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Mistérios no Oriente I 27.10.05
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Era sábado, a pista estava completamente encharcada e sob uma inclemente e pertinaz chuva. A montanha, com suas perpétuas neves, presidia, indiferente, tudo o que acontecia lá embaixo aos seus pés, no circuito que haviam batizado com o seu nome: Monte Fuji.

Hunt e seu McLaren
Aquele seria o primeiro GP do Japão. Era 1976 e a corrida devia dirimir o título entre Niki Lauda e James Hunt. O austríaco chegava ao Japão com 68 pontos no campeonato, ante 65 de Hunt. No entanto, os pilotos não pareciam nada satisfeitos com a situação da pista. Mas, com certas objeções, iniciam os treinamentos.

 
Lauda abandonou voluntariamente a corrida
No dia seguinte, o domingo da corrida, 24 de novembro, e tal como havia sido previsto, as condições meteorológicas ainda são piores. Durante o warm-up vários pilotos derrapam violentamente e Larry Perkins inclusive arrebenta o seu Brabham nos guard rails. Assim, logo germina entre os pilotos um sentimento contrário à disputa da corrida. Vários pilotos se manifestam favoráveis a cancelamento da prova, entre eles Hunt. Lauda chega a dizer que, naquelas condições, não correria.

Aproveitando a aparente disposição dos pilotos de não correr sob condições tão adversas, Danielle Audetto, então manager da Ferrari, após conversar com Lauda, decide convocar uma reunião entre os pilotos e o diretor da prova, em busca de um acordo para suspender a corrida. Audetto estava convencido de que, com o apoio dos top-drivers, isso seria possível. Além de Lauda, Emerson Fittipaldi, Pace, Perkins e Hunt já haviam mostrado intenção de não correr.

Andretti, o vencedor em Mount Fuji
Quanto aos demais pilotos, Audetto era otimista. Regazzoni era membro da sua equipe; Andretti, como piloto formado nos Estados Unidos, não gostava nada de correr em pista molhada; Peterson e Scheckter também eram dos que nas gostavam de água e, além do mais, já não tinham nada em jogo naquela corrida e estavam trocando de equipes para a temporada seguinte. Os demais pilotos, sabia Audetto, não tinham suficiente relevância para influir na decisão final e fariam o que os Top-drivers decidissem.

Scheckter e seu Tyrrell
De acordo com o diretor da prova, Audetto começa a convocar os pilotos. Porém, Hunt declina comparecer à reunião. O inglês lhe diz que estava sendo fortemente pressionado a correr mas também lhe assegura que acataria a decisão que fosse tomada pelo resto de pilotos.

A reunião começa e, como já se sabia, Fittipaldi, Lauda, Pace e Perkins, reafirmam a sua intenção de não correr. Porém, e para surpresa de Audetto, Regazzoni se mostra partidário de que a corrida se celebre, assim como Andretti que, inclusive, logo depois declararia estar disposto a correr até nas neves do Fuji-yama.

Contudo, Peterson é quem mais se mostrava contrário à idéia de cancelar a corrida. Dentre os demais pilotos, a proposta de cancelamento também não encontrou muito apoio: Depailler, Jarier, Merzario, Pryce e, principalmente, Brambilla, não a apoiavam. Quanto aos japoneses Hasemi, Takahara e Hishine, é lógico pensar que para eles seria uma desonra negar-se a participar no seu próprio GP.

Sem consenso entre os top-drivers, as discussões se prolongam, até que chega a notícia que, definitivamente, inclinaria a balança a favor da disputa do GP: o circuito estava lotado e milhões de espectadores estavam perante os seus televisores esperando a transmissão da corrida.

Com uma hora e meia de atraso, o diretor da prova autoriza a largada. Andretti, o poleman, é superado por Hunt e Lauda, que estava na segunda fila, perde varias posições.

Hunt, como vinha sendo habitual durante toda a temporada, se lança com decisão em busca da vitória, seguido por Watson e Andretti. Lauda se retiraria na segunda volta, quando se encontrava em décimo lugar. Pouco depois, seria Perkins quem se retirava. Pace e Fittipaldi também se retirariam na volta 8 e 10, respectivamente.

Hunt seguia destacando-se na liderança porém, na metade da prova, a chuva começa a amainar e, pouco depois, conforme a pista secava, os seus pneus se degradavam mais e mais. Na volta 61, faltando doze para a bandeirada - e o título -, com os pneus no fim da picada, Hunt cede a liderança a Depailler. Pouco depois, Andretti lhe arrebata o segundo lugar. O terceiro lugar era suficiente para Hunt se proclamar campeão e Alan Jones e Clay Regazzoni, estavam muito longe. Mas, faltando apenas 5 voltas, o pneu dianteiro esquerdo de Hunt, já bastante castigado, não resiste mais e estoura.

Ele consegue chegar ao box mas perde muito tempo na troca dos pneus, voltando à pista atrás de Regazzoni e Jones. Na Ferrari, todos se sentiam aliviados pois isto dava o título a Lauda e, além do mais, Regazzoni era um osso duro de roer nas ultrapassagens. Alguns já festejavam o título de Lauda.

Porém Hunt, que simplesmente não sabia em que posição se encontrava devido ao nervosismo daqueles momentos, se lança a uma frenética perseguição dos pontos necessários para ser campeão. Rapidamente, alcança o suíço... que não oferece nenhuma resistência à ultrapassagem. Na volta seguinte seria Jones quem, também, seria superado com facilidade.

À frente de Hunt estavam apenas Depailler, que também tinha entrado no box para trocar um pneu, e Andretti. O americano havia mantido um ritmo conservador durante todo o GP, o que lhe terminaria dando a vitória.

Mas restava por explicar os muitos mistérios que cercaram esta estranha e surpreendente corrida. Por quê alguns pilotos acabaram correndo, mesmo depois de se dizerem contrários à realização da corrida? Por quê, em na fase decisiva da prova, tantos pilotos perderam misteriosamente a combatividade?

Vou tentar elucidar estes mistérios em nosso próximo encontro.

Grande abraço

Manuel Blanco
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