Dando continuidade à saga do extravagante GP Brasil 2003, vamos relembrar o desfecho da prova a partir do momento em que o favorito Barrichello liderava rumo a uma histórica vitória, quando... (Para ler a 1ª parte desta coluna, clique aqui).
Na volta 47, logo após contornar a Curva do Lago, a Ferrari nº 2 falhou fatalmente e Rubinho encostou o carro na grama. Fim de corrida para o brasileiro. Questionamentos imediatamente surgiam. Que diabos havia acontecido?
Luca Colajanni, diretor de comunicação da Ferrari, logo se prontificou a repetir inúmeras vezes, num inglês bem italianado, que o carro de Barrichello teve ‘technical problems’. Era algo que, na prática, não explicava p... nenhuma - a não ser o óbvio ululante que Barrichello tinha ficado a pé porque o carro não mais funcionava.
A Ferrari negou até o fim da tarde do domingo, quando finalmente entregou que Rubinho teve pane seca. Os engenheiros estavam sem referencial de quanto o piloto tinha de combustível no tanque e qual era seu consumo. Um fiasco.
Voltemos à corrida, que tinha o lucky guy David Coulthard novamente na ponta. Kimi Räikkönen já ocupava o 2º posto, completando virtual dobradinha McLaren. O 3º agora era Ralf Schumacher e em 4º seguia Giancarlo Fisichella, para uma Jordan que naquele fim de semana completava 200 GPs. Os outros competidores: Jarno Trulli em 5º; Fernando Alonso em 6º; H-H Frentzen em 7º. Mais atrás, Jacques Villeneuve, Mark Webber e Cristiano Da Matta. Restavam somente dez carros na pista.
Volta 50 e a única troca de posições aconteceu quando Ralf entrou nos boxes para reabastecer. Fisichella, até então um mero coadjuvante, começava a ter destaque, principalmente porque calçava Bridgestone e a pista começou a secar rapidamente, formando um trilho. O giro seguinte, foi marcado pela entrada do líder Coulthard aos boxes, com pneus em frangalhos. O escocês voltou em 4º e não precisaria fazer mais pits - todos os concorrentes à sua frente, porém, seriam obrigados a fazê-lo.
Fisichella, promovido à 2º, sentiu o momento e começou a caçar o agora líder Räikkönen. A Jordan havia parado para abastecimento na 7ª volta (ainda com o Safety Car liderando o pelotão, antes da largada ‘pra valer’). Isso significava que Fisico tinha um carro muito leve. Enquanto isso, a McLaren de Kimi vinha de pit stop na volta 27 e estava visivelmente mais pesada e difícil de conduzir.
A perseguição surtiu resultado e Räikkönen cometeu um erro no Mergulho; só uma chicotada leve, sem sair da pista, mas suficiente para fazer de Fisichella líder, rumo à volta 54. A liderança duraria muito pouco, pois como já citado, a Jordan do italiano corria com pouquíssima gasolina. Antes da volta 60, o italiano certamente faria um pit. Esta última previsão, no entanto, entrou para o campo hipotético. Seria destino esta corrida acabar antes. E de modo absurdamente confuso e controverso.
O Safety Car, uma das estrelas da corrida
Quem acendeu o estopim do Deus-nos-acuda foi Mark Webber, então 8º, pouco antes da reta dos boxes. Ele descuidadamente colocou duas rodas do Jaguar na ‘ensaboada’ faixa branca interna da pista. O carro fugiu do controle e deu uma pancada muito forte na parede externa, justo no trecho que é rodeado por muros. Destroços verdes do bólido se espalharam por todo o asfalto.
Giancarlo e Kimi conseguiram, a custa de muito zigue-zague em velocidade reduzida, desviar dos pedaços espalhados na reta e passam. Alonso, que era 3º e estava a toda velocidade, não teve a mesma sorte. A Renault colheu um dos pneus do Jaguar e descontrolou-se em alta velocidade. A batida foi interna, perto da entrada dos boxes, numa grande barreira de pneus. Estes voaram e se espalharam para todo o lugar, obstruindo, agora sim, a pista por completo.
A Renault do espanhol parou do outro lado da pista, completamente destruída. A pancada foi ainda mais severa que a de Mark e então se deu a bandeira vermelha. Não havia o que limpasse aquele cenário de guerra em tempo hábil para a continuidade da prova, prevista para 71 voltas. Havia cacos de Jaguar, Renault e pneus por toda a parte. A trilha sonora ideal para aquele momento era certamente 'It's The End Of The World As We Know It', do REM.
Restava à direção da prova encerrar o GP e fechar protocolarmente os resultados oficiais com o desconto de duas voltas. Os giros cancelados seriam o anterior da última cronometragem e a volta que os carros se encontrariam no momento.
O caos tomou conta de Interlagos. Eram pontos de interrogação e exclamação pra todo lado. Ninguém sabia o que acontecera na pista ou fora dela - na verdade, hoje sabemos que até a direção de prova estava confusa. Coulthard, por exemplo, saiu do carro perguntando pra membros da McLaren sua posição de chegada – um 4º lugar.
Mecânicos da Jordan já vibravam com o resultado excepcional de Fisichella. Nessa alegria, não se deram conta que o italiano chegou aos boxes da equipe com o carro envolto em fumaça: o motor estourou e pegou fogo! Nisso se via um Fisichella ainda mais afortunado: se a corrida continuasse, além de ser iminente sua entrada aos boxes para abastecimento (perderia muitas posições), o motor, agora se sabia, não agüentaria mais do que alguns metros e explodiria, junto com seus sonhos de vitória.
Neste cenário de estranhezas, mais curiosidades eram reveladas. Enquanto o acidentado Alonso conseguia, pela retroatividade da cronometragem, um pódio depois de 3 paradas no box, H-H Frentzen, o 5º, foi autor de façanha ainda maior: terminou o GP sem abastecer a Sauber, porque havia largado de tanque cheio! Bernd Mäylander também fez história: nunca antes o Safety Car foi tão utilizado. Ele foi para a pista 5 vezes, ‘liderando’ 21 voltas, num ritmo muito forte para um carro esporte, chegando à velocidade máxima de 235 km/h. Resta saber apenas se recebeu adicional de hora-extra...
Fisichella desceu do carro, ainda em chamas, que foram rapidamente contidas pelos mecânicos. Comemorou a virtual vitória jogando seu capacete para o alto, vibrando e gesticulando as mãos como qualquer italiano normal. O que parecia ser o golpe de sorte mais incrível do mundo, no entanto, teve uma virada para Fisico: a direção de prova, na figura de Charles Whiting, encerrou a corrida na volta 53, supostamente duas antes do acidente de Webber e Alonso, acontecido na 55. Com isso, a última volta válida da corrida seria a que Räikkönen ainda era líder. O finlandês foi declarado vencedor, após 53 voltas:
1) K. Räikkönen (McLaren-Mercedes), 1h29min53s179
2) G. Fisichella (Jordan-Ford), +0.831
3) F. Alonso (Renault), +6.695
4) D. Coulthard (McLaren-Mercedes), +7.391
5) H. H. Frentzen (Sauber-Petronas), +9.392
6) J. Villeneuve (BAR-Honda), +17.910
7) M. Webber (Jaguar), +20.070
8) J. Trulli (Renault), +23.569
9) R. Schumacher (Williams-BMW), +33.556
10) C. da Matta (Toyota), + 1 volta
Enquanto anunciavam Kimi vencedor, médicos cuidavam de Alonso, que havia conseguido sair do carro, mas estava grogue. Ele saiu de ambulância da pista e isso significava que o 3º colocado não compareceria ao pódio, por sinal, muito estranho. Surreal para os padrões da F1.
Alonso estava com os médicos - ou seja, ausente. Räikkönen, no degrau mais alto, estava ainda mais insosso que o normal, talvez por imaginar-se salvo pelo gongo da cronometragem, já que na pista, ele havia tomado um passão de Fisichella. O italiano, no 2º lugar, mostrava-se totalmente sem graça depois de tanta comemoração, não sabendo para que lado olhar. Isso resultou em uma das mais apáticas guerras de champagne já vistas.
A FIA abriu investigações sobre o desfecho da prova. Uma imagem de vídeo mudou tudo: Fisichella e Räikkönen abriram a volta 56 e então, segundos depois, apareceram as luzes e bandeiras vermelhas interrompendo a prova. Isso empurraria o final da prova para a volta 54, quando Fisichella já era o ponteiro.
Foi, portanto, um erro fechar o GP na volta 53, quando Räikkönen ainda era líder. A direção de prova, mais preocupada em acionar pela quinta e última vez o Safety Car depois do grande acidente com Webber (complementado ferozmente por Alonso), não percebeu que Giancarlo e Kimi já haviam passado pelos destroços da pancada. O resultado, então, foi retificado, agora com 54 voltas:
1) G. Fisichella (Jordan-Ford), 1h31min17s748
2) K. Räikkönen (McLaren-Mercedes), +0.945
3) F. Alonso (Renault), +6.348
4) D. Coulthard (McLaren-Mercedes), +8.096
5) H. H. Frentzen (Sauber-Petronas), +8.942
6) J. Villeneuve (BAR-Honda), +16.054
7) R. Schumacher (Williams-BMW), +38.526
8) J. Trulli (Renault), +45.927
9) M. Webber (Jaguar), acidente
10) C. da Matta (Toyota), 1 volta
Fisico e Eddie Jordan comemoram a vitória em Interlagos 2003
Em 11 de Abril, portanto cinco longos dias após o GP, Fisichella era declarado oficialmente o vencedor pela FIA. O resultado havia sido homologado, mas a novela só teve desfecho definitivo em 18 de abril, no GP de San Marino, seguinte do calendário. Na sexta-feira, em cerimônia formal para a imprensa, com uma McLaren e uma Jordan posicionadas no meio da reta dos boxes, Räikkönen e Fisichella ‘trocaram’ de troféu e encerraram por definitivo o episódio.
O piloto que venceu o mais absurdo e improvável GP já disputado na F1 só recebeu seu troféu de direito 12 dias depois.