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8.210 Km de distância 21.09.07
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Márcio Madeira da Cunha

21/9/2007

Oito mil duzentos e dez quilômetros separam, segundo o Google Earth, o autódromo Nelson Piquet e o local onde fiz essa foto, nas cercanias do autódromo Ricardo Tormo, em Cheste, Comunidade Valenciana. Distância suficiente para comportar um oceano físico, e um abismo cultural. Duas pistas, dois templos do mesmo credo. E, infelizmente, dois destinos bastante diferentes.

O Motociclista de Pedra
A história da foto começou a se desenhar no início do último mês de julho, quando eu estava em Portugal fazendo a cobertura dos eventos que tiveram lugar no reativado Circuito da Boavista, na cidade do Porto. Sobre as corridas do Porto há muito que comentar, e em breve eu pretendo falar sobre elas aqui. Por ora, basta dizer que terminada a cobertura eu tive um fim de semana livre, e nele aproveitei para cruzar a Espanha em direção ao Mediterrâneo e conhecer pessoalmente o amigo e colaborador do GPTotal, Manuel Blanco. Juntos nós vimos o GP da Alemanha, vencido por Fernando Alonso.

Ainda no sábado o prestativo Manuel me mostrou o lindo percurso onde será disputada a prova de Fórmula 1 no ano que vem, bem como o autódromo da Comunidade Valenciana. Uma pista convencional, inaugurada em 1999 e sem qualquer curva que mereça maior destaque, mas que a exemplo de Interlagos e Jacarepaguá oferece visibilidade excelente a quem está nas arquibancadas (que se estendem por todo o perímetro externo do traçado). Ao todo são 4 km de pista, com capacidade fixa para cento e vinte mil espectadores, ampliada a cada GP com a construção de pequenas arquibancadas provisórias. Muito? Pois fique sabendo que a cada nova visita de Valentino & Cia os ingressos esgotam com antecedência, apesar de a Espanha atualmente sediar nada menos que três etapas da Motogp.

Ricardo Tormo - Clique para ampliar
Como todo autódromo que se preze, o Ricardo Tormo é cercado de pequenos monumentos e homenagens, que aos poucos vão preparando o espírito do visitante-peregrino para a entrada em mais um santuário da velocidade. Nas proximidades você verá bustos de astros como Mick Doohan, ao lado de grandes nomes que fizeram a história do motociclismo local. E entre esses belos monumentos, há um especialmente interessante para nós: o motociclista de pedra. A escultura em si é bonita, porém o mais singelo é notar que ela se situa no centro de uma rotunda (que aqui chamamos de rotatória), e que à sua volta estão representadas 16 pistas que compunham o calendário da motovelocidade há alguns anos. Jacarepaguá, claro, está entre elas.

Devo confessar que sempre tive um certo receio em relação a nutrir sentimentos patrióticos mais exacerbados. Talvez pela impressão de que eles se encontrem no seio de recentes combates sangrentos de nossa história, talvez pelo medo de me assemelhar em alguma medida ao difundido e geralmente injusto estereótipo do estadunidense alienado, daquele tipo que imagina que temos macacos em nossas praias. Não sei. Mas, apesar disso, conservo raízes profundas, e amo muito minha terra natal. Natural, portanto, que eu tenha experimentado fortes emoções ao me deparar com essa homenagem silenciosa a uma pista tão distante para eles, tão cara a mim, e que nós acabamos de destruir.

O que era previsto (imagem cedida pelo leitor Aníbal Afonso) - Clique para ampliar
Já estava há mais de um mês longe do Brasil, e tenho de admitir que me senti mais perto de casa ao reconhecer aquelas curvas. Já beijei aquele asfalto, já percorri o trajeto a pé, e já vi corridas naquelas arquibancadas. Até o melhor show de rock de minha vida (do grupo U2) eu vi naquele local! É um traçado que serviu de cenário ao meu imaginário, justamente na fase em que cristalizei a paixão central de minha vida: a paixão pelos esportes a motor. Olhar a parte norte da pista foi especialmente doloroso. Sentia-me como se tivesse tratado mal alguém que sempre esteve próximo a mim, e depois disso viajasse meio mundo só para ver essa mesma pessoa ser homenageada por seus distantes admiradores. Já ouviram algo sobre ninguém ser profeta em sua própria terra?

Alguém poderia estranhar essa sensação de culpa, uma vez que eu jamais fiz algo contra Jacarepaguá. Verdade. Mas também é verdade que quando eu cheguei à pista valenciana num sábado sem corridas, encontrei uma centena de motociclistas de todas as idades se revezando em turnos alternados, pagando mais de cem euros pelo prazer de pilotar no mesmo chão que os melhores do mundo. Vi desde motos super personalizadas, trazidas em estruturas semi-profissionais, até motoqueiros que nitidamente estavam sacrificando boa parte de uma receita mais apertada para estarem ali com suas motos de uso cotidiano.

O que de fato foi feito - Clique para ampliar
Na entrada do estacionamento estava uma completa UTI móvel, e ao lado da pista uma ambulância de prontidão. Também dei conta da presença de ao menos um fotógrafo, e um punhado de funcionários de pista e manutenção. Em outras palavras: havia vida naquele local. A pista estava sendo usada como todas deveriam ser, e por mais que não parassem de chegar pequenas caravanas, não se via nada que lembrasse os terríveis “pegas” de rua. A velocidade estava reservada ao seu lugar de direito.

Certa vez, Ítalo Calvino disse que o outro é como um espelho em negativo: nos diz o que somos, ao mostrar o que não somos. Verdade, pois ao contemplar toda aquela agitação, eu me dei conta, de modo inapelável, do quão relapso eu fui com a pista que amava. Sim, eu estava nas arquibancadas, sim, eu fui um dos que protestou contra a destruição da pista. Mas não, quando fiz 18 anos eu não peguei a poderosa FIAT Panorama 1300 de minha mãe e fui para a pista baixar o tempo da Ferrari F355 do Ronaldinho. A ficha caiu ali, vendo a vida daquele autódromo. Foi quando eu entendi que cada pista pertence à comunidade em que se insere, e não aos Schumachers ou Rossis da vida. Esses são convidados de honra, mas os donos de verdade trabalham na segunda-feira.

Mentiras sempre cercaram a existência do autódromo carioca (imagem cedida pelo leitor Aníbal Afonso) -
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Muitos então poderão argumentar que por trás desse cenário que descrevi está uma economia muito mais sólida do que a nossa, e estarão perfeitamente certos ao pensarem assim. De fato, considerando os valores numéricos do salário mínimo e dos preços dessas motos nos dois países, podemos dizer sem medo errar que para nós elas custariam ao menos cinco vezes mais do que na Espanha, e esse é um dado forte demais para ser desconsiderado. Mas será esse o ponto final dessa discussão? Estaremos então fadados a ver a agonia de nossas pistas e o fim de nossa cultura automobilística?

Peço perdão, mas definitivamente não posso concordar com isso. Meu pai tem a idade de Emerson Fittipaldi, e certamente a geração dele não foi essencialmente mais rica que a minha. Os fusquinhas que lotavam o grid do antigo Interlagos nas décadas de 60 e 70 não eram majoritariamente pilotados por pessoas ricas, mas sim por jovens desprendidos e apaixonados por automobilismo. Não esse automobilismo estéril que aprendemos a ver pela televisão, mas o verdadeiro automobilismo de pista, de graxa, de insolação, barulho e cheiro de gasolina. Uma geração de “ratos de pista”, tributários do trabalho de gente como Chico Landi, Carlo Pintacuda, Bernardo Souza Ramos, Irineu Correa, Manuel de Teffé, Hellé-Nice, Hans Stuck, Hermano da Silva Ramos (que também esteve na Boavista, em julho), Gino Bianco, Fritz D’Orey e muitos outros.

Não tive coragem de cortar a parte norte da homenagem
A dura verdade é que existe sim uma diferença entre o modo como a maioria dessas duas gerações de brasileiros encara o automobilismo e a vida. Enquanto hoje os coroas se reúnem em seus impecáveis Karmann Ghia, DKWs e Gordinis, os filhos não querem saber de nenhum carro com mais de 5 primaveras. Há 35 anos os jovens envenenavam seus carros, nem sempre adequados, com naftalina, óleo de rícino, velas de avião e uma criatividade que beirava a degeneração. Em época de GP pulavam os muros de Interlagos para lá ficarem acampados por três dias, num clima que lembrava o festival de Woodstock. (Imagino quantas pessoas não terão sido concebidas dentro daqueles muros!) Hoje os amantes do automobilismo ligam a TV nas manhãs de domingo, enquanto namoram pela internet e folheiam revistas que ensinam as melhores formas de instalar um som de boate no porta-malas, conjugado com uma discutível luz roxa no assoalho. Quando muito, participam de provas de arrancada no melhor estilo “velozes e furiosos”. Ora, se é só para arrancar, realmente não precisamos de uma pista de verdade. Nada contra as arrancadas, que fique claro, mas não podemos nos esquecer que automobilismo é muito mais que isso.

Há menos de dez anos Jacarepaguá oferecia excelentes alternativas de traçado. Conjugava um misto repleto de curvas de raio longo com um oval verdadeiro e peculiar. Recebia a Fórmula Mundial a e motovelocidade, e tinha todas as condições de receber a Fórmula 1, se isso fosse necessário. Mas só era aproveitada nessas ocasiões especiais, e isso é muito pouco para uma pista tão importante e estruturada.

É preciso compreender que Jacarepaguá não é apenas um punhado de retas e curvas. Jacarepaguá é o fio estendido que restou com o passado glorioso do automobilismo carioca. A pista que deixamos mutilar era a última herdeira do Trampolim do Diabo – um dos traçados mais ricos e difíceis de todos os tempos!

Encontro de veteranos do GPTotal na Espanha, Márcio, à esquerda, e Manuel
No fim, o que mais me dói nisso tudo não é o descaso dos políticos em relação ao patrimônio público, pois infelizmente já estamos todos habituados a isso. Nesse caso, o que me machuca de verdade é ter a consciência de que a alegada (e efetiva) inatividade da pista também foi conseqüência de minha omissão. O que me faz recordar a melancólica conclusão do personagem Andy Dufresne, de “Um Sonho de Liberdade”:

- Eu não matei minha esposa, mas fui um péssimo marido.

Márcio Madeira da Cunha

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