É tempo demais. Mais de uma década, certo? Arrisco que muitos que acompanham a Fórmula 1 hoje em dia não tinham mais de quatro anos nessa data. Uma das datas mais importantes da história da Fórmula 1. No dia 16 de julho de 1995, o britânico Johhny Herbert conquistava a primeira de suas três vitórias na Fórmula 1, justamente em seu GP de casa. Sem dúvida, um momento marcante na história da categoria.
Mas é outro João, agora na variável espanhol Juan, que maracaria para sempre aquela metade de julho. No dia 17, vem a notícia de que Juan Manuel Fangio, El Chueco, havia falecido. O grande “Maestro” lutava contra um câncer, que acabou por causar-lhe irreversíveis problemas cardíacos. Fangio tinha 84 anos de idade, completados menos de um mês antes (nasceu em 24/06/1911).
Os feitos de Juan Manuel Fangio no automobilismo são muito comentados, mas pouco analisados. É senso-comum falar do “pentacampeão” e daquele que “venceu quase metade das corridas que disputou”. De fato, tais apresentações dispensam comentários (são o que são, e pronto), mas se as analisarmos com mais calma, iremos nos surpreender – e admirar – ainda mais.
Comecemos falando do início de sua carreira, antes mesmo de existir um mundial de Fórmula 1 . A primeira corrida que Fangio disputou data de 1934: um amigo lhe emprestou um Ford 1929. Segundo contam muitas fontes, a família temia por sua segurança, e o piloto passou a dedicar-se às atividades de mecânico.
Porém, em 1938 voltaria a competir, e o faria regularmente. Uma corrida que ele venceu, em 1940, é considerada um marco em sua carreira: Foi o “Grande Prêmio do Norte”, que ia de Buenos Aires à Cordilheira dos Andes peruana e retornava à capital argentina. Distância total? 10 mil quilômetros. Fangio seria bicampeão argentino, em 1940 e 1941.
Em 1948 começaria a se modelar sua carreira como temos notícia hoje, quando ele finalmente conseguiu ir à Europa, financiado pelo governo de Juan Domingos Perón (além dos autódromos, não havia patrocínios como se conhece hoje).
Naquele ano, acontece seu primeiro GP com os carros que dois anos mais tarde seriam chamados “Formula Uno” (afinal, o futebol não começou na Copa do Mundo de 1930): em Reims, França, Fangio partiu em 11º e não completou a corrida. Porém, no ano seguinte, Fangio disputou sete Grandes Prêmios, e venceu cinco deles.
Em 1950, é criado o primeiro campeonato mundial, e Fangio conquista um vice-campeonato, ficando atrás de Giuseppe Farina, seu companheiro de equipe na Alfa Romeo. Cada um venceu três das sete etapas (a outra era a 500 Milhas de Indianápolis, GP do qual a maioria do grid não participava), mas Farina acabou somando três pontos a mais (30 a 27).
Com o Lancia Ferrari de 56
Em 1951, aos 40 anos, acontece seu primeiro título: das sete etapas do calendário (oito com Indianápolis), Fangio chega ao pódio em seis, sendo três vitórias (uma, dividida com o companheiro de equipe). Porém, 1952 reservou-lhe surpresas pouco agradáveis: uma série de problemas técnicos na Alfa Romeo o impediu de participar daquela temporada de Fórmula 1 e um acidente em Monza, em um GP “não-oficial” quase lhe tira a vida.
Fangio ficou todo o ano de 52 na Argentina, recuperando-se do grave acidente, para voltar em 1953, agora não mais na Alfa, e sim na Maserati. Nesse ano, Fangio teve de enfrentar a duríssima concorrência do italiano Alberto Ascari, campeão em 1952, que fazia com a Ferrari 500 de quatro cilindros uma dupla praticamente imbatível (têm, até hoje, o recorde de vitórias em sequência na categoria, nove).
Fangio seria vice-campeão novamente, tendo chegado três vezes em segundo e vencendo a última corrida, em Monza. Sobre essa vitória, há uma das histórias mais curiosas da carreira do argentino. O diretor da Maserati chega a Fangio e diz: “Fangio, temos que ganhar, estamos sempre fazendo segundo”. E Fangio rebate: “Sim, estamos sempre chegando em segundo, mas estamos ganhando a simpatia do público”.
Em 1954, Fangio inicia a temporada pela Maserati, disputando os dois primeiros GPs. Vence ambos. Nas seis provas seguintes, corre pela Mercedes (que NÃO PONTUARA as primeiras duas corridas. Ganha quatro. E assim, torna-se campeão mundial pela segunda vez, mas com uma vantagem muito grande dessa vez: foram 17 os pontos de vantagem, e o piloto foi campeão com duas provas de antecipação.
Em 1955, a dupla Fangio-Mercedes se mantém, e mais uma vez o campeonato fica nas mãos do argentino que, das seis corridas do calendário, venceu quatro e foi uma vez segundo. Sua pontuação foi praticamente o dobro da de Stirling Moss, vice-campeão: 40 a 23 para Fangio.
1956 marca o encontro de dois mitos: Fangio e Ferrari. Pela primeira vez havia o encontro da equipe e do piloto com o maior número de títulos. Até então, Fangio era tri, e a Ferrari tinha um bicampeonato no cartel. A Mercedes decidira se retirar da Fórmula 1 depois do horroroso acidente de Le Mans 55, que vitimou dezenas de pessoas.
Foi o campeonato mais difícil dos cinco conquistados por Fangio: a dura concorrência de Moss e Collins (cada um dos três venceu duas corridas), além da maior estabilidade da Maserati, fizeram com que Fangio se sagrasse campeão somente na última corrida, por diferença de três pontos.
Fangio se recuperando do acidente de 52
Mas 1957 marcaria sua “redenção” como piloto, e o colocaria definitivamente como, no mínimo, o maior piloto de sua época. De volta à Maserati (que em 1956 fora vice), o piloto vence 4 das primeiras 5 corridas, e é segundo nas outras duas – fora campeão por antecipação, mais uma vez.
Em Nurburgring, realizou aquela que talvez seja a melhor performance individual de um piloto na história da F1. Depois de perder um tempo enorme nos boxes, Fangio retorna à pista na terceira colocação, com 50 segundos de desvantagem para o líder. Começou a marcar a volta mais rápida giro após giro, e conseguiu ultrapassar as duas Ferrari na penúltima volta. “Eu nunca corri dessa maneira em minha vida, e acho que jamais tornarei a fazê-lo”, disse Fangio após a conquista.
Em 1958, já consagrado definitivamente, Fangio inicia a temporada percebendo que muitas coisas haviam mudado na Fórmula 1: a diminuição da distância dos GPs, entre outros fatores técnicos, já o desmotivavam, mas o que realmente o deixou descontente, foram a mudanças na visão do esporte: o investimento de patrocínios que logo estariam pintados nos carros, e a “voz mais alta” do dinheiro.
Além disso, a questão da idade já o afetava: Fangio abriu a temporada com 46 anos; Apenas para efeito de comparação, os três primeiros colocados naquele ano seriam Mike Hawthorn, Stirling Moss e Tony Brooks, respectivamente; Hawthorn e Moss tinham 29 anos cada, e Brooks tinha apenas 25. Outro que venceu um GP em 58 foi peter Collins: 26 anos.
Na quinta etapa daquele ano (que pela primeira vez teria 11 corridas), Fangio enfrenta vários problemas mecânicos e, ao sair do carro, simplesmente diz: “Está tudo acabado”.
ALGUMAS COLUNAS SOBRE FANGIO JÁ PUBLICADAS NO GPTOTAL