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Uma vitória incrível e improvável 30.01.09
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Lucas Giavoni

Desde dezembro, o site www.ultimavolta.com vem publicando o especial As 99 vitórias do Brasil na F1, de onde foi retirado o texto a seguir.





França 1985

GP da França, 7ª etapa
Autódromo de Paul Ricard
Domingo, 7 de Julho de 1985

Piquet com o Brabham em Paul Ricard 85
Bernie Ecclestone, na época em que era dono da equipe Brabham, trazia sempre consigo a aura de realizar negócios financeiramente vantajosos. O problema é que nem sempre tais acordos se mostravam benéficos nas pistas. A parceria com a Alfa Romeo para fornecimento de motores entre 1975 e 1979 foi um desses tiros no pé que aliviavam o orçamento, mas que não se traduzia em vitórias.

Depois de ter um excelente ano de 1983, no bicampeonato de Piquet, o ano de 1984 não foi tão bom quanto poderia ter sido para a Brabham. A McLaren, de Niki Lauda e Alain Prost, surgiu com um chassi de equilíbrio irritante, o MP4-2, que tinha um ritmo de corrida que deixava a concorrência sem fôlego e um motor muito potente para empurrá-lo, o V6 TAG Porsche. Era o pacote perfeito de pilotos-carro-motor.

A Brabham não tinha um chassi à altura em seu BT53 e enxergou a chance de compensar isso aumentando a potência do motor BMW M12/13 de 4 cilindros, uma maneira de tentar andar na frente dos carros McLaren. Assim, os cerca de 740 cavalos de 1983 foram aumentados para 880 em 1984 - subiam para estratosféricos 1040 na versão de treinos, garantindo a Piquet nada menos que nove poles naquele ano.

Realmente aquele Brabham de 1984 comia asfalto. Por ter um turbo único e enorme, a aceleração era brutal quando os giros passavam dos 8 mil rpm e pegá-lo em reta era virtualmente impossível. Mas tanta potência significou também fragilidade. Piquet venceu só duas provas e teve uma série de quebras de motor, turbo e câmbio, todos muito exigidos com tanta cavalaria. O resultado foi um quinto lugar no campeonato.

Rosberg com Williams na Austrália 85
A Michelin retirou-se ao fim daquele ano e Ecclestone viu na Pirelli um jeito de mais uma vez fazer um negocião com seus orçamentos para 1985 e que novamente se traduziu em um tiro n’água nas pistas. O pneu italiano não fazia frente aos Goodyear e Nelson, mesmo depois de fazer muito teste de borracha em Kyalami, África do Sul, não tinha conjunto para fazer frente à McLaren, Ferrari, Williams e Lotus. Além de ter compostos inferiores nas corridas, os pneus de treino da Pirelli também não eram bons e os de chuva beiravam à piada, como foi visto no GP de Portugal.

Depois de quatro corridas sem pontuar e um insosso sexto lugar no mesmo circuito de rua de Detroit que ele triunfara no ano anterior, Piquet encontrou na corrida seguinte, na França, a única chance de conseguir um bom desempenho. O circuito de Paul Ricard possuía grandes retas – uma delas a incrível Mistral, com seus exuberantes 1850 m de extensão – o que favorecia seu voraz motor BMW e seu chassi, que tinha uma distância entreeixos muito maior que dos outros carros do grid. Além do mais, era julho e fazia um calor insuportável no sul da França, o que finalmente fazia a Pirelli ficar com alguma vantagem.

Fazendo milagre com os pneus de classificação, Piquet havia se classificado em quinto. Logo à frente, o pole era Keke Rosberg, que mostrava para todos que o motor Honda em seu Williams já era o melhor da F1. O novo habitué das poles, Ayrton Senna, largava desta vez em segundo em seu Lotus-Renault, que também mostrava-se poderoso em versão de treinos. O terceiro era o italiano Michele Alboreto, que surpreendentemente liderava o campeonato com a Ferrari naquele momento. E o quarto era aquele que lhe roubaria a liderança da tabela, corridas depois, e seria campeão do ano: Alain Prost e seu fabuloso McLaren-TAG-Porsche.



Luz verde (sim, meus amigos, luz verde... até isso a F1 perdeu) e Rosberg manteve-se bem na largada, seguido de Senna e de Piquet, que assistiu Prost largar mal e conseguiu usar o motor BMW pra acelerar mais que Alboreto antes da primeira curva. Era tempo de vácuos incríveis e borracha boa no começo do pneu. Com isso, a maioria dos pilotos, mesmo com 220 litros de gasolina, já estabelecem suas melhores voltas na segunda e terceira passagem, enquanto todos ainda andavam muito juntos.

Alboreto com Ferrari em Mônaco 85
Alboreto foi o primeiro dos pilotos da frente a abandonar, com seu motor Ferrari abrindo o bico na quinta volta, bem no final da Mistral. A esta altura, Piquet já estava colado em Senna e a ultrapassagem foi feita naquele mesmo retão duas voltas depois, à custa de muito vácuo, turbo e precisão.

Piquet conseguiu abrir distância segura para Senna - que iria logo depois para os boxes queixando-se do câmbio e teria seu motor estourado na volta 26 - e conseguiu passar Rosberg no 10º giro, quando o finlandês deixou uma brecha em uma curva do miolo. Nelson resolveu mergulhar por dentro e executou novamente uma manobra precisa, que não deixou a menor chance de revide para Rosberg.

Aproximadamente no giro 25, Piquet já tinha conseguido mais de 15 segundos de vantagem e Rosberg se via agora pressionado pela dupla da McLaren, com Niki Lauda à frente de Prost. A vida do campeão Lauda não era fácil em 1985 e voltas depois seu câmbio quebrou, deixando Prost lutar – e conseguir – a posição em cima de Rosberg.

O finlandês não se deu por satisfeito e foi para os pits, colocar borracha nova – a decisão mais acertada que ele podia tomar. Rosberg simplesmente voou na pista e na 46º passagem estabelece a melhor volta da prova, 1,5s mais rápido do que qualquer outro. Ele não só alcançou Prost como passou o francês na última volta da prova, tomando de volta seu segundo lugar – na frente de ambos, Piquet conseguiu uma improvável e incrível vitória, cruzando com seis segundos de vantagem.

No podium, Nelson não parava de apontar para o boné preto da Pirelli que estava em sua cabeça. “Eu estava muito contente com os pneus. Posso dizer que o carro funcionou muito bem, o motor funcionou muito bem, mas a superioridade que eu tive foi nos pneus”, confessou brasileiro mais tarde. Ele tinha acabado com um jejum de vitórias da marca italiana que durava desde o GP da Itália de... 1957, quando Stirling Moss havia vencido com um Vanwall.

A Pirelli conquistaria apenas mais duas vitórias na F1. O GP do México de 1986, quando Gerhard Berger venceu sua primeira prova na F1 com um Benetton-BMW - em condições de pista muito semelhantes às de Paul Ricard - e muito tempo depois, Piquet triunfaria naquele incrível GP do Canadá de 1991, em sua última vitória na categoria com uma Benettton-Ford.

Se a Pirelli venceria novamente, o mesmo não se pode dizer da gloriosa Brabham. Em corridas sem calor ou grandes retas, Piquet novamente se viu em grande desvantagem e acabaria o ano em oitavo lugar, já de malas prontas para a Williams, que mostrou ter o melhor carro da segunda metade de 1985. Era tempo de mudar. O ciclo Brabham, que havia sido delicioso para Piquet, estava encerrado.

Prost com seu McLaren MP4 2
Em 1986, a equipe fundada pelo grande Jack sofreu com um projeto mal sucedido do Brabham BT55 “Skate” e no fim de 1987, o suíço Walter Brun comprou o time de Bernie Ecclestone, que estava ocupado demais cuidando dos interesses comerciais da Formula 1 pela extinta FOCA.

Não sobrou nenhum nome lá. Gordon Murray logo se juntaria à McLaren e Ecclestone levara seu chefe de equipe Herbie Blash para trabalharem juntos na organização. O chefe de mecânicos Charlie Whiting logo se tornaria delegado técnico da FIA e é atualmente o diretor de provas da F1. Sobrou apenas o próprio nome Brabham, que se esvaiu melancolicamente no fim de 1992.

Piquet agora teria um novo ciclo na Williams. Não tão alegre e duradouro quanto foi o da Brabham, mas que seria vitorioso e se traduziria em vitórias e muita rivalidade. Estava finalmente formado o cenário para que ele, Nigel Mansell, Alain Prost e Ayrton Senna começassem a se pegar nas pistas. O incrível quarteto que marcou uma geração de fãs e entusiastas.

Resultado do GP da França de 1985

1) Nelson Piquet (Brabham-BMW BT54), 53 voltas em 1h31min46s266
2) Keke Rosberg (Williams-Honda FW10), + 6.660
3) Alain Prost (McLaren-TAG-Porsche MP4-2B), + 9.285
4) Stefan Johansson (Ferrari 156), + 53.421
5) Elio de Angelis (Lotus-Renault 97T), + 53.690
6) Patrick Tambay (Renault RE60B), + 1 volta
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