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04/10/1970 – 23/08/2009 23.08.09
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Como é gostoso saber que tivemos diante de nossos olhos a História (sim, sempre com H maiúsculo). De 04 de outubro de 1970 a 23 de agosto de 2009: uma centena de vitória entre essas datas. E como foi esperada! Os sucessos do inspirado Button no começo do ano e a seguida queda de rendimento da Brawn, mais a má fase da Ferrari quase me fizeram acreditar que essa marca não seria mais alcançada nesta temporada.

A vitória de Rubens Barrichello em Valencia foi linda, independentemente da merecida marca histórica. Ele jantou Heikki Kovalainen no primeiro stint e Lewis Hamilton no segundo, mantendo religiosamente uma distância de segurança de 4s para ambos, antes dos ataques em ritmo de qualificação. Foi certamente um risco calculado. Andar mais próximo que isso durante os stints poderia causar turbulências indesejadas, superaquecimento ou, no comportamento típico da Brawn quando está em perseguição, derretimento de pneus - principalmente os traseiros. Rubinho sabe disso melhor que ninguém e teve sangue frio para ser diabolicamente mais rápido nos momentos certos.

Eu estava realmente ansioso para que a FIA divulgasse logo todos os dados de cronometragem da prova e assim saber se a improvável trapalhada ‘cadê os malditos pneus’ acontecida no pit-stop de Lewis, no giro 37, influenciou o resultado final. Concluí facilmente pela matemática que Rubinho ganharia de qualquer jeito, pois com ou sem o infortúnio do adversário direto pela vitória, sairia na frente naquele pit e nem mesmo precisaria se preocupar em defender posição na volta de aquecimento de pneus.

A janela de verificação dessa afirmação é entre a volta 37, de entrada de Lewis no pit, e a 41, quando Rubinho fez o giro pós-pit com pneus frios – de diferença brutal em relação aos pneus em temperatura operacional. Na volta anterior ao pit (36ª), Hamilton tinha uma vantagem como líder de 3.686s. Reservemos esse dado, pois agora ele é nosso primeiro marco referencial. O segundo marco é o último pit de Kovalainen, uma volta depois, em 20.407s (tempo total, contando período de pitlane). Lewis o fez em 25.599s, resultando em prejuízo hipotético de 5.192s diante de um pit padrão feito pela McLaren naquele contexto de prova.

Lewis fez essas 5 voltas em 8:46.326 (37ª - 1:59.794; 38ª - 1:45.528; 39ª - 1:40.452; 40ª - 1:40.195; 41ª - 1:40.357) e Rubinho fez em 8:36.565 (37ª - 1:39.674; 38ª - 1:39.071; 39ª - 1:38.990; 40ª - 1:54.173; 41ª - 1:44.657). Temos, portanto, uma diferença total de 9.761s no tempo total de ambos. Se descontarmos deste tempo os 3,686s de vantagem inicial de Lewis e os 5,192s hipotéticos de perda nos pits, Barrichello ainda teria uma prerrogativa de 0,883s após aquecer devidamente os pneus – e coma vantagem de contar com compostos macios, de cara pro vento.

Outro fator, porém, pesa ainda mais a favor de Rubinho. Segundo pudemos saber pelo rádio, ele, que estava quebrando recordes de melhor volta, ainda tinha 3 voltas de combustível quando fez o último pit. Ao ver que Kazuki Nakajima teve um pneu deschapado (fiquei sem saber se foi azar, desgaste excessivo ou um clássico beijo no muro) e que havia a possibilidade do Safety Car ser lançado, a Brawn simplesmente encurtou o ‘qualify’ de Rubinho, trazendo-o ao box antes que alguma zica pudesse acontecer. No calor de uma disputa direta, provavelmente a equipe deixaria Rubinho fazer mais algumas flying laps e assim liquidar a fatura.





A Brawn voltou aos velhos tempos – conotativamente e denotativamente. Isso porque, para conseguir ser um time vencedor de novo, descartou alguns componentes mais recentes do pacote aerodinâmico que causaram modificações na parte mecânica – inclusive da suspensão traseira, com a mola que causou o acidente com Felipe Massa. A partir da configuração mecânica antiga, que mantinha os pneus sempre em temperatura certa, refizerem a aerodinâmica e a mistura aparentemente deu certo.

Essa ‘nova-velha’ receita pode ter sido decisiva para a Brawn se manter na liderança contra a Red Bull, que deixa de pontuar pela primeira vez desde o GP de abertura, na Austrália. A próxima prova é em Spa. Teoricamente, a Red Bull deverá voltar a apresentar bom desempenho. Se não apresentar, Button já pode ser declarado campeão.

Sebastian Vettel andava em quinto quando o motor abriu o bico na volta 23 (deixando-o um tanto nervoso) enquanto o ex-vice-líder Mark Webber andava em sétimo até perder, no último pit, posições para Jenson Button, que largou mal e ficou sem chances, e Robert Kubica, futuramente com ‘passe livre’ e desde já sondado por outras equipes.





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Contrastando com a Red Bull, que adora curvas de alta velocidade e odeia as de baixa, a McLaren parece gostar de circuitos assim. Só pelo desempenho em Valencia pudemos perceber o porquê da bela vitória de Hamilton em Hungaroring. Os prateados, que tinham enorme deficiência de downforce no começo da temporada, finalmente conseguiram resolver esse problema, parcialmente pela adoção do difusor duplex, que no caso deles é bem grande, como a própria equipe divulgou em foto. Já na Hungria, a McLaren tinha conseguido 14 pontos – exatamente o que havia marcado durante todo o resto do ano. Na Europa, mais 13 e o quarto lugar entre os Construtores, atrás de Ferrari, Red Bull e Brawn.

Lewis realmente lutou pela vitória e puxou muito o ritmo no segundo e terceiro stints. Já Kovalainen, que não tinha como segurar Rubinho na primeira rodada de pits por ter largado mais leve, falhou em manter o terceiro lugar. OK, Kimi Räikkönen tinha mais combustível até o último pit, mas Heikki poderia ter apresentado um ritmo mais intenso, acompanhando os dois ponteiros – e não ficando 10s atrás. Nico Rosberg, que pontuou pela sétima vez seguida coma Williams, faria melhor no lugar do antigo rival de GP2.

E falando em Räikkönen, as novas especulações em torno da chegada de Fernando Alonso na Ferrari parecem ter despertado aquela sanha assassina que os pilotos devem ter nas corridas. Kimi não vinha apresentando um bom desempenho, mas parece agora disposto a criar um cenário de indecisão na Ferrari. Luca di Montezemolo parece já ter sacado isso e já começou a fazer lobby dentro da FOTA para que equipes possam alinhar três carros nos próximos anos. E após ter derrotado politicamente o intragável Max Mosley, ter um trio Massa-Räikkönen-Alonso parece ser o novo sonho de consumo do chefão italiano.

Enquanto isso não ocorre na casa de Maranello, Luca Badoer entrou em um tremendo buraco. O desempenho do veterano italiano foi um tanto constrangedor e prova que a F1 de hoje exige um refinamento técnico de pilotagem apenas alcançado com muitas horas de treinos nesses carros tão diferentes em relação ao dos anos anteriores. Como sabemos, treinos não são permitidos e, com isso, os três pilotos que tiveram menos quilometragem no ano – Badoer, Jaime Alguersuari e o novato da vez, Romain Grosjean, ocuparam as três últimas posições entre os que completaram a prova.

Inexplicavelmente, a melhor volta da prova acabou nas mãos de Timo Glock, que a marcou no antepenúltimo giro. Isso porque o ritmo de prova da Toyota foi sofrível e o alemão morreu abraçado com Trulli bem fora da zona de pontos – 14º e 13º respectivamente. Isso foi pior que a Force India, que fez 10º com Adrian Sutil e 12º com Giancarlo Fisichella, separados por Nick Heidfeld, da retirante BMW.





Grande ironia. Semanas atrás, assim que recebi o convite do Edu para escrever a coluna desta prova, pensei que teria como tema central a ‘triunfal volta de Michael Schumacher’... Rubinho, infeliz e involuntário pivô desse possível retorno do antigo companheiro de Ferrari, agora está no topo da pirâmide, dedicando a vitória ao já recuperado Felipe...

Um grande abraço a todos. Que venham mais cem vitórias.

Lucas Giavoni

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