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Cinematográfico 02.03.09
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Márcio Madeira da Cunha

Desde dezembro, o site www.ultimavolta.com vem publicando o especial As 99 vitórias do Brasil na F1, de onde foi retirado o texto a seguir.





GP da Espanha, 2ª etapa
Autódromo de Jerez de la Frontera
Domingo, 13 de Abril de 1986

Senna e Mansell em Jerez 86
Ao descrever o GP da Espanha de 1986, fiz uso intencional de expressões típicas da produção cinematográfica. Eu tinha sete anos quando fui marcado por esta disputa, e ela sempre guardou para mim cores de um thriller onde o mocinho vence por um fio no final. Foi uma vitória diferente, obtida na raça, na vontade, na virilidade e na técnica também. Senna venceu os melhores do mundo, mais experientes, equipados em carros superiores e em condições normais de corrida. Não choveu, nem ninguém quebrou à sua frente. Foi, sem dúvida, uma das maiores exibições de um piloto na Fórmula 1. E é sorte minha ter este “filme” gravado...

Essa é, juntamente com Japão 1989, minha corrida favorita.

Uma breve contextualização: a Espanha estava de volta ao calendário, após jejum que durava desde o inesquecível GP de 1981. Trocava-se Jarama por Jerez de La Frontera, e a prova seria disputada logo após o GP inaugural da temporada, no Rio de Janeiro. A pista, de traçado sinuoso, jamais havia sido utilizada na Fórmula 1. A idéia geral dos pilotos era completar a prova sem trocar pneus, o que sugeria um ritmo de prova calculado. Um cenário que amenizava o maior drama dos motores Renault: o excessivo consumo de combustível. Ao contrário do GP brasileiro, Senna – que no sábado fizera a centésima pole da história da Lotus – poderia, quem sabe, sonhar em se manter na ponta até o final.

Para entender o clima que imperava entre os pilotos de ponta, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Ao final de 1985 a supremacia dos motores Honda já era uma realidade impossível de se ignorar. Equipando os carros da Williams, vencem as três últimas provas do calendário, dando inclusive as duas primeiras vitórias da carreira de Nigel Mansell.

Na Austrália, neste mesmo ano, Ayrton e Nigel disputam uma curva ainda na primeira volta e o inglês acaba fora da pista. Não deve ser difícil avaliar o efeito deste incidente sobre a remediada estabilidade emocional de Mansell, tanto mais quando lembramos que ele nunca havia vencido antes, e agora vinha de duas vitórias seguidas. Mais do que isso: no GP do Brasil, já em 1986, Mansell tenta nova ultrapassagem sobre o brasileiro – novamente na primeira volta, e novamente valendo a liderança. Os dois loucos mergulham lado a lado na impiedosa Curva Sul, o inglês por dentro. Difícil dizer se chegou a haver o toque, mas fato é que Nigel, apesar de ter a preferência, mais uma vez saiu da pista.

E assim chegamos à Espanha. A Williams vindo de quatro vitórias, com Piquet embalado pelo sucesso no Brasil e Mansell disposto a tudo por uma vendetta contra Senna. Na McLaren, um Prost que acabara de ser campeão do mundo queria voltar a vencer, enquanto Rosberg ainda tentava se impor diante do companheiro. Na Lotus, Ayrton hipermotivado como sempre, desta vez com esperanças reais de transformar a pole em vitória.

O ambiente entre Senna e Mansell era de tal modo insustentável que chegou a existir uma conversa entre ambos antes da largada. A iniciativa partiu de Ayrton.

Dada a luz verde todos conseguem manter as posições de largada, à exceção de Prost que perde o quarto posto para Keke. Como de hábito, o finlandês começa com tudo, e já no início da segunda volta realiza uma ultrapassagem linda e vigorosa sobre um assustado Mansell. Seria apenas a primeira de uma série de manobras inesquecíveis.

Por algumas voltas Rosberg ainda tenta conquistar o segundo lugar, mas Piquet não dá a menor chance ao campeão de 1982. Na sexta volta Alain Prost aparece à frente de Mansell, o inglês aparentemente surpreendido com o ritmo inicial da prova. Nigel permaneceria por 13 voltas nesta posição, sempre escoltado de perto pela Ligier de Arnoux, que apresentava excelente desempenho.

Algo de invisível acontece ao longo dessas 13 voltas. Andando em quinto, atrás de seus principais rivais, Mansell parece mergulhar em algum tipo de reflexão. Finalmente ele tinha a grande chance de sua vida, pilotando o melhor carro – preparado pelo melhor acertador da categoria – e sem a obrigação de vencer Piquet, piloto mais que consagrado e candidato destacado ao título. Mansell não tinha nada a perder, e contava com o apoio explícito de Patrick Head para enfrentar o brasileiro. E agora lá estava ele, em quinto, amedrontado, vendo à sua frente seus rivais andando como loucos, enquanto ele tinha desperdiçado duas corridas em disputas tolas na primeira volta. Não, aquilo não estava certo. Era preciso reagir!

Este acaba sendo o momento de virada para o inglês, não apenas na corrida, mas em sua própria carreira. Até então um piloto trapalhão, Nigel a partir de agora irá se mostrar veloz o bastante para disputar a ponta, e seguro para fazer ultrapassagens precisas. Neste GP, neste momento mais especificamente, Mansell muda os rumos de sua passagem pela Fórmula 1.

Outra imagem da perseguição
Entre os líderes, Senna era o que vivia maior drama em relação ao consumo de combustível. Sua presença em primeiro, portanto, evita uma provável fuga de Piquet, e acaba por formar um longo pelotão que contava ainda com Rosberg, Prost, Mansell, Arnoux e Laffite. Na 12ª passagem Senna erra uma freada e dá sua primeira fritada de pneus. Nesta mesma volta Stefan Johanson abandona com a Ferrari. Na volta 16 começam as negociações com retardatários. Tudo parecia caminhar para uma procissão de domingo, e a corrida não prometia mesmo muita agitação. É o momento em que ocorre a primeira mudança nos rumos da disputa.

Na volta nº 18 Ayrton bota as rodas na terra pela primeira vez, ao tomar uma estrondosa fechada de Elio de Angelis. O italiano, ex-companheiro de Senna na Lotus, era outro que não nutria sentimentos construtivos pelo brasileiro. Volta seguinte e Mansell começa a aparecer. Numa manobra recuperada pela geradora espanhola (e mostrada em perfil num slow motion de poucos quadros que mais lembrava um tosco filme de terror) Mansell atrasa a freada com decisão e deixa Prost para trás. Mais três voltas e Senna volta a travar as rodas, desta vez atrapalhado por Tambay.

Arnoux pára na volta 25, ao mesmo tempo em que Mansell fazia a volta mais rápida. Nesta altura da prova, apenas 3,1 segundos separam primeiro de quinto, com 14 carros na pista, dos 26 que largaram. À altura da volta 42, apenas 9 carros terão resistido.

Na 26ª volta Senna reage, fazendo o melhor tempo até então. O brasileiro, porém, se atrasa com o tráfego no fim da volta 29, no exato momento em que Mansell supera Rosberg para assumir o terceiro posto. Outras quatro voltas e Mansell avança para cima de Nelson, roubando-lhe a segunda posição. O replay da manobra permite ver através das labaredas do respiro – típicas daquele momento da Fórmula 1 - a agressividade das reduções de Mansell em relação à tocada mais conservadora de Piquet. Duas voltas mais tarde Rosberg começa a perder rendimento, sendo superado também por Prost.

Mansell está irremediavelmente colado em Senna quando ambos abrem a volta de número 40. O inglês corta para o lado de dentro, enquanto Ayrton parece ter sua tentativa de defesa limitada pela presença de Martin Brundle, retardatário. Discutir o papel de Brundle – outro desafeto de Senna – torna-se irrelevante diante do ímpeto de Nigel. Senna simplesmente não poderia manter-se à frente. Ninguém parecia ser capaz de parar Mansell aquele dia. Nesta mesma volta Piquet abandona por problemas mecânicos.

Então era isso: Mansell ganhou quatro posições na pista, e agora poderia contar com a ajuda de Ayrton para se distanciar em primeiro. A corrida parecia liquidada. É quando chegamos ao nosso segundo plotpoint.

Após abrir cerca de cinco segundos, os tempos de Mansell pioram sensivelmente e a diferença se estabiliza. Ayrton parece demorar a acreditar que efetivamente pudesse ter alguma chance, dado que não altera seu ritmo imediatamente. Teria Mansell destruído seus pneus? Pelo sim pelo não Ayrton aperta, e Mansell parece sem condições de sustentar a diferença. Era o que Ayrton precisava para reacender sua maravilhosa e patológica obsessão pela vitória.

Com ânimo renovado o brasileiro assume o papel de caçador – momento raro na carreira de um piloto sempre posicionado muito à frente do que permitia seu equipamento. É um Senna diferente, que poucas vezes se viu. Prost também está atento, e desconta rapidamente os oito segundos que tinha de desvantagem para Ayrton. Na volta 55 os três primeiros já andam num mesmo trem de corrida, separados por poucos metros.

Pouco mais de uma volta se passa antes que os três encontrem Keke Rosberg, ainda em quarto, se arrastando pela pista. O finlandês dificulta a ultrapassagem, e acaba por novamente separar os líderes. Mais duas voltas e Senna encosta no Williams novamente.

Situações muito diferentes envolvem os três bólidos que brigam pela ponta. Mansell, na liderança, parece não se perturbar com a presença de Senna. O inglês logo mostraria ao mundo o leque de expedientes que estaria disposto a lançar mão para não ceder espaço a Ayrton novamente. O brasileiro não precisava da vitória para ser o líder do campeonato, mas queria impor-se novamente ao inglês. Atrás deles, Prost demonstrava toda sua compreensão sobre o momento da prova, e mantinha-se estrategicamente posicionado esperando os acontecimentos. Imagino que talvez estivesse se divertindo debaixo do capacete, vendo os dois jogando a corrida em seu colo.

Volta 60. Senna rasga a reta embutido no Williams, enquanto Mansell busca a linha de dentro. Sem outra opção, o Lotus dá uma guinada para a esquerda se posicionando por fora. Ayrton freia no limite, frita novamente os pneus, mas Mansell consegue sustentar a posição. No miolo Senna arrisca novamente. Chega a ter mais de meio carro ao lado do inglês numa curva à direita, quando Mansell o joga deliberadamente para fora da pista. A câmera em perfil mostra a cena assustadora a partir de um ângulo privilegiado.

A disputa torna-se pessoal. Já não importam mais os pontos a serem ganhos ou jogados pela janela. Ayrton e Nigel eram dois animais disputando o domínio de um território. Mansell tinha dado seu recado: ele estava disposto a tudo, e Senna só voltaria a tentar se fosse louco o bastante para isso.

Volta 61. Fica claro que qualquer manobra de ultrapassagem só poderia ter sucesso no misto do circuito. Numa curva de baixa, Ayrton tem que tirar o pé para não bater na traseira do inglês. Estava valendo tudo, era um “pega” de rua.

Senna e Mansell metros antes da linha de chegada em Jerez 86 - Clique para ampliar
Volta 62. Mansell torna a jogar Ayrton para fora, obrigando-o a nova travada de pneus – é a quinta vez que as câmeras o flagram nesta situação. Meia volta à frente, num ponto impossível, inesperado, improvável, ou o que você quiser, Senna avança como um raio, inventando novo traçado para o “S”. Freia no limite entre o êxito e o acidente. Quando Mansell percebe já é tarde demais, e Ayrton não cede. Ou passava ou saiam os dois, e a briga começaria na brita mesmo. Prost, raposa que era, aproveita o espaço que surge e também deixa o Leão para trás.

Esta linda ultrapassagem, obtida na raça, na insanidade e na marra, é pouco lembrada quando se fala em Ayrton Senna. De modo curioso fala-se muito desta corrida como se Mansell tivesse parado nos boxes ainda na liderança, negligenciando-se aquela que, na minha opinião, foi uma das maiores disputas de posição já registradas em vídeo, ficando a dever apenas para a ‘corrida de bigas’ em Dijon, 1979.

Ufa! Agora sim, estava tudo decidido. Afinal, o que mais poderia acontecer? Faltavam apenas nove voltas para o fim. E é hora de nossa terceira e última reviravolta...

Mansell decide entrar nos boxes, três curvas após ter sido superado. Coloca pneus quase tão macios quanto os de classificação, e está 20,5 segundos atrás de Ayrton na volta 64. Senna e Prost diminuem o ritmo, dando o inglês como carta fora do baralho.

O mundo volta a prestar atenção na corrida quando na volta 65 Mansell desconta 4,3 segundos(!) para o líder. Neste ritmo ele venceria a prova! Senna e Prost são avisados, e tentam uma fuga desesperada. Por incrível que pareça, Ayrton parece ter mais pneus, e se distancia do francês.

Ao fim da volta 68 Nigel já está colado no McLaren de Prost, que não o segura por mais do que meia volta. Faltando três giros para o final, pouco mais de 5 segundos separam o líder Senna do segundo Mansell. Usando as últimas reservas, Ayrton consegue virar menos de dois segundos mais lento que Nigel.



Senna abre a última volta um segundo e meio à frente do Leão. Não há como descrever a tensão do momento. Nigel se aproxima a cada curva, e entra na reta final embutido no lindo Lotus preto JPS. Na linha de chegada a vantagem de Ayrton é traduzida em imperceptíveis 14 milésimos. Incertos a respeito do resultado final, seguem em disputa durante a volta de consagração, com ambos os pilotos aceitando as honras de vencedor. Somente ao descerem do carro é que confirmam a classificação. Pela primeira vez Senna sentia o sabor de liderar o campeonato mundial.

Aquela foi uma vitória muito especial, obtida num misto impossível de loucura absoluta e administração do equipamento. Foi o triunfo espetacular de um gênio da raça.

Resultado do GP da Espanha de 1986

1) Ayrton Senna (Lotus-Renault 98T), 72 voltas em 1h39min32s583
2) Nigel Mansell (Williams-Honda FW-11), + 0.014
3) Alain Prost (McLaren-TAG-Porsche MP4-2C), + 21.552
4) Keke Rosberg (McLaren-TAG-Porsche MP4-2C), + 1 volta
5) Teo Fabi (Benetton-BMW B186), + 1 volta
6) Gerhard Berger (Benetton-BMW B186), + 1 volta
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