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Entre o gênio e o barbeiro 08.06.09
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Bom, vamos aos fatos.

Button
Jenson Button venceu o Grande Prêmio da Turquia, e com isso atingiu a expressiva marca de seis vitórias em sete corridas disputadas. Rubens Barrichello, por outro lado, teve um dia de cão, não pontuou, e permitiu que o inglês ampliasse a vantagem no mundial para 26 pontos. Sebastian Vettel, o terceiro na prova e no campeonato, está agora a seis pontos de Rubens. Felipe Massa somou mais uns pontinhos ao levar a Ferrari à 6ª colocação, mas esteve sempre muito longe da glória que conquistou na mesma Turquia no triênio anterior. Nelsinho Piquet protagonizou o momento mais bonito da prova, mas novamente teve desempenho apagadíssimo em relação a Alonso.

Certo. E agora, onde isso nos leva?

O campeonato acabou? Button é tão bom quanto Schumacher? Devemos reclamar da previsibilidade? Devemos dizer que foi uma procissão de domingo? Que Rubens é lento ou está sendo sabotado?

Honestamente, tenho lido esse tipo de comentário desde que o ano começou, e discordo respeitosa e frontalmente de todos eles. Mas antes de mergulharmos em questionamentos, vejamos rapidamente como foi escrita a história deste GP.





Sábado pela manhã, instantes seguintes ao fim da 3ª sessão de treinos livres. Os pilotos deixam os pits rumo a uma simulação de largada, liderados por Rubens Barrichello. Antes de todos os demais, o veterano chega ao grid vazio, e por algum motivo alinha seu carro na 2ª posição. Pára, eleva a rotação do motor, e dá uma largada exagerada, deixando um grosso rastro de borracha num local onde, em anos anteriores, o 2º colocado no grid havia sempre patinado e perdido posições.





Na qualificação, finalmente a RBR acertou a mão na quantidade de combustível, e assegurou com Vettel uma pole que deveria ter sido deles, no mínimo, também no Bahrein e na Espanha. Todavia, ao contrário daquelas ocasiões, o jovem Sebastian já não tinha nas mãos o melhor carro do grid. Se quisesse vencer a corrida, teria que tratar de se manter à frente a qualquer custo, e torcer para não ser superado na estratégia.

Atrás dele largaria Jenson Button, com combustível para duas voltas a mais que Vettel, e classificado à frente de Barrichello apesar de mais pesado também que o brasileiro. Ao que consta Rubens teve problemas com seu assoalho, assim como Nelsinho culpou os freios pela 17ª colocação. Em breve abordaremos essa questão dos problemas nos carros destes dois pilotos. Felipe Massa, por sua vez, não repetiu os bons desempenhos de anos anteriores, e largou atrás de Kimi, mesmo também estando mais leve que o companheiro.





Nelsinho e Hamilton
No domingo, luzes vermelhas acesas, e muita tensão no ar. Conseguiria Barrichello manter a seqüência de boas largadas, e superar seu companheiro na largada? A posição de Button no grid, completamente direcionado rumo ao centro da pista, deixava clara sua preocupação. E Massa? Poderia o KERS fazer alguma diferença num espaço tão curto entre a partida e a primeira curva?

Essas e outras perguntas foram respondidas tão logo as luzes se apagaram.

Num primeiro instante, os três líderes saltaram de forma muito parecida, mas logo a Brawn de Barrichello perdeu toda a sua progressão. O replay da câmera onboard deixou claro que o sistema eletrônico que automaticamente engata o ponto-morto a cada vez que o motor corre o risco de apagar - que já havia arruinado a largada do brasileiro em Melbourne - voltou a fazer estragos na Turquia.

Com isso Vettel e Button pularam na frente, enquanto mais atrás as disputas por posições eram extremamente acirradas. Jarno Trulli apareceu em terceiro, e durante toda a primeira volta protagonizou uma disputa crua com Mark Webber, até que foi superado pelo australiano na freada para a curva 12. No mesmo ponto Massa também era superado por Nico Rosberg, caindo para 6º após ter ganhado duas posições na 1ª curva.

A alteração mais importante, porém, ocorreu na saída da curva 10, quando Sebastian Vettel perdeu o controle de seu carro, colocou as rodas esquerdas fora da pista, e acabou sendo superado por Button. Com mais combustível no tanque, aquilo era tudo que o inglês precisava para decolar rumo a mais uma conquista.

Atrás, bem mais atrás, Barrichello completava a 1ª volta na 12ª colocação, colado na McLaren de Heikki Kovalainen. Poderia ele, a exemplo do que fez na Austrália, escalar o pelotão até as posições pontuáveis?

Não, não poderia. Por mais que carregasse muito mais velocidade para as curvas, e conseguisse entrar nas retas embutido no câmbio do finlandês, logo ficou claro que faltava velocidade final ao Brawn. A explicação viria voltas mais tarde numa conversa entre piloto e equipe, reproduzida pela tevê: a 7ª marcha estava falhando, e diversas vezes não podia ser engatada. De fato, as imagens onboard do carro de Barrichello dão total crédito a isso.

Ainda assim, o brasileiro conseguiu ultrapassar o finlandês ao fim da 6ª volta, apenas para ser superado na reta seguinte, graças ao uso do KERS. Para Rubens, foi a gota d’água. Ele sabia que suas chances de pontuar estariam arruinadas atrás do Mclaren, e a forma como voltou a ficar atrás deve ter esgotado sua paciência. Na freada para a curva 12, naquela mesma volta, Barrichello tentou uma manobra afoita e impossível, como se fosse um recém-chegado à categoria. Como resultado os carros acabaram se tocando, Rubens perdeu mais cinco posições, e a partir dali o melhor que teria a fazer seria poupar seu equipamento e levar o carro aos boxes.

Massa
Enquanto isso, lá na frente, Jenson Button conseguia abrir uma pequena, porém segura vantagem em relação a Vettel. Em terceiro vinha o sempre consistente Webber, e com isso a RBR sentiu que poderia arriscar. Talvez se Vettel fizesse uma parada bem curta, pudesse voltar à pista à frente de Button, ou em condições de ultrapassá-lo. Todavia, os 3 segundos a menos que o alemão permaneceu nos pits não foram suficientes para anular a vantagem de permanecer na pista por duas voltas a mais com tanque vazio. Button retornou à pista à frente, e por mais que Vettel se aproximasse, e num segundo momento tentasse a ultrapassagem, o inglês teve sempre a situação sob controle. A corrida era sua e ponto final.

A estratégia de 3 paradas ainda custou a Vettel sua segunda colocação, perdida justamente para Mark Webber. Jarno Trulli melhorou o clima na Toyota com uma forte 4ª colocação, à frente de Nico Rosberg e de um discreto Felipe Massa. Robert Kubica e Timo Glock completaram os oito primeiros, deixando o apático Kimi Räikkönen fora da zona de pontuação.

Rubens Barrichello abandonou por razão ainda desconhecida, justamente no momento em que iria levar uma volta de seu companheiro de equipe. Já Nelsinho Piquet terminou a prova apenas na 16ª colocação, e teve como único consolo ter assinado a manobra mais bonita da prova, quando superou Lewis Hamilton por fora na freada da curva 12, na 34ª volta. Um momento de muito brilho, eclipsado unicamente pelo fato de Nelson continuar se posicionando sempre abaixo do que permite seu equipamento.





E então: Rubens teve culpa no resultado?

Sim. Mais uma vez ele se classificou abaixo de Button, apesar de estar mais leve. Sim. Após o problema na Austrália, era de se esperar que o problema das largadas já tivesse sido superado. Sim. A segunda manobra sobre Kovalainen foi leviana e afobada.

Não. A sétima marcha não entrou diversas vezes durante a corrida. Não. O sistema de largadas da Brawn parece regulado a uma sensibilidade irreal, prejudicando eventualmente largadas que seriam perfeitamente normais.

Rubens e Nelsinho podem fazer algo em relação aos recorrentes problemas de seus carros?

Sim. A capacidade de adaptação a circunstâncias imprevistas é um importante extra para qualquer piloto de corridas. Se um carro insiste em ter pequenos problemas, cabe ao piloto buscar todas as formas de contornar ou diminuir o dano. Afinal, será que apenas alguns têm problemas, ou os outros é que simplesmente não os demonstram?

O campeonato acabou?

Vettel
Não, ainda não. Mas qualquer improvável mudança de rumos, a esta altura, já depende de alguma forte intervenção do destino. A Brawn vem mostrando uma surpreendente capacidade de evolução de seu equipamento, e tem em Button um piloto forte e que não erra. No momento devido irá depositar todas suas fichas no inglês, e ninguém pode censurá-la por isso. Mas como diz Frank Williams, é sempre muito fácil perder uma corrida, e o campeonato só teria mesmo acabado caso estivesse em vigor a regra do campeão por número de vitórias. Espero de verdade que o desempenho de Button sirva para exterminar da mente dos dirigentes esta idéia imbecil.

Seria irreal pensar em chances de título para qualquer piloto brasileiro neste momento. Primeiro, algum deles precisa vencer ao menos um GP de maneira consistente. Antes disso, soa até ridículo pensar em campeonato.

É válido comparar Schumacher e Button?

Ok, Jenson vem obtendo números impressionantes ao longo desta temporada, a exemplo do que Schumacher fez por diversas vezes no auge de sua carreira. Além disso, por essas voltas que o mundo dá, ambos tiveram em seus momentos de maior glória a companhia de Rubens Barrichello dentro da mesma equipe.

No entanto, creio que mergulhar neste tipo de especulação seria fechar os olhos ao que realmente importa, que é o grande recado dado pela Brawn ao longo desta temporada. A certeza de que atualmente, e já há algum tempo, o carro pesa muito mais dentro do conjunto do que o piloto.

Para deixar isto claro basta comparar as prestações do próprio Schumacher em anos como 2004 e 2005, ou Jenson Button em 2008 e 2009. Num ano, números fantásticos. Noutro, uma temporada desastrosa. Lewis Hamilton também está aí para não me deixar mentir, assim como Felipe Massa. E Alonso? Será que o asturiano já não sabe mais vencer corridas?

Ora, foi o piloto quem aprendeu ou desaprendeu, ou foi o carro que melhorou ou piorou?

Portanto, antes de nos apressarmos a levantar números fora de contexto, ao meu ver este é o tipo de situação que deveria levar a produtivas reflexões acerca da forma como nós todos temos avaliado este esporte. Parece muito claro que temos sido muito injustos com pilotos ao volante de carros mais lentos, e eventualmente muito favoráveis a pilotos dotados dos melhores equipamentos.

Button e Vettel
Em resumo: nem Button era um trambolho em 2008, nem é um candidato a melhor de todos os tempos em 2009. Entre um e outro extremo, sempre esteve um piloto competente à espera de uma chance. Nada mais. Da mesma forma que os números de Schumacher, diante do que vem fazendo o inglês em condições semelhantes, perdem um bocado de sua aura mítica.

Lendo aqui e ali opiniões tão extremadas e voláteis a respeito de Button, Barrichello e cia, me pego pensando que antes de criticarmos aquilo que vemos, talvez devêssemos questionar nossa própria visão, e a parcialidade de nosso ponto de vista.

Forte abraço a todos.

Marcio Madeira

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