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Mistérios no Oriente II 01.11.05
Escreva pra gente

A temporada de 76 havia terminado e Hunt era o novo campeão. Porém, o acontecido na reunião previa à corrida e, depois, na pista, é algo que deixou algumas dúvidas pairando no ar: Por quê alguns pilotos tinham tanto interesse em correr? Por quê a falta de combatividade de Regazzoni e Jones?

Com o passar do tempo, tudo foi sendo esquecido. Vários dos principais protagonistas daquela corrida sequer se encontram entre nós (Hunt, Brambilla, Pryce, Depailler, Pace e Nilsson). Contudo, com base em informações dispersas, é possível encontrar algumas possíveis explicações ao comportamento dos pilotos implicados naqueles acontecimentos:

- Clay Regazzoni - O suíço havia sido contratado pela Ferrari no fim de 1973 como primeiro piloto. Clay já havia estado na equipe e era muito querido por todos. Para o lugar de segundo piloto, a equipe ainda não havia tomado uma decisão e Clay lhes recomenda Niki Lauda, seu companheiro na BRM. Lauda, não era um dos pilotos pretendidos pela Ferrari, mas confiam em Clay e contratam o austríaco.

Mas Lauda logo se converteria no pior rival de Regazzoni. Talvez se Lauda tivesse sido minimamente agradecido com o suíço, este teria sido campeão em 1974. Clay se sentia profundamente decepcionado com Lauda desde então e sabia que não seguiria na equipe em 1977. Segundo alguns, Regazzoni também culpava Lauda disto.

Peterson e seu March
- Ronnie Peterson - O sueco também tinha motivos para desprezar Lauda. Peterson havia sido o escolhido para ocupar o lugar de Regazzoni em 1977. O acidente de Lauda em Nurburgring, meses antes do GP do Japão, precipitou as negociações e um acordo já havia sido alcançado para a sua imediata incorporação à equipe. Mas quando Lauda ficou sabendo disso fez de tudo para impedir a contratação de Ronnie. Dizem até que, estando ainda convalescente, Lauda conversou com Giavanni Agnelli, o presidente da Fiat, para evitar a entrada do sueco na equipe.

Quando Ronnie foi a Maranello para assinar o contrato, lhe disseram que haviam reconsiderado a decisão pois Lauda não o que queria na equipe. O sueco, completamente abatido, teve de ir embora com as mãos vazias.

- Jean Pierre Jarier - Os motivos de Jarier talvez sejam menos evidentes mas se parecem aos de Peterson: em 1973, Jarier vence o campeonato de Fórmula 2 com absoluta autoridade, logo adquirindo fama de ser um dos pilotos mais rápidos da época. No fim do ano, a Ferrari negocia com o francês a sua entrada na equipe para 1974. Parece que até um pré-contrato foi assinado, deixando Jarier muito entusiasmado. Mas o sonho acabou quando Lauda ocupou o seu lugar.

- Mario Andretti - Os motivos de Mario eram puramente pessoais. O americano não ousava arriscar a sua posição de primeiro piloto na equipe Lotus, contrariando Colin Chapman, que queria ver seus carros na pista. A Lotus já havia iniciado o projeto do carro asa e, inclusive, alguns testes haviam sido feitos em sigilo com um Lotus 77 modificado e equipado com saias. Nilsson, havia provado o carro e seus tempos, desde o principio, já eram melhores que os do modelo convencional. Andretti queria ser o piloto que disputaria o título com aquele novo carro.

Brambilla e seu March
- Vitorio Brambilla - No caso do italiano, a explicação é bem simples: Vitorio era um autêntico especialista em pista molhada. As condições em que se encontrava o circuito eram ideais para compensar as carências de seu pobre March. Brambilla apenas defendia os próprios interesses quando se mostrava disposto a correr.

 
 
 
 
 
 
 
 
Depailler chegou em 2o com seu Tyrrell de seis rodas

  - P. Depailler/T. Pryce - Mesmo sem chegar ao nível de excelência de Brambilla, tanto o francês quanto o galês eram pilotos que se desenvolviam muito bem na água. O interesse deles em correr, portanto, era lógico.


 
 
 
Arturo Merzario e seu Williams

  - Arturo Merzario - Arturo havia sido protagonista destacado no resgate de Lauda em Nurburgring. Foi ele quem, valentemente, liberou Lauda do cockpit em chamas da Ferrari, antes de receber ajuda de Edwards, Lunger e Ertl. Porém, quando Lauda se encontrava já bastante recuperado, convoca uma reunião com a imprensa para mostrar o seu agradecimento aos pilotos que lhe haviam salvado a vida. Sem embargo e surpreendentemente, Lauda não menciona o heroísmo de Merzario. Isto deixa Arturo muito magoado e pouco tempo depois Lauda tenta se desculpar mas tudo o que consegue é ofender Arturo ainda mais. Desde então, Arturo nunca ocultou o desprezo que sentia por Lauda.

Merzario assegurou ter corrido cumprindo ordens da equipe mas é fácil imaginar que, pelo menos naquela ocasião, não lhe teria sido muito difícil cumprir essas ordens.

- Alan Jones - Talvez a falta de combatividade do australiano seja a mais difícil de explicar. Talvez, simplesmente, não estivesse em condições de defender a posição. Porém, custa imaginar que Jones tivesse feito algo para impedir que um piloto britânico como Hunt ganhasse o campeonato, favorecendo Lauda que, dito seja, não desfrutava de muito carinho entre os aficionados britânicos desde o acidente que vitimou Williamson em 1973.

Que eu saiba, Jones não foi criticado pelo seu chefe, John Surtess, que havia sido piloto da Ferrari e acabou abandonando a equipe em circunstâncias nada amistosas.

Niki Lauda era um piloto frio e calculista, qualidades ideais na pista. Porém, e quiçá por isso, nos boxes nunca foi muito apreciado pelo resto de pilotos.

Talvez tudo se trate de simples coincidências e as circunstâncias pessoais de cada piloto não influíram nos acontecimentos mas resulta difícil substrair-se à tentação de ocupar o lugar de cada um deles e pensar no que teríamos feito naquelas circunstâncias. Teríamos atuado de forma diferente?

Talvez nunca tenhamos completo conhecimento do que aconteceu naquele GP. Mas os pilotos, até os nossos ídolos, no fim das contas, são apenas pessoas como vocês ou como eu - e o único certo é que ninguém é perfeito nem faz sempre o correto.

Grande abraço

Manuel Blanco
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