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Automobilismo na União Soviética – final 25.11.05
Escreva pra gente
O Estonia 25, construído na Estônia para a Fórmula 1600 em 1994.
Olá, amigos. Conforme prometido, segue a segunda e última parte da minha pesquisa sobre automobilismo na antiga União Soviética (clique aqui para ler a primeira)

Sobre as PISTAS:

1) Descobri a existência de 10 circuitos que estiveram ativos na União Soviética durante aqueles anos. Apenas 3 eram na então República Socialista Soviética da Rússia. Dois circuitos eram na então República Socialista Soviética da Letônia, e havia um circuito em cada uma dessas então Repúblicas Socialistas Soviéticas: Estônia, Lituânia, Bielo-rússia, Ucrânia e Geórgia.

2) O Automobilismo era mais praticado nos países Bálticos, já que 4 circuitos estavam nos países Bálticos, mas há que levar em consideração que dois circuitos da Rússia e o circuito da Bielo-Rússia eram muito próximos a esses países. Ou seja, das 10 pistas, apenas 3 delas não estavam na região Báltica.

3) Os circuitos normalmente ficavam próximos das capitais e/ou grandes cidades desses países. Eram quase todos formados por estradas, com exceção de dois circuitos que eram autódromos permanentes. Um era montado em um parque e dois eram circuitos de rua nos centros de Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo).

Mikojan AM01 de 2001, para a Fórmula 1600 russa. Este carro construído pela fábrica de aviões MIG - é dela o logotipo no bico.
Um por um, um breve perfil de cada um dos 10 circuitos existentes na União Soviética:

Moscou, Rússia: circuito de rua chamado Luzhniki. Tinha 3.200 metros, passava do lado do Rio Moscou e do Estádio Lênin, que foi o principal estádio usado nos jogos Olímpicos de 1980. O circuito de Luzhniki foi usado entre 1961 e 1965. A F 1 soviética nunca correu nessa pista. Foi usado para um campeonato internacional de automobilismo dos países socialistas.

Leningrado, Rússia: circuito de rua chamado Nevskoye Koltso (no Ocidente é conhecido como Neva Ring). Tinha também 3.200 metros e também ficava em volta de um Estádio, o Kirov. Este circuito foi bastante usado para provas de F 1 soviética, categorias de base de monopostos, carros-esporte e turismo. Era a pista mais tradicional da Rússia soviética. O circuito de rua existe até hoje!

Kalingrado, Rússia: a região de Kalingrado (um pequeno território russo entre a Polônia e a Lituânia, sem ligação territorial com o resto da imensa Rússia) tinha um circuito, chamado Nemanskoye Koltso (no Ocidente seria chamado de Neman Ring). Era uma pista de estrada, quase do lado da divisa com a Lituânia, um pouco distante da cidade de Kalingrado. Não obtive a informação sobre o tamanho do circuito, mas não deve ter sido maior do que 4 kms. Foi pouco usado, a F 1 soviética nunca correu lá.

Tallinn, Estônia: o circuito estoniano de Pirita-Kose Kloostrimetsa começa antes da Estônia ser anexada pela União Soviética em 1940. O circuito sediou alguns GPs de segunda categoria no período Pré-Guerra, quando o país ainda era independente. Mesmo com a anexação soviética, Pirita-Kose foi usado a partir dos anos 50. Tinha uma configuração maior entre 1959-1964 (talvez beirava os 8 ou 9 kms), em 1965 foi encurtado para 6.000 m. O circuito era formado por estradas dos subúrbios de Tallinn, capital estoniana. Sediou várias provas da F 1 soviética, das demais categorias de monopostos do país, além de carros esporte e turismo.
Acreditem ou não, Tallinn esteve muito próxima de sediar o Mundial de Fórmula 1 em 1983: quando as negociações de Ecclestone com Moscou falharam, a Estônia tentou (em vão) sediar o GP soviético, que seria realizado em Pirita-Kose. Mas a pista precisava de imensas reformas para se enquadrar nos padrões da FIA, e o já decadente governo soviético não iria liberar verba para isso. O circuito de Pirita-Kose está ativo até hoje, já com a Estônia novamente independente depois de 1991. Foi lá, no ano de 2000, que morreu o famoso campeão de motos do Manx TT, Joey Dunlop.

Riga, Letônia: a capital letoniana tinha um circuito bastante usado, montado em um parque da cidade, o Meza Park. A extensão da pista não deve ter sido muito acima de 3 ou 4 kms, e vários eventos de F 1, F Vostok, F 2, carros esporte e turismo aconteceram nesse traçado. O Meza Park também foi utilizado como Campo de Concentração durante os anos em que os Nazistas ocuparam os países Bálticos e parte da União Soviética. Depois de vencida a Guerra, os soviéticos anexaram de vez os países Bálticos e este Parque em Riga foi usado como pista de corrida dos anos 60 e 70.

Outro produto estoniano: o Tartu 1, carro esporte da década de 60.
Bikernieki, Letônia: o único circuito completamente distante das capitais e grandes centros soviéticos. Foi usado em 1969 pela F 1 soviética, mas parece que também sediou algumas provas de outras categorias. Era formado por estradas da região e tinha 3.659 metros.

Kaunas, Lituânia: montado nos arredores da segunda maior cidade lituana, o circuito chamava-se Katsergiene, sediou várias provas da F-1 soviética nos anos 60. Era um circuito de estradas com 3.301 m. Era uma pista bastante veloz.

Minsk, Bielo-rússia: o circuito chamava-se Borovayia, tinha 4.030 m e era composto por estradas. A F 1 soviética e todas as categorias de monopostos, turismos e carros esporte competiram neste circuito, que existiu nos anos 60 e 70.

Kiev, Ucrânia: o primeiro autódromo permanente da União Soviética foi inaugurado na República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1974. O circuito chama-se Chaika e fica próximo a Kiev. Foi constante sede de todos os campeonatos soviéticos existentes nas décadas de 70 e 80, menos a F 1 soviética. O circuito existe até hoje.

Tiblisi, Geórgia: a pista mais distante de todas as demais, que são localizadas no noroeste da União Soviética. A Geórgia fica na região do Cáucaso, no extremo sudoeste soviético. Foi o segundo circuito permanente do imenso país, e a pista chama-se Rustavi, próximo à capital Tiblisi. O circuito com 4.038 m foi inaugurado em 1979. Sediou provas de F 3, F Vostok e outras que ainda existiam nesse período de decadência do império soviético. O autódromo existe até hoje.

4) Houve duas fases em que cogitou-se um GP da União Soviética no mundial de Fórmula 1. A primeira foi entre 1964 e 1965, a mesma época em que a Moskvich tinha um projeto de carro para a categoria. Houve um projeto de um circuito permanente em Tushino, na área de Moscou, Rússia. O autódromo (se fosse construído) seria moderníssimo para a época, com hotel, arquibancadas para 150.000 pessoas, restaurantes e o prédio da sede do Automoto Clube soviético. Mas como o projeto era caríssimo, acabou nem saindo do papel. As autoridades esportivas soviéticas tinham outras prioridades...

Da Alemanha Oriental, o Melkus, também conhecido como "zigarre" (cigarro) devido ao formato. É a versão deles para o que chamamos de "charutinhos".
A segunda vez em que se cogitou um GP da União Soviética na Fórmula 1 foi no início da década de 80, mais precisamente em 1982. O projeto foi mais sério, o circuito seria montado nas ruas do centro de Moscou, nos arredores do Rio Moscou, do Estádio Lênin e da Universidade de Moscou, com a largada ocorrendo em frente às Colinas de Lênin. O circuito passaria por uma das retas usadas no antigo traçado de Luzhniki (usado no começo dos anos 60). Bernie Ecclestone inclusive negociou diretamente com as autoridades soviéticas, mas segundo relatos, a “linha dura” do regime Comunista (que ainda estava no poder) achou que isso seria uma "diversão besta", e mais uma vez as verbas necessárias para o projeto não saíram. 

Em junho ou julho de 1982 a FIA já tinha até agendado o GP soviético para agosto de 1983. Como se sabe, ele nunca aconteceu – foi cancelado cerca de um ano antes. Na tentativa desesperada de ocorrer um GP no país, autoridades da Estônia (ainda uma República soviética) tentaram achar algum jeito de fazer o GP em Tallinn, no circuito Pirita-Kose Kloostrimetsa, mas a pista precisava de enormes reformas, e sem verbas, nada se concretizou. Algums poucos cartazes "Tallin '83 Vormel 1" chegaram a ser impressos.

E no resto do Bloco Socialista? Não havia nada? Nem competições Internacionais?

Havia sim!

Entre 1963 e 1990 existiu a Copa da Amizade das Nações Socialistas.

Fundada pela União de Esportes Motorizados da Polônia, ela tinha a peculiaridade de contar somente com equipes nacionais. Cada equipe representava uma nação, e assim competia. Inicialmente, apenas Polônia, Hungria e Alemanha Oriental participaram. Logo no segundo ano (1964), entrou a Bulgária. Em 1965 veio a Tchecoslováquia, em 1966 foi a vez da União Soviética, e somente em meados dos anos 70 é que a Romênia entrou nesta Copa anual de automobilismo do bloco socialista.

A Copa da Amizade socialista inicialmente tinha regulamento de Fórmula Júnior (1.100 cm³) nos dois primeiros anos. Logo em seguida adotaram regras da Fórmula 3 (1.000 cm³, na época), e então carros ocidentais como Lotus e deSanctis chegaram a competir, com motores Cosworth. Em 1972, nova mudança, adotando regras da Fórmula Vostok, com 1.300 cm³.

Essa Copa da Amizade das Nações Socialistas foi o que mais se assemelhou à Fórmula 1 – não em nível técnico, mas sim em internacionalidade no Bloco Socialista. Eram pilotos das 6 principais nações socialistas do leste europeu, em equipes nacionais, com um GP anual em cada um dos países. Pilotos que não eram provindos de países socialistas não poderiam contabilizar pontos durante a Copa da Amizade das Nações Socialistas. Isso ocorreu algumas vezes, quando alguns pilotos finlandeses venceram competições automobilísticas socialistas no período.

Ainda não consegui descobrir em que circuito ocorreu cada uma das etapas desse certame que durou mais de 25 anos. Os da Hungria foram no Nepliget Park, no centro de Budapeste (mesmo parque que sediou um GP da Hungria em 1936, no Pré-Guerra). Países como Polônia, Tchecoslováquia, União Soviética e Alemanha Oriental também sediaram etapas, mas não consegui saber quais dos vários circuitos que existiam nesses países receberam a Copa da Amizade socialista.

Estônia 21, feito para a Fórmula Soviet.
Para finalizar, algumas curiosidades sobre o automobilismo soviético:

1) Até perto do fim da década de 70, ainda existiam pilotos soviéticos e dos países socialistas que usavam capacete semi-integral e óculos de aviador para competir. Do mesmo modo como era na década de 60! Isso já demonstra um pouco do quanto de atraso que o automobilismo soviético/socialista tinha em relação ao esporte ocidental.

2) Ainda não consegui descobrir algumas coisas que intrigam, tais como a forma como os pilotos eram “contratados” pelas equipes ou mesmo de onde surgia o dinheiro de financiamento dos construtores de carros. Por serem países comunistas, a questão do patrocínio nem sequer era cogitada. Pelo que li, muitos pilotos representavam uma “sociedade esportiva” que variava bastante. Poderia ser até mesmo o Exército Vermelho!

Enfim, o automobilismo soviético não tinha o nível do automobilismo europeu ocidental do período, nem mesmo do americano. Mas de qualquer modo é a prova de que havia o esporte nesse país que nasceu e morreu no Século 20. Mesmo o país naqueles tempos tendo aparentemente princípios diferentes daqueles que existe em nossa sociedade, não impediu de fazer existir um esporte de luxo como o automobilismo.

Caso algum colunista queira incrementar com alguma consideração final, ou alguma informação adicional, ou mesmo os leitores, será muito bom! Um fortíssimo abraço!

Antônio Pessoa,
Ubatuba-SP

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