O final da temporada 2007 da Fórmula 1 teve contornos épicos, com uma virada quase inédita de Kimi Raikkonen e uma derrota que se apresentava como impossível de Lewis Hamilton. Com 17 pontos de vantagem para o finlandês a duas corridas do fim, caberia ao novato fazer apenas um quinto lugar (ou dois sétimos) para acabar com qualquer pretensão do piloto da Ferrari. De forma surpreendente, não conseguiu. Errou, se atrapalhou, bobeou, amarelou, como queira chamar. Mas o fato é que, mais uma vez, a maldição venceu. Maldição? Sim. A maldição das categorias de acesso à F1.
Em mais de 40 anos – mais precisamente desde 1967, quando o campeonato de Fórmula 2 foi criado -, nunca na história um campeão da categoria imediatamente abaixo da Fórmula 1 conseguiu um título da categoria principal. Já são 42 nomes nesta galeria, alguns deles notáveis, mas que, se fizeram história, não coroaram suas carreiras com um título mundial.
Hamilton em seus tempos de GP2
Quando se fala em campeões da Fórmula 2, Fórmula 3000 e, mais recentemente, GP2, não se fala de qualquer piloto. Fala-se de Ronnie Peterson, que levou o campeonato em 1971. Fala-se de Jacky Ickx, o primeiro vencedor, em 1967. Fala-se de Clay Regazzoni, que ergueu a taça em 1970. Fala-se de Mike “The Bike” Hailwood, o melhor em 1972. Fala-se de Jean Alesi, de Juan-Pablo Montoya, pilotos que prometeram muito, mas que no fim não deram em nada. Nenhum deles deixou a F1 com status de campeão.
Lewis Hamilton foi aquele que chegou mais longe. Foi o primeiro deles a desembarcar na última corrida da temporada liderando o mundial de pilotos. Além dele, somente Regazzoni e Arnoux tinham conseguido brigar por um título até a última etapa, mas sempre em desvantagem. O inglês, não. Tinha vantagem, tinha carro, largava na primeira fila, tinha tudo a seu favor. Mas tremeu. Fritou pneu, saiu da pista, apertou o botão errado. Jogou o título pela janela.
O imponderável reinou em Interlagos naquele 21 de outubro de 2007. O mesmo imponderável que ceifou a carreira de Patrick Depailler, campeão da F2 em 1974, que fazia sua melhor temporada em 1979, pela Ligier, quando sofreu um acidente de asa delta. Foi para o estaleiro, voltou no ano seguinte pela Alfa Romeo e morreu num treino em Hockenheim. O mesmo imponderável que tirou a vida de Ronnie Peterson em 1978, quando pilotava o melhor carro de sua carreira. O mesmo imponderável que fez de Jean Alesi, ídolo da F1 nos anos 90, um “one hit wonder”, vencedor de apenas uma corrida em mais de 200 GPs disputados. Talento para mais ele tinha, assim como Juan-Pablo Montoya, de quem o imponderável retirou uma vitória certa no GP do Brasil de 2001, jogando a Arrows de Jos Verstappen sobre sua Williams. Era apenas sua terceira prova de F1. Mas, campeão da Fórmula 3000 em 1998, seu destino já estava traçado. Era a maldição.
Maldição que falou mais forte para alguns, que nem tiveram o gostinho de disputar sequer uma corrida de Fórmula 1. Destino cruel de Vincenzo Sospiri (1995), Jorg Muller (1996), Bruno Junqueira (2000) e Bjorn Wirdheim (2003), que não conseguiram vagas nos cockpits mais escassos da F1 do final dos anos 90, início do século XXI. Sebastien Bourdais (2002) foi um que passou raspando. Fazia parte desta lista até ser confirmado pela Toro Rosso para a próxima temporada. Teve um pouco mais de sorte mas, como se sabe, seu destino já está traçado. Franceses como ele, as categorias de base já fizeram outros 11 campeões. E quis o imponderável que o único gaulês campeão do mundo de F1 fosse Alain Prost, justamente aquele que mal passou pela F2.
De 42 campeões das extintas F2, F3000 e da atual GP2, apenas 12 deles conseguiram uma vitória na Fórmula 1. Somente outros 12 conseguiram pole positions. E apenas quatro deles conseguiram terminar um campeonato em segundo lugar. O destino é cruel com quem se atreve a cobiçar os dois campeonatos. E Hamilton foi quem provou o castigo mais amargo.
Não há uma explicação lógica para tal fenômeno. Muitos pilotos não conseguem bons carros ao ingressarem na Fórmula 1, outros tomam decisões erradas em suas carreiras, alguns ganham títulos nas categorias de base somente graças às circunstâncias. Mas muita gente boa já esteve em ótimos carros, já fizeram grandes temporadas, mas nem assim o título chegou. Estatística e logicamente falando, o fenômeno é intrigante.
A safra de novos pilotos da GP2, principalmente Lewis Hamilton e Nico Rosberg, tem tudo para pôr fim a este mito nos próximos anos. Mas enfrentarão a dura concorrência de Heikki Kovalainen e Nelson Angelo Piquet, que se até hoje não pareceram ser pilotos à altura, pelo menos não têm o peso do imponderável sobre suas costas. E precisarão esquecer que os grandes nomes dos últimos anos – Fernando Alonso, Kimi Raikkonen, Michael Schumacher, Mika Hakkinen, Jacques Villeneuve, Damon Hill – tiveram trajetórias discretas até chegarem à F1. A lógica “campeão na base – futuro campeão de F1”, definitivamente, não se aplica.