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Idades da F1 24.01.07
Escreva pra gente
“Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?” é a pergunta mais genial que alguém já pode ter feito neste redondo mundo. Ela é fantástica por ser completa, irônica, inteligente, boba, sagaz e porque nunca envelhece, nunca fica com cara de fora de moda e sempre pode ter qualquer uma de suas duas respostas possíveis aceita como a “verdadeira”.

Senna lidera o GP da Espanha de 86 seguido por Nigel Mansel
Certa vez vi um homem ateu perguntar para outro cristão se ele acreditava realmente que Deus existia. O cristão respondeu que sim, que acreditava piamente nisso, o que levou o ateu para a mais óbvia afirmação para tal conversa: “Então me prove que Deus existe!”. Aí veio uma das respostas mais belas que eu já vi para uma polêmica como esta: “Não posso. Mas, por favor, me prove você que Deus NÃO existe!”. Pois bem, eu sou um desses que acredita em Deus, então você já entendeu que automaticamente eu também sou um desses que acredita que a galinha veio primeiro.

Nesta mesma linha, de assumir uma posição definitiva diante de uma questão polêmica (que pode gerar discussões eternas), quero afirmar categoricamente cinco ou seis coisas, para aí então poder prosseguir com a idéia principal deste texto: Michael Schumacher é o maior piloto de todos os tempos, Ayrton Senna é o maior mito de todos os tempos, Colin Chapman é o melhor engenheiro de todos os tempos (que juntamente com Jim Clark forma a melhor dupla de todos os tempos), o Williams FW14 é o melhor carro de todos os tempos e, finalmente (desconsiderando por enquanto a correta ordem cronológica), Juan Manuel Fangio é o melhor piloto de todos os tempos.

Eu sei que você pode não concordar em nada ou em quase nada comigo, mas se faz necessário uma base teórica, fundamentada em experiências ou fatos reais, para que qualquer novo conceito ganhe vida (mesmo que seja para ser derrubado ou totalmente corrigido posteriormente). Acho importante destacar que esta brincadeira aqui deve ter começado quando li e concordei com a Alessandra, em seu texto de 21/8/06, sobre os cinco anos do GPTotal: a queda das Torres Gêmeas tem tudo mesmo para ser o marco de transição da nossa atual “idade” histórica - Contemporânea -, para a próxima (na qual, então, já estamos).

Jim Clark e Colin Chapman
A Fórmula 1 começa oficialmente em 1950, depois da Primeira e da Segunda Guerra, os dois eventos que atrasaram muito o desenvolvimento do automobilismo como um todo. Antes desse ano, então, eu vejo a Pré-História da categoria, ou melhor, do esporte a motor. Creio que os principais feitos desta “Idade” foram: 1) a corrida realizada em 28 de julho de 1894 entre Paris e Rouen (França), com velocidade média de “assustadores” 24 km/h; 2) a construção do autódromo de Indianápolis, em 1910, agora do outro lado do Atlântico.

Observem que eu estou sendo bem, mas bem superficial mesmo, apenas tentando dar uma idéia-básica da minha idéia-básica! Acho importante ainda dar um ponto de referência inicial para esta Idade Pré-Histórica da F1: os alemães Daimler e Maybach, ao conduzirem pelas ruas frias de Stuttgart, em 1885, o primeiro veículo “auto-móvel” da história.

Em 1950, então, termina a Idade Pré-Histórica e começa a Idade Antiga da F1. E a própria organização do campeonato mundial já é o maior acontecimento deste tempo. Agora, aqui eu acho muito curioso o seguinte: justamente nesta época é que surge no mundo da velocidade o argentino Juan Manuel Fangio, cinco vezes campeão mundial em apenas 51 corridas, com impressionantes 24 vitórias nestas mesmas 51 provas (com a imbatível média de uma vitória a cada duas corridas!)!

Na Idade Antiga, Ferrari, Ascari, Moss, Silverstone, Monza (etc.) e a própria F1 ficam em segundo plano, sempre atrás de Fangio. Bom, eu já ouvi dizer que Deus, de vez em quando, se apaixona por uma ou outra atividade inventada pelos homens. Aí, como Ele gosta de participar e interagir com suas criaturas, desce do céu e habita um corpo humano, por puro esporte. Sim, tenho fontes confiáveis (mas, por obrigação ética da profissão, nunca poderia revelar quem são!) que atestam que Ele fez isso com Pelé no futebol e, claro, com Fangio na Fórmula 1.

Mas quando termina esta Idade Antiga da F1? E qual seria a próxima? Bom, acho que Idade Média é o termo mais apropriado para a continuidade da história, embora não veja qualquer relação entre esse período tenebroso do nosso mundo com sua equivalente vivida pela Fórmula 1. Mesmo achando que a Idade Antiga termina junto com a decisão - de dentro do cockpit - de Fangio em parar com a carreira, creio que existe um espaço temporal “vazio” perdido nesta fase, pois vejo como início da Idade Média da F1 o surgimento do Lotus 25, alguns anos mais tarde.

Fangio com Alfa Romeu 159 na Suiça 51
Feito sob medida por Chapman para Clark, dava início a uma parceria que, além das vitórias na F1, culminaria com a conquista das 500 Milhas de Indianápolis de 1965. Foi a união de um gênio das pranchetas com um gênio do volante. E podia ter sido muito mais do que foi, se não fosse o acidente fatal de Jim em 1968, numa corrida de F2. Aqui, mais uma vez, vejo o exemplo de Pelé e de Fangio: Deus vê a mesmice dos projetos dos carros daquela época e resolve usar um inglês para mostrar ao mundo que o limite era mais acima do que todos estavam acostumados. E não quero ser puxa saco da Lotus, mas acho que ela inicia e termina esta Idade, fechando a saga com o Lotus 72.

Foi o 72 de Chapman o carro a enterrar definitivamente os “charutinhos”. Veja que ele foi tão revolucionário e tão bem pensado que, por exemplo, as asas dianteira debutadas nele são fundamentais até hoje; e embora o desenho atual delas seja muito mais moderno, o conceito e a função são exatamente os mesmos, sem tirar nem por! A 72 entrou para a história não só pelas vitórias e títulos que conquistou, mas também pelo fato de que foi o primeiro carro a funcionar como uma asa de avião invertida: ao invés de “decolar”, usava o mesmo conceito aeronáutico para “colar” no chão. Emerson tem saudades desse carro. Quem não teria?

Agora, se não é tão difícil dar o fim desta Idade Média da F1, complicado foi achar o ponto inicial da próxima fase histórica, que batizei obviamente de Idade Moderna. Muita coisa acontece de meados dos anos 70 até o início dos anos 90, mas me parece justo aqui começar exatamente com a Lotus 72, fazendo dela a divisora exata destas eras. De tão revolucionário que foi este período, do ponto de vista tecnológico, não dá para não apontar como principal acontecimento desta Idade Moderna da F1 o projeto batizado de Williams FW14.

Vou resumir tudo assim: você viu Nigel Mansell correr, antes de pilotar este carro? Se não viu, veja, de um jeito ou de outro: o FW14 bate o Lotus 25, bate o Lotus 72, bate o McLaren MP4/4 (de Senna, em 1988), bate a Ferrari de 2004 e o Renault do título de Alonso; somente este carro poderia dar um título para Nigel Mansell! Senna tinha sofrido com um protótipo de suspensão ativa em 1987 na Lotus, assim como o próprio Mansell neste mesmo 1987, em sua primeira passagem pela Williams. Mas o que os engenheiros da equipe fizeram no FW14 é qualquer coisa de transcendental. Qual a melhor Ferrari de rua de todos os tempos? F250 GTO ou F40? O FW14 é mais ou menos uma mistura das duas, entre os monopostos.

Schumi, Massa e a equipe Ferrari comemoram a vitória na Alemanha 06
Acho então que a Idade Moderna - que começa com o Lotus 72 - vai terminando aqui, em 1992 com o Williams FW14. Mas vejo novamente um espaço vazio na história da categoria, até que se comece efetivamente a nova fase, a Idade Contemporânea. E é o que você está pensando, não por ser brasileiro, não por ser fã dele, mas pelo fato de que esse acontecimento também foi forte demais para ser apenas mais um dentro de uma era: a morte de Senna é a transição definitiva para o tempo que presenciamos hoje (recorde que tudo isso é apenas a minha opinião, com a qual você não precisa concordar!).

1.º de maio de 1994 dá a entrada para a Era Schumacher, uma espécie de apelido popular para esta Idade Contemporânea da F1. Senna não é hoje o maior piloto da história porque os números pertencem a Schumacher. E, como já disse lá atrás, Fangio bate todo mundo em proporções, mas foi Senna quem acabou se tornando o mito deste esporte, a encarnação do espírito e da alma humanos em um cockpit de um monoposto. Exagero? Sentimentalismo? Não sei! Só sei que ninguém foi melhor do que ele para valorizar “espiritualmente” cada vitória, cada pole, cada título, cada decepção, cada entrevista.

Por fim, creio que a aposentadoria de Schumacher sela o final desta era: ele reconstruiu a Ferrari para si, apenas para si, o que me faz ter a impressão de que sua saída acabe rebaixando um pouco esta equipe do nível que está hoje. Agora, qual vai ser a próxima era da F1, qual vai ser o acontecimento importante a ponto de ser o novo marco inicial e qual seria o nome desta nova “Idade”, juro que tentei obter tais informações das minhas fontes secretas (aquelas que me contaram sobre o segredo de Pelé e de Fangio), mas deu na caixa postal. Abraços!

Jefferson Reinholds,
www.scudheria.com.br
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