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Um personagem fascinante 12.03.08
Escreva pra gente


Márcio Madeira da Cunha

Lauda tricampeão mundial de F1, em 75, 77 e 84
Niki Lauda é mesmo um personagem fascinante. Dentre todos os pilotos que conseguiram chegar à Fórmula 1, poucos podem se orgulhar de terem vencido o campeonato mundial. E, dentre esses nomes, quais outros poderiam olhar para trás, e concluir que o grande ponto de mudança de suas vidas não veio com o título, e sim em conquistas posteriores muito mais simbólicas? Bom, Niki certamente pode.





Na Áustria do pós-guerra o sobrenome Lauda já era bastante conhecido, embora sua fama não viesse das páginas de esporte, e sim das de economia. Conservadora e muito respeitada, a família fizera fortuna na indústria do papel. Quando em 1968 – exatamente uma semana após a morte de Jim Clark – Lauda deu início à sua carreira de piloto (com uma segunda colocação ao volante de seu Mini-Cooper pessoal numa prova de subida de montanha), estava batendo de frente com tudo que o clã poderia esperar do jovem herdeiro. Dono de uma personalidade marcante e um espírito rebelde, Lauda não aceita as imposições de seus pais e rompe totalmente com a família e o conforto. Somente após o acidente de Nürburgring, oito anos mais tarde, Niki voltaria a ter um relacionamento normal com seus progenitores.

Não fosse Lauda dono de uma inteligência aguda e uma autoconfiança que freqüentemente invadia os terrenos da irresponsabilidade, e certamente seu sonho de ser campeão mundial teria ficado pelo caminho. A rigor, sua ascensão rumo ao topo do automobilismo deveu-se muito mais a altas doses de teimosia e desprendimento do que propriamente a um desempenho fulgurante nas categorias de base. Tudo, é claro, conjugado com empréstimos que seriam impagáveis em qualquer outra hipótese que não fosse o sucesso nas pistas. Situação que, ao menos uma vez, o levou a considerar seriamente o suicídio.

A sorte de Lauda muda após uma exibição de gala no GP de Mônaco de 1973, ao volante do obsoleto BRM. Pela tevê, o olhar clínico de Enzo Ferrari enxergou naquele piloto até então invisível as qualidades de um campeão mundial. Tinha início dessa forma uma tumultuada relação entre duas das maiores lendas das pistas em todos os tempos.





O sucesso de Lauda nos dois primeiros anos de Ferrari é conhecido: dezoito poles, sete vitórias e um campeonato mundial. Também é de domínio público que a personalidade e o sucesso de Lauda deram novo significado ao profissionalismo nas pistas, e criaram muito desconforto à sua volta. O que pouca gente recorda é que os problemas de Lauda, em 1976, começaram muito antes da batida no ‘Ring’.

Para início de conversa, seu grande amigo Luca di Montezemolo havia sido promovido a um cargo administrativo, tornando-se o encarregado de fazer a ligação entre a escuderia e a FIAT. Para seu lugar, na direção do time, foi trazido um jovem nome da Lancia, Daniele Audetto.



Lauda vence as duas primeiras provas do ano, no Brasil e na África do Sul, correndo ainda com o modelo T, de 1975. Com a transferência de Fittipaldi para a Copersucar, o bicampeonato do austríaco parecia uma questão de tempo. Bastou, porém, que Clay Regazzoni vencesse a prova nas ruas de Long Beach para que Niki vislumbrasse um possível favorecimento de Audetto ao piloto suíço. Verdade ou não, o fato é que, sem a presença de Montezemolo, crescia a cada dia em Lauda a sensação de estar correndo por conta própria.

Quando as equipes retornaram à Europa, Lauda tirou uns dias de folga para cuidar de sua nova casa. Havia um intervalo de mais de um mês sem corridas e Niki estava para se casar com Marlene, ainda naquela primavera. É então que ocorre o primeiro episódio insólito da temporada.

Existia uma elevação no local do terreno onde o austríaco planejava construir sua piscina. Para aplainar a área, Niki pegou o trator de um vizinho emprestado. A máquina certamente não era veloz como uma Ferrari, mas tinha suas manhas. Lauda descobriu isso da pior maneira quando perdeu o controle do veículo, que capotou. O piloto teve muita sorte de não morrer no acidente. O lado direito de seu corpo, porém, ficou seriamente machucado, tendo como saldo final duas costelas quebradas e muitas, muitas dores.

Se a sorte quis que o acidente não tivesse maiores proporções, o mesmo não se pode dizer da inflamada imprensa italiana. Quando Lauda admitiu que sua participação no GP espanhol era incerta, manifestou-se o velho sonho nacional de ver um piloto italiano guiando um dos vencedores carros de Maranello. Nesse momento delicado para o campeão, Audetto assume um papel dúbio e incerto, enfatizando a presença de Regazzoni no time. Enzo Ferrari, por sua vez um tanto desorientado diante de todos os acontecimentos, também não se esforçou por encerrar toda aquela tempestade em copo d’água.

Lauda e Depailler em Long Beach 76 Alguém está indo para o lado errado
A coisa toda foge ao controle, no melhor estilo italiano. O ponto mais baixo da crise se dá numa entrevista que Lauda concede por telefone, ainda em seu leito no hospital. Numa certa altura o jornalista lhe pergunta o que ele achava da idéia de ser substituído por um piloto italiano. Naturalmente irritado, Lauda afirma que os pilotos italianos eram bons, no máximo, para correrem em volta da igreja. Essa declaração, hoje podemos identificar, foi o point of no return de sua relação com os italianos. A partir daí, Niki passa a encarar sua recuperação como uma questão de honra. E é nessa altura que ele conhece o ‘mago’ Wily Dungl, que cuidaria de sua preparação física até sua aposentadoria, em 1985.

Por duas semanas Lauda se submete ao tratamento prescrito por Dungl, e quando os carros alinham no grid de Jarama, lá estava ele ao volante do novíssimo Ferrari 312 T2. Hunt vence a prova, com Lauda num bravo e brilhante segundo lugar, apesar das fortes dores. O piloto inglês chega a ser desclassificado por culpa de um aerofólio mais alto que o permitido em seu McLaren, sendo depois considerado inocente. Foi sem dúvida uma vitória pessoal de Lauda, traindo toda a humanidade que se escondia atrás de sua máscara de pragmatismo.

Niki vence as duas provas seguintes, na Bélgica e em Mônaco, dando uma resposta firme aos que puseram em dúvida o seu valor – a começar, claro, por Daniele Audetto. A expressão de Lauda no pódio em Mônaco foi forte e reveladora o bastante para merecer a atenção de um certo Eduardo Correa, em seu livro ‘Pela Glória e Pela Pátria’:

- O acidente de Lauda em Nürburgring não me surpreendeu. Eu guardara a nítida lembrança da expressão de Lauda logo depois de sua vitória em Mônaco, em 76. (...) Seu rosto, ao lado do príncipe Rainier, traía muito mais do que o empenho físico: transmitia um esgotamento longamente acumulado, volta após volta de corridas, treinos e viagens. (...) Em Mônaco, era fácil perceber que Lauda se aproximava de um ponto de esgotamento que prenunciava alguma ruptura dramática; isso estava estampado em seu rosto: bastava olhar.







Lauda é terceiro na Suécia, e quebra quando liderava com folga na França. Duas semanas mais tarde, protagoniza um duelo inesquecível com seu amigo James Hunt, que vence a prova para ser posteriormente desclassificado. A corrida seguinte, na Alemanha, reserva a Lauda o terrível acidente narrado pelo Edu em 26/11/2007, sobre o qual nada tenho a acrescentar.

Entre Nürburgring e Monza, o inferno de Lauda é completo. Não bastasse a luta contra a morte, o piloto ainda é obrigado a lidar com os convites da Ferrari a Fittipaldi e Reutemann, além da pior demonstração de solidariedade que poderia receber: a desistência da equipe em relação ao GP austríaco. Niki fica compreensivelmente indignado, pois Regazzoni poderia ter roubado alguns pontos de Hunt nessa prova. A questão inclusive chegou a ser discutida com Enzo Ferrari, que permaneceu irredutível. Levaria ainda algum tempo até que Lauda compreendesse a razão desta postura por parte do Comendador...



Clay não consegue de impedir a vitória de Hunt na Holanda. Quinze dias depois, em Monza, Niki alinha no grid, e assume definitivamente sua condição de mito. Apesar de seu estado precário, consegue bater seus dois companheiros de equipe. Lauda, a essa altura, já não era um nome familiar apenas aos amantes do automobilismo. O piloto havia se tornado uma personalidade maior que o próprio esporte.

A história mostra que o desenvolvimento do modelo 312 T2 foi muito prejudicado pela ausência do campeão. Além disso, a inscrição do terceiro carro em Monza não apenas reduzia a já pequena competitividade, como também tornava irrespirável o ar dentro dos boxes da Ferrari. Nas provas finais, Reutemann não seria mais chamado.

Niki é apenas o oitavo no Canadá. Nos EUA consegue um importante terceiro lugar, diante de duas vitórias seguidas de Hunt. A diferença entre os dois estava agora reduzida a três míseros pontos a favor do austríaco, restando apenas uma corrida. A decisão seria no Japão, na primeira vez que a Fórmula 1 corria por lá.

Lauda na França 76
Todos conhecem a história. Na hora prevista para a largada, caía um dilúvio sobre a pista de Fuji. O bom senso dizia que não havia condições para ser dada a largada, quando pela primeira vez a ditadura da televisão se fez sentir. Lauda, que havia liderado o boicote dos pilotos, já tinha tomado sua decisão: não correria sem as devidas condições de segurança. Enquanto Hunt dispara na ponta, Niki completa a primeira volta em nono, e a segunda em vigésimo segundo. Não haveria uma terceira passagem.

Ao encostar a Ferrari, Lauda é abordado por um atônito Forghieri, que num ato de desespero pergunta se ele gostaria que fosse declarado um problema elétrico no carro. Lauda recusa a ‘oferta’, assumindo publicamente a sua decisão:

- Senhor Ferrari me paga para pilotar. Não para me jogar pela janela – diria mais tarde.

Os italianos ficam tão perdidos, que se esquecem que Regazzoni continuava na prova. Sem ninguém administrando a equipe, o suíço se vê obrigado a continuar com pneus para pista molhada quando todos trocavam para slicks. Se não fosse por essa displicência, a cronometragem mostra que certamente Clay teria chegado à frente de Hunt e dado o título a Lauda.



Alheio a tudo isso, o austríaco já estava num táxi, com Marlene, a caminho do aeroporto de Tókio, quando James cruzava a linha de chegada. Não sabia, nem queria saber, se era bicampeão mundial.





Muito se escreveu sobre sua decisão de abandonar a disputa. Para uns, aquela tinha sido uma postura inaceitável a um piloto de corridas. Para outros, uma atitude normal para alguém que já havia jogado com a morte duas vezes no mesmo ano. Lauda certamente não se importou com esses comentários, mas com certeza ficou profundamente magoado com a postura reinante em sua própria equipe. Para a maior parte dos integrantes da Ferrari - o comendador inclusive - o grande erro de Lauda não foi ter abandonado o GP japonês, mas sim ter retornado à disputa em Monza! Dando o título como perdido, a equipe preferia esvaziar a conquista de Hunt ao priva-lo da companhia de Lauda nas pistas, a ver seu campeão ser batido por falta de condições materiais, físicas e psicológicas.

O ano chegava ao fim, com inúmeras cicatrizes. Algumas bem visíveis, outras não. Em 1977, Lauda é humilhantemente tratado como segundo piloto de Lole. Correndo contra o próprio time, faz valer sua força e conquista o bicampeonato com duas provas de antecedência – numa corrida com muita chuva, nos EUA. Sua resposta estava dada. Lauda nem sequer aparece nos dois GPs finais da temporada.

O austríaco ainda escreveria muitos episódios fortes nos anos seguintes de sua carreira, mas, depois de sua passagem pela Ferrari, nada mais que viesse dele poderia surpreender. Passados 31 anos desde os acontecimentos da Fórmula 1 em 1976, ainda me pergunto por que essa temporada não virou um filme em Hollywood.

Não sei... mas talvez seja porque muitos não entenderiam a moral da história.

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