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Três Títulos 13.09.09
Escreva pra gente
Márcio Madeira

Há quem diga – sem se afastar muito da verdade – que vencer em Monza é como conquistar um título mundial. E Rubens Barrichello, agora, possui nada menos do que três troféus italianos em sua estante.

Mas não foi por isso que escolhi o título desta análise, e sim porque uma prova como a de hoje merece mais do que uma única linha de análise. A grande vitória de Barrichello no GP de Monza de 2009 foi a corrida dos três títulos.

1º título: Mr Hyde

Ah Barrichello...
Recordista de participações na Fórmula 1, duas vezes vice-campeão, 4º maior habitué de pódios na história da categoria, 4º maior pontuador da história, 11 vitórias. E agora, dono de 3 triunfos em Monza, guiando para duas equipes diferentes. Uma estatística de muito, muito peso. Já não se trata de gostar ou não de Barrichello. Queira-se ou não, ele é sim um dos grandes nomes da história da categoria.

Numa análise livre, sob vários aspectos poderíamos concluir que Jenson Button e Rubens Barrichello são pilotos mais ou menos equivalentes, somando-se prós e contras de cada um. Mas isso, nem de longe, significa que estamos falando de pilotos parecidos. Se alguém me pedisse para definir ambos em poucas palavras, eu diria algo mais ou menos assim:

Button é um piloto mais constante. Na imensa maioria das vezes suas atuações serão nota 8, com competência, segurança, mas sem qualquer brilho sobrenatural. Trata-se de um bom piloto, com o qual se pode contar praticamente sempre.

Já Barrichello é muito mais instável. Suas atuações podem flutuar entre a nota 6 e a nota 10 ao sabor de sua motivação, ou dos problemas que venha ou não a enfrentar. Um piloto de tocada fina, rápido e poupador de equipamento, praticamente imune a erros, mas imprevisível. Capaz de protagonizar corridas invisíveis, ou de 1ª grandeza. Uma espécie de médico e monstro do automobilismo.

Mas nesses dias em que a pacata persona Dr. Jekyll cede espaço ao incontrolável Mr. Hyde, como hoje, sua condução é nada menos que um privilégio de se ver.

2º título: Os 12 trabalhos de Rubens

Rubens fez milagre hoje em Monza. Assisti à corrida com um olho na tela, e outro no live timing, e posso dizer sem restrições: sua atuação foi épica, hercúlea, sem qualquer favor. Por isso, contarei essa história na forma de seus 12 trabalhos.

Trabalho nº1: 15 milésimos

A corrida começou a sorrir para Barrichello na qualificação, quando ele e Jenson Button protagonizaram uma verdadeira batalha campal para ver quem iria se posicionar melhor para a largada. É fase decisiva para o campeonato, talvez a única chance que um dos dois terá de inscrever seu nome entre os maiores de todos os tempos. E na raça, na força, deu Barrichello, 15 milésimos mais rápido, carregando 1,5kg a mais de combustível. Devidamente premiado pela nada desprezível oportunidade de partir do lado limpo da pista.

Trabalho nº2: Ambição de campeão

Após o problema enfrentado na largada de Spa, a equipe Brawn identificou que a caixa de câmbio do brasileiro havia sido exposta a um torque excessivo, e corria o risco de não suportar a duração do GP. Trocá-la significaria a certeza de não ter problemas, mas ter que abrir mão de tudo que havia conquistado na qualificação. Interessado apenas em brigar pela vitória, Barrichello assumiu os riscos, e foi premiado pela ousadia. Talvez, porém, a caixa tenha de ser trocada para Cingapura.

Trabalho nº3: Estratégia

Partindo atrás de três carros equipados com o KERS, Rubens sabia que dificilmente poderia realizar ultrapassagens na pista. Por isso, apesar de ter carro para brigar pela pole, optou por largar mais pesado que qualquer outro entre os 10 primeiros, evitando assim ter seu ritmo limitado por quem iria à sua frente. Contornou, assim, o erro de posicionamento que custou o pódio ao bravo Adrian Sutil. Foi seguido em sua decisão por Jenson Button, mas driblou o companheiro ao apostar nos pneus duros para seu 1º stint. Enfim, uma estratégia perfeita de alguém extremamente experiente.

Trabalho nº4: Anti-stall

Após por três vezes ficar parado no grid de largada, enfrentando problemas com o sistema anti-stall de seu carro, Rubens sabia que precisava fazer um arranque perfeito em Monza. E no fim não houve sustos. Apagadas as luzes vermelhas o carro nº 23 pulou certinho. Ou talvez um pouco melhor do que isso...

Trabalho nº5: Milagre

Em minha análise de sábado sobre o treino classificatório, eis o que escrevi a respeito do ‘fator Kovalainen’:

“Partindo da quarta colocação, com o KERS a ajudá-lo e gasolina para fazer quase metade da corrida, o finlandês pode muito bem se transformar num fator de decisão para os rumos do GP.

Como provavelmente deve se posicionar à frente dos carros da Brawn, e talvez até de Adrian Sutil, será importantíssimo acompanhar com atenção o ritmo imposto pela McLaren nº 2. Isso porque caso o finlandês não consiga andar num ritmo ao menos parecido com os dos líderes, então automaticamente ele estará condenando quaisquer possibilidades de vitória de todo o pelotão de carros rápidos não dotados de KERS que deverá segui-lo de perto - todos com possibilidades de realizarem apenas uma parada. Ao menos em tese, a chave da corrida parece residir nessa variável.”

Certo. Mas então como não se deixar limitar pelo ritmo de Kovalainen?

Simplesmente não existia resposta técnica para essa pergunta. Em condições normais, não haveria meios de anular toda a vantagem do KERS no longo trecho que separa o grid de largada da freada para a 1ª chicane, tanto mais estando o carro de Kovalainen também mais leve que o de Rubens. A única vantagem do brasileiro, neste caso, seria estar partindo do lado limpo da pista.

Classifico, portanto, a largada de Rubens como milagrosa, uma vez que não tenho meios de explicá-la puramente pelo aspecto técnico. Partindo com pneus duros, o veterano conseguiu um arranque perfeito, tanto em reflexo quanto em potência aplicada. Dessa forma não apenas se defendeu em relação a Button, como também fez o que parecia impossível: superou a McLaren de Kovalainen. A rigor, a partida de Rubens foi tão boa, que antes do ponto de frenagem ele se encontrava em condições de superar também a Force India de Adrian Sutil, equipada com pneus macios e impressionantes 33,5kg mais leve. O alemão, no entanto, fechou-lhe a porta de maneira vigorosa, cortando o momentum do brasileiro.

Trabalho nº6: Experiência

Ao ter sua evolução cortada por Sutil, Rubens viu os frutos de sua largada primorosa serem fortemente ameaçados. Ao seu lado direito a McLaren de Kovalainen vinha despejando toda a força extra de seu KERS, e diante do bloqueio sofrido pelo brasileiro, Kova mergulhou com tudo pela linha de fora da chicane.

Ao se prepararem para a tomada da segunda perna, a McLaren encontrava-se alguns metros à frente, e pelo lado interno. Diante da longa aceleração que ambos tinham pela frente, a posição parecia perdida pelo veterano da Brawn.

Foi então que Rubens fez valer seus 17 anos de Fórmula 1.

Como um gato maroto se divertindo com um rato, Barrichello aceitou a linha externa, e tratou de aproveitar o ângulo menos agudo de sua trajetória para carregar muito mais velocidade em direção ao apex do que o finlandês. Entrando emparelhado na zona de aceleração, o Brawn trazia muito mais velocidade, e dispunha da faixa emborrachada da pista para despejar sua potência.

Pela segunda vez na mesma volta, a competência de Rubens superava a força do KERS da McLaren.

Trabalho nº7: Defesa limpa

Contra todos os prognósticos, lá estava novamente uma Brawn à frente de uma McLaren num trecho de aceleração. Mas é claro que essa seria uma situação insustentável...

Rubinho, então, passou a guiar com um olho na pista, e outro no retrovisor. Tomou uma trajetória centralizada na Curva Grande, realizando uma defesa perfeita e honesta. Depois, na freada para a della Roggia, manteve-se na linha interna, freando no limite extremo do possível. Kova, logo atrás, via sua corrida se evaporar, e ciscava de um lado para o outro sem saber o que fazer.

Trabalho nº8: Rali

Por ter entrado tão pendurado na segunda chicane da pista, Rubens ficou numa situação difícil em relação à tomada da 1ª de Lesmo. Sua tração ficou prejudicada, e Kovalainen percebeu isso. No entanto, talvez excessivamente afoito, o finlandês trouxe seu carro para linha de dentro, e aplicou mais potência do que seus pneus seriam capazes de transmitir sobre o asfalto sem borracha de fora do trilho. O McLaren hesitou por instantes preciosos, permitindo que Rubens pudesse tomar para si o traçado interno.

Provavelmente ele não teve tempo de ver, mas metros atrás de si, Mark Webber – um de seus rivais na luta pelo título – dava adeus à corrida, após ter sido tocado pela BMW de Robert Kubica.

Por sua vez, a excelente defesa de Rubens começava a permitir a fuga dos três líderes, e a agrupar atrás do finlandês uma ansiosa fileira de intrusos. Jenson Button, o primeiro deles, havia saído forte da Roggia, e após a 1ª de Lesmo aparecia emparelhado com Kovalainen, pelo lado de dentro da pista. Uma manobra que só foi possível graças à bravura do brasileiro, mas que ainda assim era tudo que Rubinho precisava: agora ele tinha um zagueiro entre ele a ameaça prateada.

O que Rubinho não precisava, isso sim, era que Kovalainen se visse tão fragilizado após ter feito (mau) uso de sua carga no KERS, e fosse depois disso ultrapassado pela Force India de Vitantonio Liuzzi, deixando Button livre de pressão logo atrás de si.

Trabalho nº9: Ritmo

Pior para Rubens, melhor para a prova. Barrichello e Button sem ninguém entre eles e livres para andarem no máximo o tempo todo, começariam uma verdadeira corrida pela vitória. E aqui, mais uma vez, brilhou a força de Barrichello. Guiando com pneus duros e o carro ligeiramente mais pesado, o brasileiro conseguiu livrar uma improvável distância de quase 4 segundos, deixando clara sua disposição de não ceder qualquer ponto ao companheiro de equipe.

E o que foi ainda melhor: ao mergulhar em sua batalha com Button, Rubens não permitiu que Lewis Hamilton, lá na frente conseguisse abrir a distância necessária para ganhar a corrida com uma parada a mais. Era a vitória se construindo na força do ritmo de prova.

Trabalho nº10: Rapidez

O grande momento de Rubens, no entanto, se deu após sua parada nos boxes. Retornando à pista na quarta colocação, Barrichello muito rapidamente reencontrou seu melhor ritmo, e começou a imprimir com os pneus macios uma série de voltas sensivelmente melhores que as de Button, além de fortes demais para que Hamilton pudesse ampliar suficientemente sua vantagem. Volta após volta Rubens literalmente quebrou os cronômetros, tirando da Brawn com tanque quase cheio muito mais do que se poderia esperar.

Trabalho nº11: Consistência

Sem jamais aliviar a pressão, Rubens viu um a um seus adversários sendo superados, não apenas por ele, mas também por Button. A força de sua condução ao volante de um carro pesado mostrou-se um fator de desequilíbrio na prova, a ponto de tornar quase fácil um triunfo que antes parecia ser impossível.

Trabalho nº12: Consciência

Então, restando poucas voltas para o fim de uma corrida perfeita, Rubens soube administrar a vantagem em relação a Button, cuidando para levar seu carro com o menor desgaste possível até a bandeirada. Jenson, ao contrário, vivia um verdadeiro inferno ao ter que lidar com uma feroz perseguição imposta pelo alucinado compatriota Lewis Hamilton.

Mais uma vez incapaz de controlar os próprios impulsos, Hamilton conseguiu a proeza de bater sozinho no meio da última volta, jogando fora um belo pódio para piloto e equipe.

Por que diabos ele não fez isso em Interlagos!?

3º título: Efeito retroativo

A história do esporte a motor é a história da luta do homem contra o cronômetro. O tempo, essa invisível dimensão presente na própria fórmula física da velocidade. Inexorável, de sentido único e contra a qual não se pode negociar. Correto?

Bom, na verdade nem sempre. Na História e no esporte, alguns raros e especiais acontecimentos, fortemente carregados de significação, tem a mágica propriedade de inverter a lógica temporal e alterar o passado. Ou, ao menos, a forma como o interpretamos, o que acaba dando na mesma.

O 11 de setembro, por exemplo. Quando o primeiro avião chocou-se contra a Torre Norte do World Trade Center, o mundo estava diante de um bizarro e incrível acidente aéreo. Porém, quando 16 minutos depois o segundo avião atingiu a Torre Sul, trouxe consigo a verdade muito maior: aquilo não era um acidente, e sim um planejado e deliberado atentado terrorista. Em suma: o segundo evento deu novas cores e um verdadeiro significado ao primeiro.

Da mesma forma – embora em proporções comparativamente microscópicas – a Fórmula 1 viveu nos últimos dias diversos eventos que jogaram nova luz sobre seu passado recente.

Adrian Sutil, por exemplo, mostrou em Monza que o ótimo desempenho de Fisichella na Bélgica teve sim enormes parcelas de mérito devidas à equipe. Ao passo que o próprio Fisichella, agora na Ferrari, mostrou o tamanho dos problemas de adaptação enfrentados pelo inativo Badoer. Ironias da vida...

Barrichello e Button, por sua vez, vem mostrando através de suas atuações mais recentes que o que se viu no início do ano foi algo atípico, parcialmente explicável por uma série de infortúnios atrelados ao brasileiro, e uma postura precocemente restritiva por parte da equipe. Algo em última análise até natural, dado que ninguém poderia imaginar, àquela altura, o fôlego que esta surpreendente equipe Brawn teria para sustentar até o fim uma briga por títulos mundiais.

De minha parte, estou muito feliz. Graças à perfeita atuação de Rubens, não precisei falar uma palavra sobre o escândalo dentro da Renault.

Márcio Madeira

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