todos estamos cansados de saber o quanto um apêndice quebrado pode modificar o comportamento de um carro durante a prova. No entanto, Rubinho se adaptou rapidamente à nova condição do carro mais frontal e costumava ser inclusive o mais rápido do primeiro setor no começo da prova. E tanto no primeiro quanto no segundo pit, se trocasse o bico, teria perdido a posição para Heidfeld. Fiquei realmente sem saber...

A última dúvida é sobre o que diabos o Alguersuari tinha de problema com o câmbio que o fez até confundir o box da equipe... Mas este mistério o jovem espanhol pode explicar melhor.





E dá-lhe Kobayashi. Fez outra corrida do caramba, desta vez ainda melhor, nos pontos, seis segundos à frente do companheiro Trulli, de quem roubou o sexto lugar. O japa, que largou em 12º, foi o único dos que optou por fazer apenas um pit stop a terminar nos pontos, fazendo um primeiro stint de longas 30 voltas sem erros ou excessos. Outros que tinham mesma estratégia, como Kovalainen e Räikkönen, só comeram poeira.

De quebra, Kamui ainda fez Button de pato mais uma vez na volta 17, na saída de box do inglês, ao aplicar-lhe uma belíssima finta, seguida do passão irrepreensível.

Seja bem-vindo, Kobayashi. Esperamos que não venha a tornar-se um Alesi de olhos puxados...





Agora sim, hora de detonar Yas Marina. Conversei neste sábado com meu sócio de Última Volta e brother Márcio Madeira sobre o suntuoso complexo de Abu Dhabi. Concordamos que os petrodólares ergueram algo visualmente muito belo e de opulência jamais vista na F1 em 60 anos – e que provavelmente será muito lucrativo aos xeiques. Mas, ao mesmo tempo, é como se o circuito em si, o que deveria ser o prato principal, tenha ficado longe da lista de prioridades. Virou o couvert.

Chegamos à conclusão que acabamos Abu Dhabi sediou a primeira prova de Formula 1 indoor da História. Yas Marina é uma espécie de anti-Spa-Francorchamps – tudo que um traçado não precisa ser. E pelo preço que saiu...

Se Edu anda p*** com Barrichello, estou p*** com Hermann Tilke, que assina a obra. O cara, que está na minha listinha negra faz tempo, não é um arquiteto, mas um serial-killer de traçados. Não contente em projetar traçados enfadonhos, como Sakhir e Sepang, também assassinou alguns traçados espetaculares, como Hockenheim e Österreichring.

O último dos circuitos projetados a ser bastante elogiado por equipes e pilotos foi autódromo do Algarve, em Portimão, Portugal. Nem bem foi inaugurado no começo do ano e várias equipes imediatamente viajaram para lá a fim de fazer testes de pré-temporada. O traçado lusitano foi considerado de ótima seletividade, com grande variedade de curvas, um grande retão e diversos pontos de subida e descida.

Por que tantos elogios? Claro! O projeto não é do maldito Tilke!





Muita gente lançou questionamentos a respeito de se disputar a prova no cair do sol. Estas almas inquisitórias nunca ouviram falar nas 24 Horas de Le Mans? Ou eles acham que a prova é interrompida das 18h às 20h para que ninguém pilote com sol na cara?

A experiência, sim, é válida.





Se mais um circuito ridículo do Tilke nos é atochado goela abaixo, pelo menos há coisas das quais nos livraremos. Uma delas é o reabastecimento – do qual sempre fui crítico ferrenho. A proibição não apenas conserta a bizarrice do piloto mais rápido do qualify não ser necessariamente o pole, como também modifica significativamente a dinâmica dos carros e, por consequência, das corridas.

Em outubro do ano passado - portanto há um tempo considerável -, escrevi no Última Volta, juntamente com o Madeira, os benefícios desse veto. Segue o link para a primeira parte:

http://www.ultimavolta.com/formula1/analises/2008_10_16_As_vantagens_do_fim_do_reabastecimento_parte_1.html

Mas realmente o melhor para 2010 é que não precisaremos mais aguentar Max Mosley! Ele está fora! Que ele tenha uma boa aposentadoria no inferno – isto não é um desejo, mas uma constatação, e não pelas farras extraconjugais, que são ínfimas perto do que ele fez com a F1...

Jean Todt tem uma parada dura: suceder 31 anos de gestão literalmente nazista de Jean-Marie Ballestre e do próprio Mack Mouse. Eu preferia Ari Vatanen, mas envio todas as energias positivas ao francês. Boa sorte.





Vamos resumir a Temporada 2009 em “tags”? Vamos.

BRawn chca a pré-temporada; Adeus medalhas ridículas; Histórica Brawn chega lá; Hamilton ‘pega na mentira’; Sim aos difusores duplos; Sepang embaixo d’água; Red Bull chega lá; Mosley tenta assassinar F1; Button imbatível; Fim da guerra FIA-FOTA; Webber chega lá; Brawn ladeira abaixo; Bourdais é chutado; Tio Berne elogia Hitler; Rubinho resolve freios; Massa e a mola; Hamilton reage; Renault chuta Nelsinho; BMW diz tchau; Não-volta de Schumacher; Badoer paga mico; Rubinho 100ª vitória do Brasil; Kimi é mais Spa; Tchau ao Kers; Chashgate; Alonso é Ferrari; Button campeão; Todt sucede Mosley; Abu Dhabi entra para o circo; Kobayashi sensação.

Ufa! Como se vê, assunto para retrospectivas e afins não vai faltar. E ainda é possível fazer listas de ‘os dez mais’, fazer confrontos de largada entre companheiros, checar os treinos livres e qualificações, falar sobre a evolução dos carros, da tabela de pontos, das conquistas históricas de Ross Brawn e de Jenson Button...

A F1 2009 passou a régua. Hora de conferirmos a conta.

Um grande abraço a todos. Lucas Giavoni

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