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15.12.08 - Luis Fernando Ramos |
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12.12.08 - Alessandra Alves |
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10.12.08 - Roberto Agresti |
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19.12.08 - Eduardo Correa |
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27.10.08 - Luiz Alberto Pandini |
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17.12.08 - Ricardo Divila |
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01.12.08 - Ernesto Rodrigues |
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| » » » 31.03.05 |
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| Hungria, 86. Um olhar diferente. |
31.03.05 |
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Por Márcio Madeira da Cunha
Há cerca de quinze dias eu tive a idéia de editar um vídeo com o "pega" de Hungaroring e escrever um texto sobre ele. Qual não foi a minha surpresa ao ver que o GPtotal se antecipou, e fez as duas coisas antes de mim. No entanto, após ler as colunas dos mestres Pandini e Edu, bem como as sempre boas cartas dos leitores, percebi que meu texto não estava invalidado. Na verdade, Panda me poupou o trabalho de descrever a corrida (e o fez muito melhor do que eu faria). Além disso, os comentários que reproduziu, bem como as observações dos leitores, são exatamente o que eu precisava para defender meu ponto-de-vista
Antes de desenvolver minha argumentação quero dizer que esta foi a ultrapassagem mais linda que eu já vi, e que considero Piquet o piloto mais talentoso dentre os que acompanhei na Fórmula-1. Mas nem por isso o melhor deles.
Esta ultrapassagem é um assunto cíclico entre os leitores. A grande maioria concorda com Flávio Gomes, e não hesita em dizer que Piquet humilhou Senna na pista aquele dia. Alguns "sennistas" concordam; a maioria se cala, e uns poucos se arriscam, dizendo que Ayrton deixou Piquet ultrapassar, que Senna não quis assumir riscos, que ele não lutaria com outro brasileiro, ou coisas do gênero. Os fãs de Ayrton sofrem sempre as conseqüências deste tipo de defesa, que, me perdoem, é patética. Senna não tem nada a ver com os absurdos que escrevem sobre ele.
Bem, eu discordo redondamente do que escreveu Flávio Gomes. Se eu fosse Senna, não teria nenhuma razão para sair de Budapeste em 1986 humilhado. Ayrton teve um fim de semana brilhante na Hungria, a começar pela qualificação. Com sua velocidade natural, o brasileiro conseguiu aproveitar toda a potência do motor de treinos da Renault e compensar a deficiência de chassis de seu Lotus, numa pista travada e sem muita aderência. Conquistou a pole com mais de 3 décimos de vantagem para Piquet, se posicionando imediatamente à frente de Williams e Mclarens. Carros superiores, pilotados por 4 campeões mundiais, que somados abocanharam nada menos que 9 títulos.
Os motores Renault eram famosos pelo alto consumo, e isso reduzia drasticamente seu desempenho em corridas - numa época em que o reabastecimento era proibido. Se não fosse, Ayrton teria disputado prova a prova os títulos de 85 e 86. Pistas como Hungaroring, Mônaco e Jerez, bem como corridas debaixo de chuva, eram as poucas oportunidades que ele tinha de acompanhar os pilotos das duas equipes inglesas. Vale dizer que - em condições de corrida - seu Lotus não era majoritariamente superior às Ferraris ou Benettons, nem muito menos ao Mclaren de Rosberg. E Senna superou todos estes no decorrer do campeonato.
Ao longo da corrida, Ayrton e Nélson confirmaram seus estilos diferentes. Senna, descendente, pulou na ponta ditando o ritmo da prova. Para ele, a primeira volta era a mais importante de uma corrida. Por isso, tal como Clark, era comum ver Senna posicionado muito à frente do que seu equipamento poderia sugerir. Senna tinha o mesmo objetivo de Fangio - outro piloto descendente - ou seja: ganhar, andando o mínimo possível.
Piquet, ao contrário, não dava tanto peso às qualificações, nem era tão rápido quanto Ayrton - o que, aliás, ninguém era. Costumeiramente também largava mal. Tinha um perfil notadamente ascendente. Suas vitórias eram construídas a partir de uma preparação fina do carro (e nisso Piquet era imbatível), de um ritmo extremamente forte de corrida (cuidadosamente conjugado com um aguçado senso de preservação do equipamento), e, sobretudo, de fartas e belas ultrapassagens. Piquet assina, além desta, muitas das mais belas manobras já vistas na categoria.
Vejamos rapidamente um pouco de teoria:
Para que exista uma ultrapassagem, é fundamental que um conjunto carro-piloto mais veloz esteja, por alguma razão, posicionado atrás de um conjunto mais lento. Quanto maior esta diferença de rendimento, mais provável a ultrapassagem, e menos provável o "pega". Por outro lado, se o rendimento de ambos é parecido, requer-se mais arrojo e perícia de quem vem atrás para uma tentativa bem sucedida. E uma reação por parte de quem vem à frente não pode ser descartada. Foi o que ocorreu na Hungria, e acontece na maioria das grandes ultrapassagens.
Ora, de acordo com esta lógica, Senna já teria muitos méritos só por conseguir, no terço final da prova, ainda estar posicionado em primeiro. Mais que isso: ele estava mais de uma volta à frente do terceiro colocado - nada menos que Nigel Mansell pilotando um carro muito superior. Não é justo resumir a coisa a um "Piquet humilhou Senna", quando Senna, num carro inferior, foi o único piloto a brigar com Nélson naquele dia. Mais justo seria dizer: Piquet humilhou Mansell, ou Piquet humilhou a todos. Senna, dos que estavam lá, foi quem mais mereceu estar fora deste título. Não fosse sua raça, Piquet não teria tido a chance de assinar sua obra-prima.
Pelo mesmo raciocínio, a disputa só teve lugar porque Piquet largou mal e se posicionou mal em relação a Ayrton por boa parte da prova, tendo de lutar para ocupar um lugar (à frente de Senna) que seria seu por direito. É bem verdade que se atrasou em sua troca de pneus, mas não foi este o fator decisivo. Em sua arrancada final, Piquet mostrou ter muito mais equipamento, e as imagens deixam claro o quanto ele era mais veloz nas retas. Em geral, o público valoriza mais as corridas de recuperação. Mas pouca gente se lembra que muitas delas seriam desnecessárias caso o conjunto mais forte estivesse posicionado conforme seu potencial, desde o início da competição.
Outro ponto importante: Se Ayrton fosse um piloto comum, bastaria a Piquet realizar uma manobra convencional. Na 12ª volta, Piquet ataca Senna e este não se defende. Foi assim, também, que Piquet superou Mansell ainda mais cedo. Mas a coisa muda de figura quando a prova se aproxima de seu fim. Agora Senna se defende, e não resta a Nélson nada menos que ser brilhante. Ele extrapola, e reinventa a pilotagem.
Pensando bem, não poderia ser diferente. Coloque na liderança um piloto extremamente veloz e totalmente comprometido com a vitória, guiando um equipamento competitivo, porém inferior. Acrescente a este piloto um talento especial para evitar ser ultrapassado. Atrás dele, ponha um piloto muito talentoso - talvez o mais talentoso de todos - e de ritmo extremamente forte, num carro excelente e muito bem acertado, que largue quase sempre mal e que seja o maior especialista em ultrapassagens da Fórmula-1 moderna. Seria bom se este piloto estivesse numa fase conturbada, precisando muito da vitória. Conceda aos dois qualidades que os permitam vencer, cada um, ao menos 3 títulos mundiais em tempos de grande competitividade. Ah, escolha uma pista travada, que dê chances ao primeiro de se defender e obrigue o de trás a mostrar todo seu repertório. Tá bom? Ainda não. Falta o principal: os dois podem ter a mesma nacionalidade, e devem nutrir uma enorme rivalidade mútua, a maior que se possa conceber, penetrando, preferencialmente, a vida íntima de cada um.
Pronto. Eis o panorama que se desenhou para aquela corrida. A verdade é que para uma manobra como esta acontecer, não basta um piloto superdotado. O ultrapassado também precisa ser fantástico. E isso acontece em muitos dos casos em que se fala de humilhação.
Por fim, a todos os que insistem nesta tese: Se o que vocês entendem por humilhação é:
1- ganhar uma fortuna para ser o primeiro piloto de uma legendária Lotus preta JPS;
2- protagonizar uma das mais belas disputas da rica história da categoria máxima do automobilismo, ainda mais na primeira corrida disputada na Cortina de Ferro;
3- dispondo de equipamento inferior, ser capaz de dar uma volta em Mansell e levar um tricampeão do quilate de Piquet a tal extremo de pilotagem;
4- ter a chance de acompanhar in loco, no mais privilegiado dos ângulos, a maior demonstração de controle sobre um carro, a mais bela ultrapassagem já mostrada pela televisão, bem, então ser humilhado é o sonho da minha vida.
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