O que torna um piloto especial? Por que pilotos de sucesso nas categorias de base sucumbem na Fórmula 1? A resposta pode estar em três itens que, combinados, moldam o perfil de cada piloto: capacidade mental + velocidade + técnica. Os grandes campeões são aqueles que conseguem reunir todas estas qualidades.
Acho que em toda história da Fórmula 1, houve não mais do que seis pilotos excepcionais. Considero que no topo da lista estão Jim Clark e Ayrton Senna. São certamente os maiores talentos naturais surgidos na Fórmula 1 e que, além de extremamente rápidos, conseguiam atingir um nível de concentração acima da média.
Jim Clark foi um talento raro, capaz de se expressar de maneira eficiente em qualquer tipo de carro. Alguém disse que, se tivesse parado para pensar sobre seu extremo talento, Clark ter-se-ia perguntado por que os outros não pilotam da mesma forma.
Maior talento natural surgido desde Jim Clark, Ayrton Senna elevou ao nível máximo todos os critérios de avaliação. O nível de controle emocional que conseguia alcançar estabeleceu novas referências para o esporte e sua velocidade certamente obrigou seus adversários diretos
como Prost, Piquet e Mansell a redimensionarem seus respectivos limites. Ao contrário do escocês, que parece nunca ter se apercebido o
quanto bom era, Senna sempre teve uma perfeita noção de seu enorme talento. Até hoje, 15 anos após a sua morte, suas performances exuberantes servem como referência na avaliação de cada novo talento que surge.
Muito próximo a estes dois nomes, Alain Prost também conseguia reunir tais qualidades em um nível altíssimo, quase ao máximo eu diria. Lembro-me que sua principal característica era fazer, graças a uma técnica privilegiada, uma condução extremamente refinada que lhe permitia, não poucas vezes, conservar seus pneus ao mesmo tempo em que ia baixando os tempos de volta. O simples fato de ter sido um adversário à altura de Senna prova o seu valor de modo incontestável.
Acredito que Jackie Stewart e Emerson Fittipaldi estavam bem próximos nos três quesitos. Muito técnicos, ambos conseguiam trabalhar muito bem o controle emocional. Em termos de velocidade, embora não tenham sido os pilotos mais rápidos de suas épocas, conseguiam
compensar isso com uma inteligência tática diferenciada. Suas corridas - em uma época em que não existia o pits-top para reabastecimento ou troca de pneus - eram estratégicas e a impressão que se tinha,
é que eles antecipavam os acontecimentos na pista.
Nelson Piquet é o exemplo clássico de um piloto que, segundo suas próprias palavras, "aprendeu em cima do carro". Não tendo sido agraciado com um talento natural privilegiado como o de Clark ou Senna, o grande mérito de Piquet foi, através de muito trabalho, ter sabido desenvolver suas grandes qualidades. Em termos de velocidade, por exemplo, chegou a atingir quase o mesmo nível de Senna. Dono de uma técnica bastante apurada, Piquet foi seguramente o piloto mais inteligente de sua época tendo sido este o seu maior diferencial.
Nigel Mansell era, acima de tudo, um velocista. Neste quesito, creio que somente Alain Prost e Ayrton Senna poderiam se equiparar ao inglês. A técnica de Mansell ao volante era única e bastante pessoal, pois era
totalmente voltada para o objetivo de atingir a maior velocidade possível, ainda que o equipamento sofresse algum dano por conta disso. Ao contrário de todos os pilotos citados, Mansell tinha um
ponto débil que o colocava em nítida desvantagem face aos seus adversários. Me refiro ao controle emocional, que em momento algum ele conseguiu desenvolver em um nível sequer próximo ao de seus
oponentes. A quantidade de erros que cometeu em sua carreira, na imensa maioria das vezes por falta de controle emocional, explica por que dos quatro títulos que disputou, venceu somente um. No entanto, na minha memória, as performances mais exuberantes do inglês
não foram as vitórias que o levaram ao título de 1992 e sim o seu soberbo desempenho na temporada de 1986.
Damon Hill, para mim, sempre teve a imagem de um piloto esforçado. Suas limitações desde cedo ficaram claras. Mas, com muita personalidade, Hill foi desenvolvendo suas habilidades a ponto de ter tido a chance de disputar dois campeonatos, algo que dificilmente poderia se esperar dele. Curiosamente, no tripé de quesitos que estamos fazendo nossa avaliação, Hill conseguiu se desenvolver linearmente nos três itens, o que lhe conferiu um nível de performance
bastante elevado visto que, não raras vezes, conseguia confrontar-se com Michel Schumacher.
A exemplo de Hill, Mika Hakkinen ao confrontar-se seguidamente com
Schumacher, viu-se igualmente compelido a elevar os seus níveis de performance. Ainda que em momento algum ele tenha estabelecido um nível igual ao do alemão em nosso critério de avaliação, Hakkinen teve diversos momentos brilhantes. Seu mérito maior,contudo, foi não ter deixado escapar as duas únicas chances que teve de se sagrar campeão do mundo.
Michael Schumacher sentiu-se à vontade logo que desembarcou na F1 graças ao seu enorme talento natural. Em 94, as performances de
Schumacher seriam postas à prova face ao talento de Senna. Porém, logo percebeu-se que um comparativo justo não seria possível, visto que Senna encontrava-se em apuros com um carro problemático. Isto, no entanto, não o impediu de colocar-se à frente de Schumacher nas três provas de qualificação de que participou naquele ano podendo, talvez, ser este um precioso indicativo de que, no quesito velocidade,
Schumacher - talvez - ficasse em um nível ligeiramente abaixo de Senna. A morte do brasileiro, no entanto, acabou nos privando de testemunhar o que seria uma das maiores disputas da história da categoria e marcou foi o início de uma série de fatos que, combinados,
contribuíram de forma decisiva para eternizar o nome de Michael Schumacher.
Após quatro temporadas correndo pela Ferrari sem conquistar nenhum título, o então já bi campeão inicia a partir do ano 2000 um domínio jamais visto. Uma perfeita combinação de fatores explica esta meia década de domínio. O primeiro destes fatores é que, Schumacher era, de fato, o melhor piloto de sua época e, embora bastante desenvolvidos em suas capacidades, Jacques Villeneuve, Damon Hill e Mika Hakkinen estavam em um nível abaixo do alemão.
Contratado como segundo piloto de Schumacher, Rubens Barrichello, a princípio, deve ter imaginado que com um equipamento semelhante, teria alguma chance de enfrentar o alemão mas rapidamente se deu conta que, além de perder - bastante - para Schumacher no quesito velocidade, o nível de concentração alcançado pelo alemão também era superior ao seu. A favor de Barrichello, somente o item técnica no qual os dois se equivaliam mas com uma ligeira vantagem para Rubens que além de possuir uma habilidade incomum para guiar no molhado, tinha um estilo de condução mais suave que o alemão sendo ele, e não Schumacher, a fonte de dados preferida pala Bridgestone.
Não bastasse isso, Rubens, que teoricamente era o único piloto com equipamento à altura de estabelecer uma disputa justa com Schumacher na pista, era compelido a não fazê-lo, a fim de não comprometer a série de conquistas do alemão.
Tendo obtido muito sucesso no automobilismo norte-americano, Juan Pablo Montoya chegou à F1 em 2001 tido como o homem que poria um fim no domínio de Michael Schumacher. Com o passar do tempo, porém, Montoya revelou-se um piloto que chegou e saiu da F1 sem nunca tê-la entendido totalmente. Talvez por isso, embora tenha deixado a categoria com sete vitórias, nunca se evidenciou um
crescimento do colombiano como piloto.
Em nosso critério de avaliação, o colombiano - na minha opinião - não
conseguiu, em tempo algum, alcançar o seu nível máximo em nenhum dos quesitos. Não que lhe faltasse talento; faltou interesse e, sobretudo, humildade para entender que a F1 é algo diferente de tudo e que até mesmo um piloto talentoso como ele teria que desenvolver suas
habilidades.
Assim, sem concorrentes à sua altura, e guiando o melhor carro do grid, Schumacher encontrou o ambiente ideal para construir uma autêntica coleção de recordes. Seu domínio chegou ao ponto de, em 2004, por exemplo, alcançar 12 vitórias nas 13 primeiras provas da temporada, sendo 7 delas consecutivamente. Há quem o considere - por seus
números incríveis - o maior piloto de todos os tempos. Embora eu não conteste esta opinião, prefiro classificá-lo como o melhor de uma determinada época. Época esta em que, as circunstâncias, o favoreceram de maneira sobrenatural para que tais números se
tornassem possíveis. Considerando que para a saúde da categoria, um domínio parecido não deva mais se repetir.
Ao falar da F1 de hoje, vemos quatro nomes em destaque: Alonso, Kimi, Massa e Hamilton.
Alonso e Kimi estrearam na F1 em 2001 e Massa em 2002 sendo os três, portanto, da mesma geração. São pilotos com características bem parecidas embora haja algumas particularidades bastante interessantes que merecem ser analisadas. Alonso é definitivamente um piloto top, no nível de Schumacher, por exemplo. No nosso critério de avaliação, ele está acima da média em controle emocional e em técnica. Tem
um talento natural como há muito não se via e sua forma de guiar, suave e rápido, lembra muito Alain Prost. Não foi por acaso que Schumacher viu nele qualidades suficientes para fazê-lo decidir-se
pela aposentadoria.
Ao ver Kimi, sempre tenho a impressão que ele não está totalmente
focalizado em seus objetivos mas, evidentemente, isso é só uma impressão, como comprova o seu soberbo desempenho na temporada passada. Como Alonso, Kimi é um piloto muito forte e, ao contrário do que parece, seu nível de concentração é excelente. Devido a uma técnica
muito apurada, erra pouco e suas atuações são bastante regulares.
Massa está claramente em um nível abaixo de Alonso e Kimi. Suas características naturais são bastante diferentes, se caracterizando por uma pilotagem mais agressiva. Kimi, embora - aparentemente - não tão rápido, se torna mais eficiente devido à sua regularidade enquanto Massa comete um maior número de erros.
As performances extremamente regulares de Kimi em 2007 foram para Massa um balde de água fria. Ao início do ano, era ele quem partia em vantagem no confronto direto com seu companheiro. Kimi, no entanto, cumpriu o seu papel silenciosamente e em Interlagos estava na posição em que deveria estar. Analisando cuidadosamente, vemos que Massa, embora tenha potencial para vencer corridas, é mais frágil que seus oponentes, no conjunto. Parece faltar a ele, refinar a sua técnica ao guiar e elevar o nível de controle emocional, fonte de erros.
Utilizar a primeira temporada de um piloto como critério de avaliação pode parecer incoerente e precipitado, porém, como estamos falando de Lewis Hamilton, creio que podemos abrir esta exceção. Afinal, não é todo dia que um piloto faz uma temporada de estréia conquistando o vice-campeonato.
Voltando a utilizar o nosso critério de avaliação, fica fácil perceber que Hamilton atinge o nível máximo em dois dos três quesitos. Seu ponto
vulnerável na temporada de estréia acabou sendo o controle emocional, que falhou no momento decisivo. Falando em termos de velocidade, eu
arriscaria dizer com toda segurança que, hoje, Hamilton é o piloto mais rápido do grid. A forma como Hamilton venceu debaixo daquele temporal em Fuji, deve ter assombrado muita gente.
A pergunta é: até onde Lewis Hamilton poderá chegar? Estaríamos nós
testemunhando, hoje, o aparecimento de um novo extraclasse? Eu diria que mais duas ou três temporadas serão suficientes para responder esta pergunta.
Guilherme Bezerra
(Texto enviado em março de 2008)