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Marcianos e Descartes 23.03.07
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Manuel Blanco

Em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli apresenta o resultado de suas longas observações do planeta Marte, acompanhadas por detalhados mapas da sua superfície, onde destacavam as misteriosas linhas que podiam ser vistas desde a Terra.

Marte, como visto por Schiaparelli.- Clique para ampliar


Segundo as conclusões de Schiaparelli, as linhas eram cursos de água e batizadas com nomes de rios da terra (Eufrates, Ganges e Nilo, por exemplo). O trabalho do astrônomo logo foi traduzido para o inglês mas houve um problema: a palavra italiana usada por ele para definir os cursos de água – “canali” - foi equivocadamente traduzida como "canal".

A palavra correta devia ter sido "channel", pois "canal", em inglês, define cursos de água artificiais. O equivoco provocou um interesse generalizado por Marte e deu origem a toda classe de especulações sobre quem teria "construído" os canais - os famosos marcianos.

Recorri ao caso de Marte para ilustrar o exemplo de como uma má interpretação pode mudar o sentido das coisas, tal e como me parece que aconteceu, e creio que ainda acontece, com o caso dos polêmicos descartes de pontuação que durante tanto anos estiveram vigentes na Fórmula 1.

O regulamento sempre contemplava um determinado número de "melhores resultados" (“best results" em inglês e "meilleurs resultats" em francês) que seriam os tidos em conta na hora de determinar a pontuação e não a totalidade dos resultados da temporada. O sistema valeu desde o primeiro campeonato, disputado em 1950, e sofreu algumas variações em relação à quantidade de resultados a serem considerados até que, em 1980, se estabelece uma fórmula pela qual seriam tidos em conta como "melhores resultados" o número total de corridas dividido por dois mais três. Numa temporada com 16 GPs, por exemplo, 11 seriam os resultados tidos em conta para determinar a classificação final do campeonato.

Porém, este sistema de "melhores resultados" acabou sendo popularmente definido como um sistema de "descartes", o que lhe dava um sentido pejorativo e, ao meu modo de ver, com um propósito totalmente diferente do que se buscava. A idéia original, ficava assim pervertida e o sistema parecia até malévolo.

Senna à frente de Prost em 88
Esta má interpretação do sistema ficou claramente em evidência em 1988 quando Prost conseguiu mais pontos "brutos" do que Senna. O sistema foi duramente criticado porque Prost teve de "descartar" os seus cinco piores resultados. Com isso, perdeu o campeonato.

Muito já foi dito aqui mesmo no GPTotal sobre aquela temporada e não vou insistir no assunto pois, agora, só trato de apresentar o meu ponto de vista sobre o sistema dos "melhores resultados" que, na minha opinião, era bem melhor que o atual, que leva em consideração todas as corridas da temporada.

Acredito que, se o objetivo é determinar quem é o melhor do campeonato, é normal que isso se determine em base dos "melhores resultados". Assim, o sistema evitava que um determinado piloto que estivesse lutando pelo título, ficasse privado dessa luta devido a um imponderável mecânico ou a um acidente.

Vejam o que aconteceu com Raikonnen em 2003: O rapaz estava em plena luta pelo campeonato quando o acidente ocorrido em Nurburgring o deixou praticamente sem nenhuma possibilidade de seguir na batalha. E o pior é que o pobre Raikonnen não teve nenhuma culpa no acidente. Mesmo assim, acabou a só dois pontos de Schumacher, apesar de sofrer outros dois abandonos ante apenas um do alemão.

Melhores Resultados.- Clique para ampliar
O sistema dos "melhores resultados" dava ao piloto que viesse a sofrer algum abandono, a possibilidade de compensar esse mau resultado em uma futura corrida, coisa que me parecia bastante justo. Neste ponto, gostaria de voltar ao exemplo do campeonato de 1988 para vermos a evolução do campeonato segundo o sistema dos melhores resultados Como vemos, o sistema funcionou muito bem permitindo a Senna recuperar-se dos abandonos sofridos no Brasil, Mônaco e Itália e dos problemas enfrentados em Portugal e Espanha. Porém, seria engano afirmar que Senna ganhou o campeonato graças ao sistema. Não há dúvida de que este lhe deu a ocasião de compensar seus maus resultados, mas essa mesma possibilidade também lhe foi dada a Prost, que poderia ter lutado por melhorar os seus resultados anteriores. Mas, o caso é que Prost não foi capaz de melhorá-los, portanto a sua derrota não deve ser atribuída ao sistema.





O sistema dos "melhores resultados" valeu por 41 temporadas e em apenas duas - 1964 e 1988 - o piloto com mais pontos brutos não se tornou campeão. Este me parece um bom balanço, pois o sistema praticamente não interferia no desfecho dos campeonatos. Com o sistema, se pretendia que os pilotos buscassem a vitória com mais afinco, de maneira que quantos mais "melhores resultados" tivessem, as probabilidades de vencer o campeonato aumentavam. Os pilotos tinham que compensar alguma falha anterior ou melhorar qualquer resultado que não fosse uma vitória.

Com o sistema, não apenas os pilotos eram incentivados a arriscar mais por vencer, mas os engenheiros também. Vejam o gráfico: nele vemos representada a diferença entre a percentagem de corridas válidas segundo o sistema de melhores resultados e a percentagem de corridas completadas pelos campeões e pelos três primeiros classificados em conjunto de cada temporada do período de 1970 a 1990.



Gráfico descartes- Clique para ampliar
Como pode apreciar-se, as diferenças não eram muito significativas, De fato, vemos como a percentagem de provas válidas e corridas completadas pelos campeões foi exatamente a mesma: 75,9 %. No caso dos três primeiros classificados em conjunto, a diferença é insignificante.

Este foi um dado que me chamou muito a atenção e que me levou a pensar que, talvez, as freqüentes falhas mecânicas daquela época (principalmente de motor), não fossem tão fortuitas quanto podiam parecer. Como disse antes, a possibilidade de compensar algum mau resultado é possível que animasse os engenheiros a correr mais riscos dos que correriam num campeonato onde todos os resultados fossem válidos, procurando tirar o máximo rendimento possível dos carros. Parece, até, que esses riscos estavam bem calculados e, inclusive, adequados ao percentagem de provas válidas de maneira tal que os abandonos nunca superassem o número de provas prescindíveis.

Resulta curioso lembrar todas aquelas quebras de motor quando aqueles mesmos motores equipavam os carros do Campeonato de Marcas e agüentavam provas muito mais longas que um GP. Para 1972, a FIA determinou que os motores do Mundial de Marcas tivessem 3.000 cm3, o que possibilitou o uso dos motores da F1. Nesse mesmo ano, a Ferrari, com o seu motor 312, proclamou-se campeã vencendo todas as corridas que disputou. Nos anos 1973 e 1974, foi a vez da Matra e, em 1975 e 1977, foi a Alfa Romeo quem resultaria ganhadora.

John Surtees, com o exótico Ferrari azul e branco, campeão em 64
Os motores Cosworth, como na Fórmula 1, também equipavam varias equipes independentes e, apesar, de que nenhuma logrou derrotar as grandes equipes de fabrica, conseguiram vitórias de mérito como a da Rondeau em Le Mans 80.





Na Fórmula 1, um beneficio colateral dos abandonos era dar às equipes pequenas mais possibilidades de conseguir algum bom resultado ou até vencer. Talvez, sabendo-se incapazes de lutar pelo título, é possível que estas equipes arriscassem até mais por conseguir alguma vitória ou por fazer um bom papel no campeonato.

Porém, o resultado do campeonato de 88 estimulou os detratores do sistema de "melhores resultados". Eles pressionaram tanto que a FIA acabou abolindo-o para 1991. Desde então, as equipes tratam de terminar todas as corridas, garantindo o máximo de pontos possíveis. Não há dúvida que a eclosão das assistências eletrônicas ajudou muito a aumentar a fiabilidade dos carros, mas creio que um sistema que prima a regularidade fomenta o conservadorismo e conformismo. Até os carros acabaram sendo construídos de maneira que resulta muito difícil ultrapassar, dando origem aos freqüentes "trenzinhos", volta após volta.

Recordemos novamente a temporada de 2003, quando Schumacher era inclusive criticado por apenas conservar a diferença de pontos que havia conseguido no principio do campeonato. Então, eu fui o único aqui no GPTotal que o defendeu das críticas. A culpa não era dele - era do sistema. Isso aconteceu de novo em 2005 e 2006.

Resulta curioso como a mudança do sistema de pontuação acabou afetando tanto o desenvolvimento do campeonato. Talvez não seja devido à abolição do sistema de melhores resultados. Mas é muita coincidência.

Enfim, eu preferia o sistema dos "melhores resultados".

Um abraço,

Manuel Blanco, Valência, Espanha

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