A pequena cidade de Kerpen, noroeste da Alemanha, conta há muitos anos com um kartódromo de estrutura bastante razoável. É uma pista pequena e muito sinuosa, situada à beira de uma estrada e cercada por grandes áreas verdes. Ao lado da pista, em tempos idos, havia uma espécie de cantina, que logo passou a ser administrada por uma família humilde e apaixonada por aqueles pequenos carros de corrida. O primogênito da família, um jovem e queixudo alemão, era quem mais se destacava naquelas retas e curvas.
Então, em 1983, quando o jovem queixudo tinha 14 anos, o kartódromo de Kerpen foi sede para um evento de alguma relevância, que tinha a pretensão de ser uma espécie de Campeonato Mundial Júnior de kart. Talvez não tenha chegado a isso, mas a verdade é que alguns dos melhores kartistas europeus na faixa dos 14 e 15 anos estiveram lá. O queixudo, claro, estava entre eles, com a missão de defender as honras da casa.
Entre os estrangeiros, porém, havia um loirinho finlandês muito rápido e abusado. Apenas três meses mais velho que o alemão queixudo, o garoto da Finlândia também tinha origens humildes (era filho de um taxista e uma secretária), e um talento muito especial. Sem qualquer respeito pela estrela local, o menino tratou de justificar os custos da viagem – parcialmente bancados com a ajuda do então campeão Keke Rosberg – e bateu o queixudo em sua própria terra. Venceu todas as series em que participou, e a Finlândia foi campeã européia por equipes.
Naquela altura ninguém poderia imaginar, mas aqueles dois meninos venceriam 9 títulos mundiais na Fórmula 1. Seus nomes? Mika Häkkinen e Michael Schumacher...
2º ato: Macau, 1990
Sete anos mais tarde, os jovens kartistas já haviam construído uma sólida reputação, e surgiam como as maiores estrelas européias da Fórmula 3. Mika dominando o campeonato inglês, e Michael o alemão. A rivalidade entre os dois era crescente, e aumentou ainda mais quando Häkkinen, já campeão inglês, foi convidado pela West Surrey Racing a participar da última etapa do campeonato alemão, em Hockenheim. A prova não significava nada em termos de campeonato, pois Schumacher já era o campeão antecipado. Mas valia muito em termos de afirmação. E eis que Häkkinen fez a pole e novamente venceu com autoridade na casa de seu adversário. O próximo encontro entre os dois seria no prestigiado e desafiador Circuito da Guia, em Macau.
Ambos já conheciam a pista, pois haviam tentado a sorte por lá no ano anterior. Schumacher, inclusive, vencera uma das baterias e vinha bem na segunda, até sofrer com problemas de câmbio. Häkkinen não tinha lembranças tão boas, pois, guiando para uma equipe limitada, havia sido apenas o 15º no geral. Além dos dois, a edição de 1990 do GP de Macau contava ainda com diversos outros nomes que se tornariam conhecidos mais tarde. Heinz-Harald Frentzen, Mika Salo, Eddie Irvine, e Laurent Aiello estavam entre eles. A primeira fila, porém, coube aos dois rivais. Com Häkkinen mais uma vez na pole.
Na largada da 1ª bateria Mika manteve a liderança, enquanto Schumacher patinou e foi superado por dois adversários - Irvine era um deles. Ao fim da primeira volta o alemão já era o terceiro, mas via Häkkinen escapar cada vez mais ao seu alcance. Quando finalmente conseguiu superar seu futuro companheiro de Ferrari, ao fim da terceira volta, Schumacher já tinha 5,49 segundos para descontar. Embora tenha se esforçado muito e inclusive assinalado a volta mais rápida da corrida, mais uma vez o queixudo de Kerpen teve que se contentar com a segunda posição, atrás do menino da Finlândia.
Na segunda bateria, a vitória era o único resultado que interessava a Schumacher. Dada a luz verde Häkkinen mais uma vez confirmou a liderança, enquanto Michael mais uma vez largou mal. Desta vez, porém, o alemão partiu como um raio para cima do finlandês, guiando “como se da vitória dependesse sua própria vida”, na descrição do escritor Timothy Collings, e assim conseguiu a ultrapassagem.
Häkkinen, porém, tinha a situação sob controle, pois não apenas demonstrava ter um carro mais veloz nas retas, como também havia vencido a primeira bateria com uma vantagem superior a 2,6 segundos. Ou seja, se continuasse próximo a Schumacher, seria o vencedor no geral pela soma dos tempos. E assim foi durante toda a prova. “Quando vi que ele não descolava, percebi que ele ia ganhar a corrida”, contou Schumacher. “Nas ruas da cidade eu era mais rápido que o Mika, mas ele aproximava-se nas retas. Pensei que ele estava brincando comigo, e que me passaria na hora que quisesse.”
A pressão de Mika era terrível. Por voltas seguidas, ambos viraram tempos abaixo da pole position e não estiveram separados por mais de meio segundo durante quase toda a prova. Schumacher, porém, não cometia nenhum erro. Ambos iam abrir a última volta, e para ser o vencedor Häkkinen precisava apenas continuar onde estava. Não havia nada que Michael pudesse fazer. E assim nós chegamos a um daqueles momentos no qual o piloto precisa responder que tipo de biografia quer escrever para si mesmo.
Um tipo cerebral, como Alain Prost, Niki Lauda ou Emerson Fittipaldi, certamente teria continuado próximo a Schumacher, correndo com o regulamento no bolso. Mas... e quanto a Häkkinen?
Na abertura da última volta Schumacher errou. Um erro pequeno, mínimo, certamente menor do que outros que marcariam algumas provas decisivas ao longo de sua carreira. Mas errou, e isso foi o bastante para que Häkkinen jogasse tudo contra nada numa tentativa de ultrapassagem, na qual o que estava em jogo era apenas a rivalidade insana de ambos. Percebendo o que se passava, Schumacher fechou a trajetória e os dois bateram. Mika abandonou, enquanto o garoto de Kerpen conseguiu levar o carro avariado até fim, conquistando a vitória no geral.
Por que Häkkinen arriscou tudo, quando ele era o único que tinha algo a perder? “Eu estava habituado a ir às provas para vencer”, disse ele. “Não tinha o costume de me retrair. Achei que ele era mais lento do que eu, talvez uns 10 km/h, e o que não seria natural era eu não tentar ultrapassá-lo. Por isso, a razão por que tentei passa-lo é simples. Sou um piloto de competição e queria ganhar. Pareceu-me uma oportunidade fácil. Por que não haveria de tentar?”
Sob muitos aspectos, o GP de Macau de 1990 resumiu e antecipou a história de toda uma geração na Fórmula 1. Passado algum tempo, ao relembrar aquela disputa entre os dois, o jornalista Christoph Schulte proferiu algumas palavras proféticas. “Foi fantástico. Vi tudo o que se passou e achei espantoso. Estou certo de que, um dia, ainda hão de ter outra disputa deste tipo, no decorrer das suas carreiras na Fórmula 1. Desde aquele dia, tenho a certeza de que Mika está à espera da oportunidade de acertar as contas com Michael. Só de uma boa oportunidade.”
3º ato: Spa-Francorchamps, 2000
Dez anos após aquele inesquecível GP em Macau, os dois rivais já eram bicampeões consagrados na história da Fórmula 1. Cada um, a seu modo, podia se orgulhar de vitórias muito significativas ao longo da carreira.
O alemão de Kerpen teve um caminho relativamente mais fácil. Guiou para equipes boas por toda a carreira, e quase sempre teve carros igualmente bons. Quando os dois largaram naquele GP da Bélgica, Schumacher corria para igualar as 41 vitórias de Ayrton Senna – uma marca certamente importante para ele. Já Häkkinen, embora igualmente bicampeão, havia enfrentado obstáculos bem maiores ao longo dos anos anteriores. Estreou numa Lotus já agonizante e depois migrou para a McLaren num período difícil para a equipe, apenas para quase morrer nos treinos para o GP da Austrália de 1995.
Recuperou-se, superou o trauma e venceu em grande estilo dois campeonatos seguidos. O que ninguém poderia imaginar é que a corrida em Macau, após tanto tempo e tantos altos e baixos, continuasse atravessada em sua garganta.
Cinco voltas para o fim, Schumacher na liderança com um carro que perdia em retas, perseguido implacavelmente por Häkkinen. Quem se lembrava de Macau, sentia a sensação de já ter visto aquele filme. As palavras de Schulte de repente começaram a fazer sentido, quando Mika mostrou toda sua classe numa Eau Rouge inspiradíssima. O McLaren rasgou pela Stavelot como uma verdadeira flecha, e a ultrapassagem seria uma mera formalidade.
Seria, não fossem os pilotos em questão aqueles garotos de Macau. Exatamente como 10 anos antes, Schumacher fechou a trajetória, deixando o finlandês sem espaço. A manobra foi um replay do que havia sido visto no passado, mas dessa vez Mika recolheu. O incidente deve ter acordado alguns fantasmas adormecidos no espírito de Häkkinen, pois o que aconteceu nos 7 quilômetros seguintes não foi apenas uma volta a mais em um GP. Bicampeões do mundo, Mika e Michael de repente voltavam a ser os meninos da prova em Kerpen, os jovens leões da Fórmula 3. Não era mais o campeonato que estava em jogo, e sim um velho negócio inacabado. Mika definitivamente tinha contas a acertar com Schumacher.
O cenário estava pronto. Algo de especial estava para acontecer.
Ao longo de mais uma volta os dois voaram pela pista belga andando nos limites, com Häkkinen fazendo malabarismos para conduzir o McLaren na turbulência do Ferrari. Estava claro que ele ia tentar mais uma vez, e o local também já era conhecido - novamente seria na Stavelot. Um choque entre os dois, como o que havia ocorrido 10 anos atrás era certamente o fim mais provável dessa história. Só que, dessa vez, o destino interveio na forma do vagaroso BAR de Ricardo Zonta.
Saindo da Eau Rouge, Häkkinen mais uma vez vinha com muita ação para cima da Ferrari. À frente dos dois estava Zonta, e a necessidade de ultrapassar o retardatário brasileiro impediu Schumacher de novamente fechar a porta. Num átimo de segundo o alemão escolheu a trajetória da esquerda, dando a Mika uma arriscada chance de superar aos dois. E foi isso que o bravo finlandês fez, materializando uma das mais belas e significativas manobras de ultrapassagem da história da Fórmula 1.
“Mika deu o troco, com uma década de juros,” resumiu o jornalista Lucas Giavoni. Certamente um dos momentos mais carregados de significado na rica história do esporte a motor.