de la Rosa teste o FI ontem, em Barcelona A seguir, mais fotos dos testes de ontem
Uma tecnologia revolucionária, com potencial para alterar profundamente a centenária e pouco nobre relação entre motores a explosão, emissão de poluentes e consumo de combustível. Uma poderosa e estratégica falácia nas mãos de protagonistas de um intrincado jogo político. O Kers é ambas as coisas - e muito mais.
Comecemos explicando a sigla, pois tanto fãs do automobilismo quanto motoristas comuns de carros de passeio dos próximos anos devem tratar de se familiarizar com ela. Kers é uma sigla vinda do inglês Kinetic Energy Recovery System, que pode ser traduzida para o português como "Sistema de Recuperação de Energia Cinética". Mas afinal, o que significa isso?
Grosso modo, o Kers visa aproveitar a energia dissipada na frenagem de um veículo, processo este que é encarado pelos engenheiros como o que mais desperdiça energia em um carro.
Para ganhar velocidade (sempre falando em valores relativos a um referencial fixo), o motor converte parte da energia química (e posteriormente térmica) do combustível em energia cinética (de movimento). Há um natural consumo das reservas de combustível nesse processo.
di Grassi com o Honda
Ao pisarmos no freio, transformamos essa energia cinética conseguida em energia térmica - as pastilhas atritam com o disco de freio, o que reduz a velocidade. Acontece que essa energia térmica não é armazenada, nem pode ser reaproveitada. Os discos e pastilhas aquecem apenas para resfriarem naturalmente segundos depois. Se o motorista quiser gerar nova movimentação, então terá que gastar nova quantidade de combustível. Toda a energia utilizada instantes antes foi perdida.
Este ciclo deficitário repete-se há mais de 120 anos em nossos carros de passeio, e faz a alegria de empresas petrolíferas e donos de postos de combustível há muito tempo. Além de representar um verdadeiro desastre para o meio-ambiente terrestre.
Pois o Kers nasce justamente com o intuito de alterar essa lógica - ou ao menos reduzir o prejuízo deste ciclo. Basicamente, ele trabalha em duas frentes: armazenar em baterias parte da energia térmica gerada pelos freios (por meio de alternadores), e devolvê-la novamente em forma de energia cinética, auxiliando o trabalho do motor. Trocando em miúdos, através do Kers, uma boa parcela da energia gasta para colocar o carro em movimento poderá ser reaproveitada após a utilização dos freios.
Não é preciso refletir muito para avaliar o tamanho do horizonte que se abre. Quando tal tecnologia estiver dominada, o consumo de combustível dos carros de passeio poderá cair de modo considerável. Isso sem mencionar os benefícios diretos à atmosfera. Não deixa de ser uma boa notícia, portanto, que o Kers seja introduzido na Formula 1 já em 2009, onde poderá ser desenvolvido num ritmo certamente mais rápido do que demandaria o mercado dos carros de luxo, uma vez que a F1 sempre teve vocação de laboratório da indústria automobilística.
Ocorre, porém, que a F1 tem seus próprios interesses, e eles muitas vezes não são os mesmos da indústria automotiva e seus consumidores. Para começar, na F1 os carros são pensados unicamente em função do desempenho, e o consumo de combustível é no máximo um fator secundário nessa equação. O que interessa realmente é aumentar a potência do carro. Portanto, qualquer evolução na parte do Kers que cuida do armazenamento de energia segue sendo útil aos veículos de passeio, enquanto que de imediato a devolução desta energia se desvia, na F1, daquilo que poderia beneficiar o meio-ambiente.
Vettel foi o mais rápido da 3a feira
Max Mosley, presidente da FIA, tem plena consciência disso. Ele sabe perfeitamente que, na F1, toda e qualquer energia que seja acumulada pelo Kers será devolvida na forma de uma momentânea potência extra, que não vai reduzir em nada o consumo de combustível, mas será ótima para mascarar algumas de suas muitas falhas administrativas e trazer de volta alguma esperança de ultrapassagens.
Sendo conhecido o caráter de Mosley, não deve surpreender a ninguém que ele omita certos aspectos do novo aparato e aproveite a ocasião para se promover politicamente, mesmo que isso eventualmente coloque em risco a segurança de quem tem que lidar diretamente com a nova peça. Certamente é mais fácil fazer discursos ecologicamente corretos e definir prazos arbitrários do que ser o responsável por encontrar certas soluções. Max não disse, por exemplo, qual seria a localização mais segura para as baterias, nem como elas poderão ser recicladas.
Tampouco se mostrou preocupado com o acidente na fábrica da Red Bull, em 17 de Julho, quando uma das baterias testadas pela equipe causou um incêndio. Ou então com o mecânico da BMW, que precisou ser hospitalizado ao sofrer uma fortíssima descarga elétrica ao simplesmente tocar num carro equipado com o Kers em testes no circuito de Jerez, apenas uma semana depois.
Gary Paffett com o McLaren usado este ano Amplie e compare com a imagem abaixo - Clique para ampliar
Entre chicotadas e canetadas do presidente da FIA, as equipes discutem qual seria o melhor prazo para a introdução do sistema em corridas. Parte delas mostra-se favorável ao emprego do Kers já no próximo ano, confiando na proverbial capacidade técnica de seus departamentos tecnológicos - onde sempre acabam parando as batatas quentes. Nesse pensamento já se encontram Williams, BMW e Honda. Já a Toyota simplesmente afirma que consegue aprontar seu sistema a tempo, se este for o prazo.
Em meio a tudo isso, os pilotos mostram-se preocupados, pois nenhuma causa foi identificada para o que ocorreu no carro da BMW. Mark Webber, diretor da GPDA (Associação dos Pilotos de Grand Prix), traduziu a desconfiança dos competidores da seguinte forma: "É como um acidente aéreo que não deixa evidências".
Heidfeld com o BMW já enquadrado no regulamento de 2009 - Clique para ampliar
Cabe, portanto a discussão. Certamente o Kers representa a possibilidade de um novo estágio para os motores a explosão, e por isso mesmo seria desejável que o auge da tecnologia automotiva - a F1 - estivesse ligado ao seu desenvolvimento. Porém, não deixa de ser preocupante que uma tecnologia tão nova, importante (e por enquanto um tanto perigosa), tenha seus rumos ditados por interesses inconfessáveis de gente como Max Mosley.
Ao que parece, Mosley quer fazer do Kers na F1 uma versão muito mais cara do famigerado e pouco esportivo gás "Nitro" (óxido nitroso), que serve simplesmente para aumentar a potência e promover ultrapassagens.