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| » » » 31.07.09 |
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| Absurdo, hipocrisia e negligência |
31.07.09 |
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Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com
A morte voltou a assombrar as pistas do automobilismo mundial no último dia 19, cobrando a vida do jovem e promissor Henry Surtees - filho temporão do lendário John Surtees -, na segunda corrida da rodada de Fórmula 2, em Brands Hatch. A princípio um acidente de dinâmica cruelmente casual, a morte de Henry é o tipo de tragédia que, diante de uma análise mais cuidadosa da sucessão dos eventos, pode revelar diversas falhas básicas de segurança.
Seria leviano de minha parte atribuir quaisquer responsabilidades, uma vez que estou distante demais dos detalhes para apurar quem deve responder pelo quê. No entanto, o vídeo da tragédia nos coloca diante de evidências fortes demais de que diversos procedimentos de segurança foram ignorados, esclarecendo, ao menos parcialmente, onde houve falhas.
Na nona volta da corrida de domingo, logo após a Westfield Bend, o britânico Jack Clarke - que por acaso é enteado do ex-piloto de Fórmula 1 Julian Bailey -, perdeu o controle de seu carro. Até então nada de especial. Apenas um típico incidente de corrida, que nos padrões de segurança atuais não deveria gerar maiores consequências. É quando as coisas começam a fugir ao script...
Na saída da Westfield existe um pequeno bosque, e para proteger essas poucas árvores o guard rail foi posicionado num ângulo incidente em relação à pista. Um carro que eventualmente escape naquele ponto (por sinal bastante exigente tecnicamente) não apenas não terá quase nenhuma área de escape, como será também devolvido à pista pelo posicionamento dos rails.
A situação em si já seria absurda e fortemente carregada de hipocrisia, mas torna-se muito mais grave quando se recorda o passado de acidentes sérios desta mesma pista. Em 1986, na última vez em que recebeu a Fórmula 1, o traçado de Kent acabou por encerrar a carreira de Jacques Laffite, num acidente tornado muito mais grave em consequência da ausência de área de escape.
Dois anos mais tarde, numa corrida de Fórmula 3000, diversos pilotos sofreram ferimentos sérios numa batida múltipla agravada pela proximidade e angulação dos guard rails. E no ano passado, o motociclista Craig Jones veio a falecer em consequência de um acidente nessa mesma pista. Dessa vez, não por culpa dos guard rails, mas num acidente que evidenciou toda a dificuldade do traçado. Algo que, definitivamente, não combina com áreas de escape curtas e mal aproveitadas.
Pois bem, ao chocar-se com o guard rail, o carro de Jack Clarke reage de duas maneiras simultâneas. Uma delas tristemente previsível, e a outra quase inacreditável.
Previsível é o retorno do carro à pista, gerando uma situação de elevado risco ao próprio piloto, e a todos os demais que vinham atrás dele. Diante do absurdo ângulo das lâminas dos rails, seria simplesmente impossível esperar outra trajetória.
Mas, por outro lado, não seria possível prever ou imaginar que num impacto como este, no máximo de médias proporções, a roda traseira esquerda pudesse se soltar do eixo com tamanha facilidade. Já há alguns anos os carros da Fórmula 1 são equipados com reforços de fixação em suas rodas, que na maioria das vezes mostram-se bastante resistentes e eficientes. É possível afirmar com alguma segurança que equipamento semelhante teria suportado até com alguma folga um impacto como este. Mas, se tratando de um evento isolado, fica difícil fazer qualquer afirmação genérica. Poderia, afinal, ser um problema exclusivo do carro de Clarke.
Nesse momento, por culpa da posição dos guard rails e da falha estrutural do automóvel, a roda perdida pelo carro de Clark atravessa a pista diante do pelotão de carros a quase 200 km/h. Em consequência de ao menos duas falhas de caráter preventivo, o esporte a motor por alguns instantes volta a ser refém da sorte, ou do acaso, como queiram. Um objeto pesado irá cruzar a pista diante de diversos pilotos que pouco ou nada podem fazer para evitar a colisão.
E nesse dia a sorte simplesmente não colaborou.
Estivesse um décimo de segundo à frente ou atrás, Henry Surtees provavelmente teria vencido o trecho sem quaisquer complicações, gerando, no máximo, mais um vídeo interessante para o youtube. Ao invés disso, ele não apenas colhe a roda desgovernada, como tem o azar de este encontro se dar justamente na única área exposta de seu corpo: a cabeça.
É possível que daqui a alguns anos pilotos de monopostos corram protegidos por alguma espécie de bolha transparente em torno de suas cabeças, e que pilotar sem tal aparato soe tão fora de propósito quanto guiar carros sem santantonio ou cinto de segurança nos dias de hoje. Atualmente, porém, tal tecnologia inexiste, e a verdade é que desde a morte de Ayrton Senna as cabeças dos pilotos estão muito próximas do limite daquilo que se pode fazer para protegê-las.
É fácil, portanto, reduzir todo o ocorrido ao termo 'fatalidade', e culpar a sorte - ou mais propriamente a falta dela - pela morte do filho de John Surtees. Há que se compreender, porém, que a casualidade e a cabeça exposta foram apenas os dois últimos fatores numa cadeia de cinco eventos, e que os três primeiros itens desta lista poderiam sim, ser perfeitamente evitados. Tivesse isso sido feito, toda a sequência de fatores teria sido quebrada, e sem sombra de dúvida uma vida teria sido poupada.
Para começar, é preciso rever a hipocrisia de não se poder remover ou transportar algumas árvores localizadas em locais de alto risco em pistas mais tradicionais. Óbvio que estamos todos conscientes sobre as necessidades de preservação ambiental, e ninguém aqui é favorável ao desmatamento.
Acontece, porém, que há diversas áreas apropriadas para o desenvolvimento e a preservação dessas árvores, e definitivamente as zonas de escape de uma pista de corridas não são uma delas. Trata-se, sem sofismos, de uma convivência impossível. Então, ou se faz como em Hockenheim e devolve-se à mata o que era dela, ou então promove-se o replantio em local planejado, ou o transporte das árvores localizadas em locais estratégicos. O que não pode é uma pista sediar diversos eventos de risco, quando por razões externas encontra-se privada de poder oferecer as condições mínimas de segurança.
Se tivesse a curva Westfield uma generosa área de escape, o velho John Surtees não teria que chorar a morte de seu filho.
A presença das árvores no local do acidente (mas não apenas nele) encerra um problema diretamente ligado à posição e ao ângulo dos guard rails. Assim sendo, como uma coisa está intrinsecamente relacionada com a outra, podemos pular diretamente para o terceiro fator, que é o descaso com a fixação das rodas nestes carros da Fórmula 2.
Ainda no início dessa análise eu afirmei que o caso isolado no carro de Clarke não bastaria para afirmar que existe sim uma falha crônica na esfera de segurança destes carros construídos de maneira tão apressada e barata. E isso é verdade.
Porém, a transmissão da tevê mostra com clareza que também o carro de Henry Surtees, após seguir reto na curva Sheene, perde a roda traseira direita num choque ainda mais leve do que o que originou todo o acidente.
Trata-se de uma imagem reveladora, que confere novo significado a todo o ocorrido. Ainda que Jonathan Palmer tenha se apressado a afirmar que a fixação das rodas na Fórmula 2 segue o mesmo padrão da Fórmula 1, as imagens nesse caso falam por si mesmas. A verdade é que na categoria criada de forma irresponsável por Max Mosley, atendendo a prazos e orçamentos aparentemente milagrosos, questões básicas do esporte foram sistematicamente negligenciadas. Para desviar a atenção das chicotadas e do sadismo do presidente da FIA, criou-se um factoide mascarado de corrida que, da forma mais triste, acabou de cobrar seus primeiros dividendos.
Confesso que dormiria mais tranquilo se conseguisse ver apenas azar nessa conjuntura que acabou por abreviar a vida e a carreira do jovem e promissor Henry Surtees.
Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com
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