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Lobo! Lobo! Lobo! 20.05.09
Escreva pra gente
Lucas Giavoni, do www.ultimavolta.com

O bico do Brawn
Aqui entre nós, convenhamos. Não há quem não esteja esgotado de ver Rubens Barrichello reclamando, ora de seu carro, ora de sua equipe. Então, quando novamente há a suspeita de ele ter sido preterido pela Brawn no GP da Espanha, por mais que Ross jure diante da Cruz que não há privilégios pra ninguém, isso nos remete àquela historinha do ‘fabuloso’ Esopo, sobre o menino que gritava lobo – e quando o tal bicho realmente veio, ninguém botou fé no rapazinho.

Eu mesmo não botei fé no Rubinho – e deixei claro que só tinha visto méritos na vitória do Jenson Button na coluna Três pra quê?. Eu achava simplesmente que o engenheiro de corrida do inglês tinha feito uma leitura mais esperta sobre a corrida passando do tal plano ‘A’ para o ‘B’. Ao passo que afirmei que foi uma tremenda presepada manter três paradas pro Rubens, que andava em bom ritmo na liderança e com mais gasolina até a primeira rodada de pit stops. Isso era facilmente identificável e não tinha profundidade suficiente para lançar qualquer teoria conspiratória.

No entanto, percebo agora que Rubens realmente esteve na presença do lobo. E isso dentro da equipe daquele mesmo Ross que jamais o favoreceu na Ferrari antes de Michael Schumacher ser campeão (caso não concordem, basta checar o histórico de vitórias do Rubinho). Não, não foi uma simples burrada de seu engenheiro de corrida.

Foi meu pai, que é advogado há 30 anos e está mais do que acostumado a ler as entrelinhas, quem me deu o ‘start’ para que eu olhasse de modo diferente para tudo o que aconteceu naquela prova em Montmelò.

Ele me alertou que achou estranhíssimo o diálogo de rádio do Button com o time na volta de desaceleração pós-bandeirada. Depois da tradicional e enjoativa rasgação de seda entre piloto e equipe recheado de good job pra todo lado, Jenson disse “sinto muito pelo Rubens”.

Salvo raríssimas exceções, ninguém ganha dizendo isso, ó, cara pálida!

Jenson Button fotografado nos boxes de Mônaco
Ficou no ar a incômoda impressão de que Button sentia pela equipe sacrificar a prova de Rubens para que ele vencesse. Procurei me esforçar em uma investigação mais profunda e tive como conclusão que o único mérito de Jenson para ganhar o GP da Espanha foi ser, de fato, beneficiado pela equipe. E, ao que me parece agora, a Brawn fez isso acontecer através do modo mais fácil – prejudicando a corrida de Barrichello.

Toda a crocodilagem, acredito eu, foi desempenhada em três atos – todos realmente muito suspeitos e dignos de reflexão.





Primeiro ato – Os pesos de largada de Jenson e Rubens

Segundo o próprio Barrichello falou abertamente durante os treinos, ele e Button haviam combinado usar a mesma quantidade de combustível na Q3, um acordo de cavalheiros já em seu quarto ano. Barrichello foi para a pista e fez um ótimo 1m20s762. Mas veio o impressionante Sebastian Vettel e cravou 1m20s660. Button então arrancou uma dramática pole abrindo sua volta rápida dois segundos antes de zerar o cronômetro, com tempo de 1m20s527.

Quando surge a lista dos pesos dos carros para a largada, a surpresa: Rubens, que esperava fazer a pole, treinou com três quilos e meio a mais que Jenson – o que supostamente seria um erro da equipe. Como bem escreveu meu sócio Márcio Madeira no texto da corrida para o nosso www.ultimavolta.com, erro é algo que não existe. Rubens treinou mais pesado e com quilinhos a menos poderia ter obtido um tempo melhor.

E ficou muito estranho terem colocado justamente essa quantidade a mais de combustível. O consumo dos motores Mercedes em Montmelò ficou entre 2.2 e 2.5 kg/volta – ou seja, 3.5 kg era o máximo teórico para andar mais pesado e ter que parar na volta imediatamente seguinte, acabando com qualquer possibilidade de mudança de posição no box.

Mas vamos em frente, pois Rubinho fez uma largada maravilhosa e o que era problema – o combustível extra – logo virou uma bela solução. Se a Brawn realmente queria ver Jenson na frente, teria que pensar em um outro lobo.





2 – Tática de corrida e stints

Partir em terceiro e recortar a primeira fila por fora não é pra qualquer um. Perdoem-me as mulheres leitoras pelo comentário, mas Barrichello foi macho pra cacete, honrou o que tem no meio das pernas. Logo após as cinco voltas com Safety Car, ele se viu com um carro que tinha um ótimo ritmo de prova e conseguia manter Button sob controle atrás de si. Ambos alternaram nesse momento as melhores voltas da prova e ficou claro que a dupla Brawn abria no mínimo 0.3s por volta para Felipe Massa, que estava segurando Vettel e acabando com as chances de vitória dele.

Então chega a primeira rodada de pits. Button entra na volta 18 e muda de três para duas paradas, colocando combustível para longas 30 voltas. Essa foi uma boa jogada, pois ele não tinha na pista a oportunidade de passar Rubinho e as voltas de Safety no começo “encurtaram” o período que o piloto tinha para correr rápido e fazer a estratégia de três paradas funcionar do jeito certo. Nesse momento, Barrichello tinha 1,5s de vantagem – pequena, mas cômoda.

Na volta seguinte, 19, é a vez de Rubinho fazer seu rápido pit, com 28,78% de corrida. Na comparação entre ambos, ele fez um pit em 23.063s (total) contra 25.459s de Jenson. E na volta pós-pit, Barrichello cravou 1m44s733 contra 1m47s343. Esse foi o início de uma corrida contra a mudança de tática do companheiro.

Barrichello acelerou muito nesse período. Entre as voltas 21 e 30, ele enfiou a bota, marcou a melhor volta da corrida (1m22s762, no giro 28) e abriu 13.5s até entrar no box na 31ª passagem (46,96%) – um stint de apenas 11 voltas (16,66% do GP).

Esse ponto também gera uma grande desconfiança, pois teoricamente uma perna deste tamanho seria contraproducente, a não ser se fosse a última, na qual Rubens usaria os pneus duros, de performance pior.

Ainda assim, com essa tática, se mantivesse o mesmo ritmo na outra metade da prova, aparentemente disputaria pau a pau com Jenson a liderança no fim da prova, pois saiu dos boxes com 8.4s de desvantagem, tendo conseguido abrir 13.5s em menos de metade da corrida. Mas houve então uma terceira aparição do lobo.





Terceiro ato – Mistério após o pit da 31ª volta

Volta 31 e Rubinho, mais rápido do que nunca, entra nos boxes preparando mais um stint que precisava ser diabolicamente rápido – desta vez com duração de 18 voltas (27,27% do GP). Se Barrichello conseguisse dobrar os 13.5s de vantagem que tinha construído – 27s ao todo – isso pagaria o seu pit extra em relação ao companheiro e ainda voltaria troco, com a vantagem de ter menos voltas na pista com pneus duros.

Mas aí o último fato estranho acontece. O desempenho de Rubinho estacionou ao mesmo nível do de Button, sem nenhuma explicação plausível. O próprio Rubinho disse, na entrevista pós-corrida, que seu terceiro jogo de pneus não estava bom ou então que algo poderia ter quebrado no carro. O que ele realmente queria dizer é que ele não tinha o mesmo carro da primeira metade da corrida. E não tinha mesmo - sua melhor passagem nesse período foi 1m23s382, 0.620s pior que a melhor volta.

Ao olharmos a outra metade da prova, Rubens saiu com 8.4s de desvantagem de seu pit na volta 31 e cruzou com 13s de desvantagem na bandeirada – foi, portanto, até pior nessa outra metade. Claro que ele não seria tão rápido quanto foi nas 11 voltas anteriores, quando tinha um carro demasiadamente leve, mas ainda assim seria mais rápido, por uma simples questão de lógica da sua estratégia.

O pior é que estragar a performance de um jogo de pneus é a coisa mais fácil do mundo. É só alterar a calibragem, normalmente colocando mais pressão que o recomendado, como chegaram a fazer na McLaren com Fernando Alonso no fim de 2007, com resultados que todos conhecem. E se o piloto por acaso desconfiar que estão fazendo-lhe de idiota, é só pegar o jogo zicado e voltar à calibragem recomendada antes da prova acabar. Ar pra dentro, ar pra fora. Crime perfeito.

Rubinho na Espanha
Assim que foi para o terceiro e último pit na volta 50 (75,75% do GP), Barrichello foi calçado com os pneus duros e teria no tanque a mesma quantidade de combustível que Jenson para as últimas 16 voltas – e só dois giros a menos que ele com os pneus duros – o que acabou com essa vantagem tática. Daí não há Cristo que tire diferença e faça uma tática de 3 superar a de 2. Fatura liquidada. God Save The Queen.

No filme 007 Contra Goldfinger, o vilão da história, Auric Goldfinger, solta uma pérola em um dos diálogos da trama. Uma verdade inconveniente:

- Uma vez é acontecimento, duas vezes é coincidência, três vezes é ação inimiga.

Diante de tantas desconfianças, uma aposta para o futuro. Com Barrichello altamente desconfiado e Jenson com folgados 14 pontos na frente, eu devoro o meu chapéu com sal, pimenta e regado em azeite espanhol se Rubinho não andar melhor que o companheiro em Mônaco.





Para quem tiver dúvidas a respeito das posições durante a corrida, tempos de volta e das táticas de pit do GP da Espanha, seguem os links com os dados em PDF da própria FIA:

Gráfico de posições:
http://www.fia.com/en-GB/sport/championships/f1/spain/Documents/ESP_F1_2009_Chart.pdf

Histórico de voltas:
http://www.fia.com/en-GB/mediacentre/f1_media/Documents/esp09_race_history.pdf

Histórico de pits:
http://www.fia.com/en-GB/mediacentre/f1_media/Documents/esp09_race_summary.pdf

Lucas Giavoni, do www.ultimavolta.com

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