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Brasil 2003 – Parte 1 07.10.09
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Lucas Giavoni, do www.ultimavolta.com



Rubinho em Interlagos 2003 - Clique para ampliar
Estamos assistindo de pé a decisão entre Button, Barrichello e Vettel – a certeza de que 2009 decretará um campeão inédito para a História da F1. Interlagos novamente vai ser palco de uma corrida com uma carga histórica muito intensa. E neste clima de GP Brasil, aproveito para relembrar uma das edições mais emblemáticas em nosso país – a de 2003. A corrida foi tão especial que cheguei a usá-la em meu TCC de jornalismo e numa pesquisa de Iniciação Científica pela Universidade de Sorocaba, pela qual me formei.

A corrida foi a terceira daquela temporada, do hexa de Michael Schumacher. Pode seguramente ser considerada a mais confusa de todos os tempos. Nem um roteirista hollywoodiano em seu dia mais delirante de fúria criativa poderia elaborar um script tão rico em surpresas. A pesada chuva que castigou Interlagos provocou uma série de acontecimentos bizarros, que começam com o Safety Car liderando a corrida nas 8 primeiras voltas e que culminam num desfecho caótico: Giancarlo Fisichella ganhou - só que 5 dias depois da prova!





Pizzonia e Michael bateram na Curva do Sol - Clique para ampliar
Domingo, 6 de abril de 2003. Número redondo: GP 700 da História da F1. O grid havia sido embaralhado pelo novo regulamento do asqueroso Max Mosley. A sexta-feira era usada como pré-classificatório e teve uma chuva daquelas, fazendo vários pilotos saírem da pista – até Michael rodou. Isso bagunçou a ordem (invertida) de entrada dos carros do qualify no sábado, com apenas uma volta lançada.

Rubens Barrichello marcou a pole com a velha, porém vencedora Ferrari F2002. David Coulthard fechava a 1ª fila e também tinha uma McLaren revisada, a MP4-17D. Os outros favoritos estavam assim dispostos para o grid: Kimi Räikkönen, também McLaren, era 4º. Jarno Trulli, na ascendente Renault, era 5º, junto a Ralf Schumacher, de Williams-BMW. Michael largava em 7º e o último dos favoritos, Juan Pablo Montoya, em 9º com a outra Williams.

Dentro do top ten faltavam apenas três nomes: Mark Webber, mais leão de treinos do que nunca na Jaguar, classificado em espantoso 3º; Fisichella, na decadente Jordan-Ford, classificado em 8º, e um tal Fernando Alonso, até então apenas uma ‘jovem esperança’, em 10º lugar, com a Renault.





Panis, segundos antes de ser atingido por Firman - Clique para ampliar
Os treinos de sexta na chuva mostraram que a corrida poderia ser complicada se o domingo tivesse igual condição meteorológica. E foi exatamente o que se viu em Sampa. Chovia pra cacete e Michelin e Bridgestone só tinham em estoque pneus intermediários, aptos para pistas úmidas, jamais para a tempestade formada na outrora Terra da Garoa.

A largada foi adiada em 15 minutos e a solução para começar a prova foi recorrer ao procedimento usado no também chuvoso GP da Bélgica de 1997. A contagem de tempo/voltas foi dada com pilotos atrás do Safety Car. Com isso, o piloto que puxava a fila de carros não era o pole Barrichello, mas sim o condutor Bernd Mayländer. A “liderança” deste alemão durou 8 voltas, tempo que o diretor Charles Whiting avaliou a pista como ‘corrível’. As disputas foram iniciadas, pra valer, a partir da 9ª volta.

Sem Safety na pista, Rubinho perdeu no S do Senna para Coulthard e para Räikkönen na volta seguinte, na qual também foi superado por Montoya no miolo. Na 11ª volta, Räikkönen, também no S, assumia a ponta em uma plástica ultrapassagem sobre Coulthard, que perdeu por fora de Montoya no Bico de Pato. A ordem dos cinco primeiros, na volta 12, era Räikkönen; Montoya; Coulthard; Barrichello e Webber, totalmente apático.

As trocas de posições eram contínuas e logo notou-se que quem estava de Michelin ‘navegava’ um pouco melhor. Mesmo assim, Michael, de Bridgestone, subiu para 3º já na volta 15, engolindo Rubinho, Webber e Montoya. Kimi puxava a dobradinha McLaren na frente do campeão.





Na volta 18 começaram os primeiros incidentes da prova. Justin Wilson (Minardi) rodou na Curva do Sol e não voltou mais. Em outra ocorrência, de maiores proporções, Ralph Firman teve a suspensão dianteira da Jordan quebrada como se fosse de papelão na freada do S. O carro amarelo, com a roda direita pendurada, deu um deprimente rodopio, quase acertou seu companheiro Fisichella e finalmente bateu na traseira da Toyota de um indefeso Olivier Panis. Ambos abandonaram. O Safety Car foi novamente acionado e um fiscal que recolhia os cacos ofereceu uma cena freak: deu uma bicuda numa peça para tirá-la da pista...

Vários pilotos aproveitaram para entrar nos boxes. Quando o Safety saiu, na volta 23, a relargada tinha esta ordem: Räikkönen; Coulthard; Michael; Cristiano da Matta (Toyota) - que com Barrichello, em 5º, e Antônio Pizzonia (Jaguar), em 7º, formava a representação brasileira na prova. Naquele momento, a diferença entre o líder Räikkönen e Alonso, em 16º, era de apenas 9,5 segundos.





Voltou a chover mais forte e agora o problema era a aquaplanagem. Na volta 25, uma variação do nado sincronizado: a ‘rodada sincronizada’. Montoya, 5º, passou por um caudaloso rio que se formou na parte interna da Curva do Sol, perdeu o controle e foi direto para os pneus. Três segundos e meio depois, Pizzonia seguiu a exata trajetória do colombiano. Bateu na mesma barreira, parando o Jaguar a poucos centímetros da Williams.

Só demorou uma volta para uma nova vítima: o exímio piloto de chuva Michael Schumacher também foi pego pelo aguaceiro do trecho e escapou. A Ferrari deu dois giros e bateu na mesma barreira, com um diferencial: o carro parou a apenas um metro do trator que rebocava os carros de Pizzonia e Montoya, vítimas da volta anterior. Tremendo susto.

Mayländer foi chamado novamente, na 3ª intervenção do SC. O líder Räikkönen desta vez entrou nos boxes e reabastecer. Coulthard assumiu a ponta, seguido por Barrichello, Ralf, Webber, Button, Alonso, Verstappen (de Minardi, é bom que se lembre) e Fisichella. Dos 20 carros que largaram, só 13 permaneciam na pista.







Relargada no giro 30. Coulthard na ponta, seguido de perto por Rubinho. Uma volta mais tarde, Verstappen abandonou quando ocupava honroso 8º lugar - outra vítima do aguaceiro na Curva do Sol. A chuva então cessou e pilotos da Bridgestone começaram a andar mais. O ataque de Barrichello rumo à liderança era questão de tempo. Este tempo, aliás, teve que ser adiado porque Button, na 33ª, tornava-se a 6ª vítima da implacável Sol, enfiando a BAR de frente nos pneus. Mais Mayländer, em intervenção demorada. Passava-se a 1ª hora de corrida. Bandeira verde só na 37.

Kimi e Coulthard, a dupla da McLaren - Clique para ampliar
Rubinho então partiu com tudo pra cima de Coulthard e os dois se isolaram do pelotão de trás. Na volta 45, num lapso do escocês, Barrichello finalmente tomou a liderança no S, rumo a uma conquista histórica e ansiada. A vitória era quase certa, pois uma vez na ponta, estabeleceu a volta mais rápida do GP, abrindo imediatamente 2,2s de vantagem.

A expectativa em cima de um triunfo de Barrichello fazia sentido até para os aficionados em coincidências numéricas. Em 1973, na 1ª corrida oficial no Brasil, Emerson venceu com a Lotus. Em 1983, no Rio, Piquet foi o vencedor com a Brabham Turbo. Mais uma década e, em 1993, foi a vez de Senna faturar em Interlagos com a McLaren. Vitórias em 1973, 1983, 1993... Todos apostavam em Barrichello 2003, a continuação de uma saga vencedora.

E quem apostou em Barrichello e seu inegável favoritismo, fez mau negócio...





O desesperador destino de Barrichello e o final caótico do GP Brasil de 2003 é assunto para a segunda e última parte desta coluna, a ser publicada na sexta-feira. Não percam!

Enquanto isso, leiam os comentários de toda a turma do GPTotal sobre Interlagos 2003, clicando aqui.

Lucas Giavoni www.ultimavolta.com

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