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Passeio em Nürburgring 12.03.05
Escreva pra gente
Por Victor Lagrotta

Edu e Panda,

Conforme prometi aos novos amigos que conheci na festa de lançamento do livro do Flavio Gomes (o ponderado Olavo, o técnico Habara, o investigativo Caíque, o detalhista Carlos e o ferrarista Romeu), consegui recuperar as fotos da minha visita a Nürburgring em 87 (não sei por quê, mas prefiro inflação galopante à estabilidade espoliativa, mas o site não versa sobre economia). Para arrancar as fotos da ex-, eu derrubei o Automobile Year de 1989 no pé dela e saí correndo (se ficar perdido em definitivo, tudo bem, o campeão do ano foi o Prost mesmo) .

A viagem foi meio despedida de solteiro (melhor que encher a cara na zona, ouvir música ruim e ver desfile de baranga) e fui com um amigo da faculdade (se alguém falar que parece casalzinho em lua-de-mel, eu vou aplicar o mesmo corretivo que o Piquet deu no Salazar em Hockenheim).

No início, passamos no novo circuito e visitamos o museu que tem lá. Existia um memorial para o Rolf Stolemmann (uma lição para nós, que esquecemos de pilotos muuuito melhores) e tinha um protótipo do 917 para CAN-AM com um motor de 16 ou 18 cilindros, antes deles colocarem o turbo e virarem 917/10 e 917/30 (o Carlos vai fazer o favor de esclarecer o assunto). Depois, seguimos a estrada até a entrada do Vaticano, quer dizer, do circuito antigo, o Nordschleife .

Na Foto 1, aparece a vila de Nürburg (está na placa), e o castelo que dá nome ao lugar. A rua de acesso à pista é uma travessa à esquerda cuja esquina aparece no lado esquerdo da foto (lado contrário do carro). Entrando na rua, você anda uns 100 metros e dá de cara com uma guarita e uma cancela, com um velhinho mal-humorado que só fala um dialeto alemão misturado com aramaico (alemão em conheço um pouco, então deu para se virar). Hoje você paga 25 Euros, e recebe um cartão de papel reciclado em que está escrito que você está entrando em uma pista de corrida, que o risco é seu e eles não dão nenhuma assistência mecânica, médica ou espiritual (recomendo que você ande com um esculápio, crucifixo, estrela de David ou fitinha do Nosso Senhor do Bonfim para facilitar a extrema unção e a identificação do corpo), que aquilo é uma estrada (é verdade, às vezes tem trator rodando entre fazendas), que as regras de trânsito se aplicam e a policia investiga acidentes e processa os culpados. Se você der mais 5 euros para o vovô (será que é parente do Shummy?), ele vai abrir um sorriso maior que a distância de Koblenz a Istambul, vai dizer Auf Wierdersehen (até a vista, se você for bom de braço) e promete não contar para a sua mãe nem para a locadora onde você conseguiu aquela reconfiguração dinâmica no pára-lama (traduzindo: amassado, acidente, porrão). Tem gente que bateu no miolo e ficou por lá mesmo, casou, teve filhos etc. É melhor que enfrentar o cara da seguradora, a sua mulher, sogra e a polícia alemã.

Para ver como é perigoso, o presidente da subsidiaria alemã da Fiat morreu em 2.003 treinando com um Alfa 147 para a prova de 24 horas. Dizem que você começa a pegar o ritmo depois de 50 a 100 voltas. As locadoras da região já perderam centenas de carro no circuito, então é melhor alugar em cidades distantes, onde você pega carros melhores e vai treinando na Autobahn (brincadeira! Tome cuidado, porque os caras te passam a 250 km/h).

É normal ter fila, porque o tiozinho fica segurando os carros para dar um intervalo, senão fica parecendo classificação da DTM (alemã, não corrida de picapinha). Também, se ocorre chuva forte, neve ou neblina, eles fecham a pista. Muitas montadoras testam lá, dizem que o pessoal da Porsche é o mais legal, e anda junto com a turma. O Walter Rörhl, campeão de rally e piloto de desenvolvimento deles, tem um passe trimestral (400 euros) e roda em 8m00 num 911 Carrera (versão 997), 7m50 no 911 Turbo (996, com um canhão de 415 HP, mas pesado como a lista de pecados do PT, e com tração nas 4), 7m40 com um 911 GT3 RSR (também 996; o jornalista que andou com ele teve náusea e vomitou), provando que peso reduzido e chassis balanceado fazem a diferença, e 7m37 para o 911 Turbo GT2 (996; 450 HP brutos, tração traseira e controle de estabilidade mais ausente que moral de congressista votando o próprio aumento). Outras montadoras (Mercedes, BMW, GM e japonesas) fecham a pista para 2 ou 3 dias, então você corre o risco de encontrar o acesso fechado. A Ferrari quase causou um incidente diplomático há 2 anos quando fecharam a pista e levaram uns caras armados da Calábria e da Sicilia para fazer segurança; quase que a OTAN baixa lá.

Consulte o site www.nurburgring.de, parte em alemão, parte em inglês, que lá eles dão a programação, ajudam com hospedagem, gastronomia etc. Procure Nordschleife. Normalmente, a pista fecha às 18 horas, mas meia hora antes o vovô tranca a cancela. No dia é bom telefonar e confirmar as condições; geralmente o pessoal do hotel liga e repassa a informação em inglês. O que é legal também é usar o táxi, uma BMW M5, que custa 130 Euros para 3 passageiros. O piloto é o Sabine Schmitz, que ganhou 2 vezes a prova de 24 horas. Reserve hora pelo site também.

Entrando na pista, você tem uma bela vista do castelo e a placa que diz "Nürburgring, a pista de corrida mais bonita do mundo" (Foto 2). A partir daí, é uma longa descida, uma ponte estreita e uma subida de serra (a diferença de altitude é de exatos 300 metros) com uma sucessão de curvas, trechos em retas e visões místicas, mistura de serra velha de Santos com a Anhanguera, estradas projetadas nos anos 30 também. Muitos trechos que parecem reta são na verdade uma seqüência de "esses" rápidos e retas curtas. O tempo vem na razão direta da sua coragem e inversamente proporcional à sua responsabilidade. A gente deu uma escorregada num trecho com gelo e quase tivemos um encontro íntimo com o guard-rail (a culpa foi do fotógrafo, não do modelo - eu próprio; por isso a Foto 3 está tremida). Isto é black ice; você pensa que é asfalto e escorrega. Cuidado, principalmente com os trechos na floresta, onde o asfalto não pega sol. Algumas curvas têm a tomada mais cega que o Panda (te vi na TV, amigo; a sua cirurgia de vista justifica algumas opiniões externadas aqui no GPTotal... brincadeirinha!).

Se vale a pena? Pra mim é como ir visitar a capela Sistina, o Louvre, ou Veneza. E andar lá só aumentou o meu respeito por gente como Nuvolari, Caracciola, Rosemayer, Fangio, Colins, Moss, Clark, Hill, Stewart, Emerson, Moco, Siffert, Rodriguez, Bell, Icky (o nome do cara parece soluço, mas ele mandava muito bem). Tem um vídeo do Derek Bell e do Icky andando de 956 lá. O Habara vai fazer o favor de indicar o nome.

Última recomendação: ande uns 30 km para o leste e faça a parte final do vale dos rios Saar-Mösel, onde eles produzem excelentes vinhos brancos (tem videira que foi o Julio César que plantou). Pare nas adegas (normalmente a adega é embaixo, e a casa da família, em cima), identificadas por uma pequena vitrine com garrafas de vinho, e saboreie e compre algumas garrafas. O povo é simpático, sabe que o alemão é língua difícil e se esforçam para te ajudar. Passe antes numa padaria ou supermercado, compre pão, queijo e frios e faça piquenique nas áreas de descanso ao lado das parreiras (beba com moderação porque a Polizei faz comandos com o uso de bafômetros; se você enrola a língua para falar alemão, imagina com o casco cheio).

Para encerrar um belo dia, só ouvindo a Nona Sinfonia. Ou o Deep Purple, ou o Santana, ou o Lenny Kravitz, sei lá. Eu talvez prefira a música de um bom 12 cilindros em V, berrando nos 8.000 giros.

Abraços
Victor Lagrotta
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