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Números (parte 1 de 2)
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NÚMEROS, NÚMEROS, NÚMEROS



O GPtotal recebe regularmente dúvidas de leitores sobre o sistema de numeração dos carros de Fórmula 1. Por isso, decidi “ressuscitar” um artigo que escrevi no começo de 1994 para a revista Grid, onde eu fui repórter e, depois, editor.
Embora o texto básico permaneça o mesmo, o especial traz as devidas atualizações, corrige algumas das informações que foram publicadas na revista e acrescenta outras. É bom lembrar que, na época, não havia internet operando comercialmente no Brasil: as fontes de pesquisa eram unicamente livros, revistas e, principalmente, a memória. Além do advento da internet, ao longo desses nove anos minha biblioteca recebeu reforços consideráveis, o que me ajudou a descobrir curiosidades e, também, alguns erros e omissões cometidos no texto - todos devidamente corrigidos no texto abaixo. De quebra, conto uma historinha de bastidor, que mostra como é dura esta vida de jornalista especializado... Boa leitura. Espero que vocês gostem!
(Luiz Alberto Pandini)


Como é e como já foi feita a numeração dos carros de F 1


Muitas pessoas imaginam que são os próprios pilotos de Fórmula 1 que escolhem os números que irão usar durante o ano. Outros têm certeza de que a escolha é das equipes. Há os que se aproximam mais da realidade e acham que a numeração é determinada pela FIA. Mas sempre resta a dúvida: como são escolhidos os números dos carros de F1?

A resposta exige uma volta ao passado. Até 1972, não havia critérios fixos. Os números mudavam a cada GP e alguns organizadores tinham regras muito próprias. Em alguns GPs, usavam-se apenas os números pares; no GP da Alemanha de 1952, todos os pilotos correram com números acima de 100. Podia ainda acontecer de carros de uma mesma equipe ficarem com números distantes (5 e 18, por exemplo). Também não havia o padrão de atribuir ao campeão mundial o número 1 ou o mais baixo, embora isso acontecesse em várias oportunidades.

A partir do GP da Bélgica de 1973 (quinta corrida do ano), a FIA determinou uma numeração fixa que valeria até o final do ano. Em comum com o sistema de hoje, apenas o fato de o número 1 ser destinado ao campeão mundial do ano anterior (no caso, Emerson Fittipaldi) e o 2 ficar com seu companheiro de equipe (Ronnie Peterson).

Em 1974, os números foram arrumados, de acordo com a classificação do campeonato de construtores do ano anterior e com as equipes recebendo sempre dois números consecutivos (embora ainda houvesse casos isolados de inscrição de terceiro carro). O número 1, destinado ao campeão mundial, ficou naquela temporada com Ronnie Peterson. Jackie Stewart, campeão de 1973, havia parado de correr e os números 1 e 2 passaram para a Lotus, campeã do Mundial de Construtores. A Tyrrell, segunda colocada, ficou com o 3 e o 4, e assim por diante.

Nessa época, estabeleceu-se também um sistema de troca de números entre as equipes campeãs. Exemplo: em 1979, a Ferrari foi campeã usando o 11-12. Em 1980, ela usou 1-2, enquanto a Lotus (que usava o 1-2 em 1979) herdou o 11-12. No ano seguinte, a Ferrari passou a ter os números 27 e 28, herdados da Williams (campeã em 1980). As outras equipes permaneciam com os mesmos números, exceto em casos de remanejamento - causados, principalmente, pelo desaparecimento de equipes com números baixos. A Lotus, que faliu no começo de 1995, deixou seus 11-12 para a Simtek, que em 1994 usava o 31-32. A Simtek resistiu menos de meia temporada e também fechou as portas.

A partir de 1996, a FIA determinou que a ordem de numeração das equipes seria determinada pela classificação de cada uma no Mundial de Construtores. Ou seja, a equipe campeã leva o 1-2, a vice-campeã fica com o 3-4 e assim por diante. Por superstição dos pilotos e chefes de equipe, a seqüência “pula” o número 13.

Como já acontecia antes, o número 1 pertence sempre ao piloto campeão mundial. Se ele mudar de equipe, leva o 1 (e conseqüentemente também o 2) para a nova equipe. Foi o que aconteceu nas temporadas de 1988 (Piquet na Lotus, depois de conquistar o título de 1987 pela Williams), 1990 (Prost levou o 1-2 para a Ferrari, tendo sido campeão mundial de 1989 pela McLaren) e, já sob as regras atuais, 1996 (a Benetton, campeã de pilotos e construtores em 1995, ficou com o 3-4 devido à mudança de Schumacher para a Ferrari) e 1997 (Damon Hill, campeão mundial de 1996 pela Williams, correu em 1997 pela Arrows).

A não ser em casos raríssimos, identificar um piloto de F1 pelo número só é possível em fotografias. Com o carro em movimento, isso se torna bem mais difícil, mesmo pela TV. Nos anos 50 e 60, quando a cronometragem era manual, os números eram enormes e pintados em cores que o destacassem bem do fundo do carro. Na década de 70, fixou-se um mínimo de 30 cm no tamanho e 4 cm de espessura do traço. Em 1984, a FOCA diminuiu esses números pela metade - e a identificação à distância e em movimento ficou ainda mais difícil. E, desde 2002, as equipes foram dispensadas de usar números nas laterais - a única aplicação obrigatória é na frente do carro. Tudo isso porque, para os senhores que controlam a FIA, o espaço dos números pode perfeitamente ser ocupado por patrocinadores. Uma visão discutível, já que em outras categorias o número do piloto chega a ser instrumento de merchandising. No Mundial de MotoGP (cujas regras para números são bem menos restritivas que as da FIA para a F 1), Valentino Rossi não abre mão do seu 46, mesmo tendo direito de usar o 1 destinado ao campeão mundial. Na Nascar, qualquer objeto que tenha o 43 de Richard Petty é objeto de adoração por parte de seus fãs.

Com a diminuição dos números, os fãs e jornalistas passaram a apelar para o capacete para identificar de quem é o carro de uma determinada equipe. Mas de alguns anos para cá até isso ficou difícil, já que os cockpits, em nome da segurança, tornaram-se mais envolventes, “escondendo” a figura do piloto. Com isso, diferenciar os carros de uma mesma equipe tornou-se possível somente em determinados ângulos e se os pilotos usarem “cascos” de cores radicalmente diferentes. Resta decorar as diferenças em detalhes na decoração dos carros (cor do suporte das câmeras, adesivo colorido no bico, pequenos filetes nas asas).


CURIOSIDADES SOBRE NÚMEROS



Jody Scheckter e seu McLaren número zero.
0 - Foi usado em caráter excepcional por Jody Scheckter nos GPs do Canadá e Estados Unidos de 1973. Damon Hill acabou usando o 0 por dois anos seguidos (1993 e 1994), graças às ausências de Nigel Mansell e Alain Prost (leia mais no texto seguinte).




1 - Desde 1973, é destinado ao campeão mundial do ano anterior, mesmo que este piloto mude de equipe na temporasa seguinte à da conquista do título.

Piquet e o número 1 em 1984.


2 - Fica sempre com o “outro” piloto da equipe do campeão mundial.

3 e 4 - São os recordistas de permanência em uma mesma equipe: pertenceram à Tyrrell entre 1974 e 1995 - a equipe só deixou de te-los devido às mudanças de regras de numeração em 1996. Registro histórico: no começo de 1984, a FISA quis dar esses números à Ferrari, passando a Tyrrell para o 9 e o 10. René Arnoux e Michele Alboreto, pilotos da Ferrari, chegaram a posar para fotografias com uma “rossa” com o número 4, mas Ken Tyrrell protestou e recuperou a “posse” de seus números tradicionais. A Ferrari, por sua vez, continuou com o 27 e o 28.

5 - Depois que os carros passaram a ter o mesmo número durante todo o ano, foi o que deu mais títulos (7) a seus portadores: Emerson Fittipaldi (1974), Mario Andretti (1978), Nelson Piquet (1981 e 1983), Nigel Mansell (1992), Michael Schumacher (1994) e Damon Hill (1996).

Mario Andretti em 1978, um dos campeões com o número 5.


6 - Foi usado por Emerson Fittipaldi no GP da Itália de 1972, quando conquistou seu primeiro título de F 1, e por Nelson Piquet no ano do tri, em 1987.

7 - Já foi um número usado com freqüência por pilotos vencedores. Pertencia a John Watson no GP de Long Beach de 1983. Naquela corrida, o norte-irlandês da McLaren largou em 22º lugar (entre 26) e venceu a corrida. Niki Lauda, seu companheiro de equipe (número 8), largou em 23º e terminou em 2º.

8 - Era o número de José Carlos Pace em 1975, ano de sua única vitória na F 1 (GP do Brasil). E foi usado por Ayrton Senna em 1993, quando ele venceu suas últimas corridas - incluindo o histórico GP da Europa, em Donington.

Ronnie Peterson e seu March número 10 em 1976.
9 - Era de Olivier Panis no GP de Mônaco de 1996, quando ele conseguiu vitória surpreendente - a última da equipe Ligier. Em 2001, depois de um ano afastado da categoria, Panis voltou a correr pela BAR. Teoricamente, o primeiro piloto Jacques Villeneuve receberia o número 9 e a Panis caberia o 10. Mas Craig Pollock, então chefe da BAR, resolveu dar a Panis o mesmo número que ele havia usado naquele ano de 1996. Oficialmente, foi para evocar a vitória de Mônaco. Mas há quem aposte em superstição pura e simples - que, no caso, não serviu para nada.

10 - Ao contrário do que acontece no futebol, é um número sem tradição na F 1, embora alguns pilotos tenham vencido corridas com ele.





Veja a 2ª parte do especial "Números"

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