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| » » 24 Horas de Le Mans |
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Por Luiz Alberto Pandini
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| O traçado das 24 Horas de Le Mans: mais de 13 km |
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O nome diz tudo: correr em Le Mans significa fazer um automóvel funcionar ininterruptamente durante um dia inteiro, andando o mais rápido possível. Um árduo teste para carros, pilotos, mecânicos e até espectadores.
O circuito de Le Mans sediou a primeira corrida do mundo a receber o nome "Grande Prêmio". Foi em 1906, e o vencedor foi o húngaro Ferenc Szisz. A 24 Horas de Le Mans surgiu em 1923, inicialmente com o nome "Grand Prix de Endurance du Mans" mas já com a duração que a tornaria famosa. Ganhou importância e, em pouco tempo, passou a atrair pilotos profissionais e amadores de todos os tempos. Para as fábricas, uma vitória em Le Mans é um atestado definitivo da qualidade de seus carros. A largada acontece às 16h00 de sábado e a chegada, às 16h00 do dia seguinte. Como a prova acontece no verão europeu, a noite só costuma cair por volta das 20h00.
A partir dos anos 50, a 24 Horas de Le Mans foi incluída no Campeonato Mundial de Marcas (mais tarde Endurance, e depois Protótipos). Mas sua importância é única: por diversas vezes, a prova não fez parte de campeonato algum, em especial devido a discordâncias de regulamento técnico. É o que acontece atualmente. A magia de Le Mans, porém, está mais viva do que nunca: é uma das últimas ligações entre os primórdios do automobilismo e os tempos modernos. Algumas de suas histórias mais marcantes estão reunidas neste especial.
Tabu a ser quebrado
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| José Carlos Pace e sua Ferrari: 2º lugar em 1973 |
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Le Mans ainda é um tabu para o Brasil: nenhum brasileiro conseguiu vencer esta corrida. As melhores colocações foram dois segundos de José Carlos Pace em 1973 (pela Ferrari, em dupla com Arturo Merzario) e de Raul Boesel em 1991 (dividiu um Jaguar com Davy Jones e Michel Ferté).
O primeiro brasileiro a participar da corrida foi Bernardo de Souza Dantas, em 1935, com um Bugatti ( leia entrevista exclusiva com ele ).
Nos anos 60, Le Mans foi uma pista maldita para os brasileiros. Em 1961, o paulista Fritz D'Orey, piloto da Ferrari e nossa grande esperança da época, sofreu um grave acidente durante os treinos e passou oito meses em coma. Algumas agências de notícias chegaram a anunciar sua morte, mas ele recuperou-se perfeitamente e hoje mora no Rio de Janeiro.
Dois anos depois, Le Mans custou a vida de Christian Heinz, o "Bino". Heinz era o chefe do departamento de competições da poderosa equipe Willys no Brasil e estava em Le Mans competindo pela equipe oficial da Alpine (marca de carros esporte ligada à Renault e que tinha estreita ligação com a Willys). Heinz sofreu seu acidente ao deslizar no óleo deixado pelo motor estourado de um Aston Martin pilotado por Bruce McLaren. Se não fossem esses acidentes, D'Orey e Heinz certamente teriam antecipado em alguns anos a presença vitoriosa do Brasil no automobilismo internacional.
"Brasileiros atrevidos"
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| Paulão, Guaraná e Marinho: 7º em 1978 com um Porsche alugado |
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Vários brasileiros marcaram presença em Le Mans. Nelson Piquet correu duas vezes (foi 8º colocado em 1996 e abandonou em 1997, correndo com um McLaren F1 GTR). Antônio Hermann de Azevedo conseguiu a mesma colocação em 1997, correndo com um Porsche 911 GT3. Maurizio Sala participou de várias edições, conseguindo como melhor resultado um 4º lugar em 1995. Roberto Moreno, Thomas Erdos e André Lara Resende também correram em Le Mans.
Mas poucas participações foram tão auspiciosas quanto a do trio Paulo Gomes/Alfredo Guaraná Menezes/Marinho Amaral, em 1978. Os três eram pilotos de destaque no automobilismo nacional, sendo Paulão o único com experiência em corridas no exterior (uma temporada na F 3 inglesa, em 1976). Correndo com um Porsche 935 Turbo alugado, eles terminaram em 7º lugar na classificação geral e em 2º na categoria GT. "No primeiro treino, eu berrava dentro do carro: 'Que tesão! Que tesão!'", recorda Paulão, único que continua correndo. Guaraná tornou-se chefe de equipe e Marinho morreu em um acidente de trânsito em São Paulo em 1988.
"LARGADA LE MANS"
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Antigamente a largada era assim: pilotos de um lado, carros do outro |
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Até 1969, a largada em Le Mans era dada totalmente diferente de hoje: eles ficavam em um lado da pista e, ao som de um tiro, corriam para seus carros. Estes ficavam alinhados junto ao boxes, formando um ângulo de 45 graus em relação à pista (não havia mureta de separação entre os boxes e a pista). Era chamada de "largada Le Mans".
Esse procedimento foi mudado no final dos anos 60: os pilotos passaram a aguardar a largada dentro dos carros, que continuavam alinhados da mesma maneira. Em 1971, a "largada Le Mans" foi abolida de vez, sendo substituída pela largada em movimento.
Primeiros tempos
Assim eram os carros que correram nas primeiras edições das 24 Horas de Le Mans. Este é o Chenard & Walker de André Lagache/René Leonard, vencedor da primeira edição, em 1923. O circuito também mudou bastante, como se pode ver por estas tomadas da grande reta e do Bentley vencedor em 1924.
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O primeiro vencedor da 24 Horas: Chenard & Walker de André Lagache/René Leonard |
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| O Bentley vencedor em 1924 |
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A SINA DE LEVEGH*
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Pierre Levegh e seu Mercedes em 1955
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| Tragédia: o Mercedes de Levegh pega fogo e destroços do carro matam 81 pessoas |
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*contribuição do leitor Alexandre Zamikhowsky Filho.
Le Mans foi também o carma do piloto francês Pierre Levegh. Em 1951, num Talbot, ele terminou em 4º lugar. Ao terminar a prova, ficou com uma idéia fixa: ganhar no ano seguinte. Comprou da Talbot um carro novo e o preparou sem se preocupar com dinheiro. Até esse ano, não havia regulamento específico sobre o tempo que cada piloto poderia permanecer guiando.
Levegh foi fazendo sua corrida, suas paradas programadas e no meio da madrugada, numa das paradas, é informado que está na liderança. Até ali, não tinha cedido o carro ao seu co-piloto. Apesar de estar muito cansado, a notícia lhe injeta uma energia nova. Volta à pista e, ao amanhecer, após umas 16 horas de corrida, já tinha algumas voltas de vantagem sobre seus perseguidores, que corriam com Ferrari, Mercedes, Aston Martin e Talbot. Em uma das paradas seguintes, seu aspecto era tão lastimável que toda a equipe, seu co-piloto e sua esposa, lhe imploram que ceda o carro. Levegh está tão hipnotizado que simplesmente os ignora e parte novamente. Ele, um francês, com um carro francês, preparado por ele, vencer sozinho as 24 Horas...
Na última parada nos boxes, cerca de duas horas antes do fim da prova, Levegh está com aspecto de zumbi. Ninguém mais lhe pede para passar o carro ao co-piloto. Ele ia conseguir aquela glória imortal para a França. No circuito todo ninguém desgruda os olhos do Talbot nº 8.
Uma hora e meia para o fim. Levegh na ponta, com uma vantagem enorme sobre o segundo colocado. Seus tempos variavam, seu traçado era irregular, mas eleprosseguia. Uma hora... 40 minutos para o final. Numa redução, ele erra uma marcha e seu motor quebra, na frente de uma platéia incrédula. Encosta o seu carro à margem da pista. A multidão está paralisada. Alguém se aproxima, vê o piloto descer do carro e voltar a pé aos boxes. Sua mulher o recebe. Terminava sua aventura. A multidão após os momentos de silêncio, de incredulidade, vê um sonho se desfazer, e todos começam a criticá-lo...
Em 1953 e 1954 Pierre Levegh competiu novamente nas 24 Horas, mas não foi bem. Em 1955, a Mercedes o convidou para guiar um dos seus 300SLR, em dupla com o americano John Fitch. Nos outros dois carros, vão Fangio e Kling. Começa a corrida e Fangio e Mike Hawthorn, num Jaguar, começam um verdadeiro racha, sensacional. Pelas 18:30, Hawthorn vem pela reta dos boxes muito rápido e de repente, após ultrapassar um pequeno Austin-Healey pilotado por Lance Macklin, resolve entrar nos boxes, à sua direta (não havia muro separando a pista dos boxes). Freia forte e desvia para os boxes. Macklin, no reflexo, joga seu carro para a esquerda, no exato momento que Levegh, em seu Mercedes, vem passando, a uns 250 km/h. Não há tempo para nada.
O Mercedes sobe na traseira do Austin-Healey, bate ainda na mureta entre a pista e a tribuna e, voando em chamas e aos pedaços, cai em cima do público. Morrem 83 espectadores e tembém Pierre Levegh. Os organizadores decidem não paralisar a prova: se o fizessem, o congetsionamento na saída do circuito prejudicaria o transporte dos feridos. Às duas da madrugada, a Mercedes retira seus carros da prova.. Hawtorn vence e mais tarde é declarado inocente do ocorrido.
No final de 1955 a Mercedes se retira também da Fórmula 1. Ainda como conseqüência do acidente em Le Mans, a Suíça decide banir de seu território as competições automobilísticas - a proibição dura até hoje. Depois de Le Mans-1955, o automobilismo nunca mais seria o mesmo
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