Sessão Especiais
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
21.11.08
Cartas - Segunda quinzena de Novembro
Cartas - Primeira quinzena de Novembro
Friends
21.11.2008
Motores diferentes
Kers: a nova polêmica da F1
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
17.11.08 - Luis Fernando Ramos
O melhor e o pior da (cobertura da) F-1 em 2008
05.11.05 - Eduardo Correa
Os deuses galhofeiros
02.11.08 - Alessandra Alves
Som e fúria
29.10.08 - Roberto Agresti
O Apogeu de Interlagos
27.10.08 - Luiz Alberto Pandini
Micos brasileiros III
mais
12.11.08 - Carlos Chiesa
Adeus!
E se o Massa ganhar?
11.10.08 - Ernesto Rodrigues
Bate neles, Rubinho!
O bom e velho filme
mais
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Especiais » Bernardo Souza Dantas 
O 1º brasileiro nas 24 Horas de Le Mans
01 | 02
Por Luiz Alberto Pandini

A história desta entrevista começou durante uma conversa com Paulo Scali, historiador do automobilismo brasileiro e autor dos livros “Circuito da Gávea” e “Chico Landi”, no começo de 2002. Conversávamos sobre o automobilismo de outrora quando Paulo revelou: “Você sabia que o primeiro brasileiro a correr na 24 Horas de Le Mans chamava-se Bernardo Souza Dantas e que isso aconteceu em 1935?”
Eu realmente não sabia. Para mim, o pioneiro havia sido Christian Heins, que morreu durante a 24 Horas de Le Mans de 1963, quando pilotava um Alpine e liderava na sua classe. Heins sofreu um acidente ao escorregar no óleo deixado pelo motor estourado do carro de Bruce McLaren.

Fui conferir a revelação de Paulo Scali, e realmente consta a participação de Bernardo (Bernard, em algumas fontes) Souza Dantas na 24 Horas de Le Mans de 1935. Quase todos os arquivos, porém, atribuíam a ele a nacionalidade francesa. O sobrenome, porém, era o mesmo do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, que exerceu suas funções na França justamente nos anos 30, durante a expansão do nazismo. Souza Dantas, o embaixador, entrou para a história porque não teve dúvida em atropelar os trâmites burocráticos para fornecer passaportes a judeus que fugiam do nazismo. Por essa nobre atitude, chegou a receber punições e advertências, já que o governo de Getúlio Vargas inicialmente nutria simpatia pelos países do “eixo” (Alemanha, Itália e Japão) e só depois ficou claramente ao lado dos aliados (Inglaterra, França, Estados Unidos e União Soviética). Souza Dantas passou a ser conhecido como “o Oskar Schindler brasileiro” - uma alusão ao alemão que, sendo membro do partido nazista, salvou da morte milhares de judeus.

O sobrenome e a proximidade geográfica dos dois Souza Dantas me deixavam poucas dúvidas de que havia algum grau de parentesco entre eles. De qualquer maneira, não tive tempo de checar a história a fundo. Quando chegou o momento de preparar o especial sobre a 24 Horas de Le Mans, ainda em 2002, a única informação disponível sobre a participação de Souza Dantas na corrida de 35 é que ele havia corrido com um Bugatti 57 e abandonado por quebra do câmbio. Preparei o especial e fiz o registro da participação de Bernardo Souza Dantas na 24 Horas de Le Mans, chamando a atenção para a possibilidade de ele ser parente do embaixador Souza Dantas.

Essa citação motivou o historiador carioca Fábio Koifman a enviar um e-mail para o GPtotal, confirmando que Bernardo é primo do embaixador. Fábio estava prestes a lançar seu livro, “Quixote nas Trevas: o embaixador Souza Dantas e os refugiados do nazismo”, e havia entrevistado Bernard. Deu-me ainda uma informação valiosa: o telefone de Bernardo Souza Dantas. “Ele mora em São Paulo, tem quase 90 anos e um vigor total”, escreveu-me Fábio Koifman.

Empolgado, agradeci a Fábio e entrei em contato com Bernardo Souza Dantas para uma entrevista. Semanas depois, cheguei ao apartamento de Bernardo Souza Dantas, em São Paulo, para uma entrevista. Encontrei um personagem ímpar, com uma memória prodigiosa, grande vigor físico e mental, e capaz de façanhas inacreditáveis para um homem com a sua idade.

Com vocês, Bernardo Souza Dantas, o primeiro brasileiro a disputar a 24 Horas de Le Mans. (Luiz Alberto Pandini)


- Como o senhor “descobriu” o automobilismo?
- Eu comecei a dirigir quando era garoto, criança, com os carros da família. Os carros de antigamente eram umas “cristaleiras” enormes e eu dirigia olhando por baixo do volante. Quando fiz 18 anos, tirei a habilitação e pedi ao meu pai para comprar um carro. E o meu primeiro foi um Bugatti, que na época tinha a mesma importância da que a Ferrari tem hoje em dia.

- Era um belo carro esporte...
- Havia várias marcas boas, mas o Bugatti era o carro esporte mais conhecido do mundo, com várias vitórias em Grandes Prêmios. Eu comecei a fazer competições de rally, primeiro com o carro que eu tinha e depois com um outro melhor.

- O senhor se lembra em que ano foi isso?
- Foi em 1931 ou 1932. Naquela época, a 24 Horas de Le Mans era a maior corrida que se fazia, a que tinha mais prestígio no mundo além dos Grandes Prêmios. Para mim, Le Mans, tinha uma vantagem: era corrida com carro esporte. Um carro de Grand Prix já custava uma fortuna naquela época, enquanto um carro esporte era bem mais barato. O regulamento obrigava a ter todos os equipamentos de um carro esporte: equipamento elétrico para dirigir à noite, ter quatro lugares se o motor tivesse mais de 1.500 cm³ e assim por diante. E o regulamento era muito, muito rígido, no sentido de que você não podia parar para reabastecer fora do determinado tempo e outras coisas mais. Então eu mandei preparar o carro para a corrida em 1935. Foi uma experiência muito interessante, mas infelizmente eu não fui muito brilhante.
Neste momento, Bernardo Souza Dantas tornava-se o primeiro brasileiro a disputar a 24 Horas de Le Mans. Era a largada da edição de 1935
- O que o senhor se lembra dessa corrida? O senhor se lembra em que posição largou?
- Na largada das 24 Horas de Le Mans, os carros ficavam enviesados na estrada e os pilotos ficavam parados do outro lado da estrada, corriam até o carro, entravam, davam a partida e saíam (Nota do autor: esse procedimento ficou conhecido como “Largada Le Mans”. Em 1970, a largada passou a ser dada com os pilotos já dentro dos carros, e em 1971 Le Mans adotou a largada em movimento). Isto era antigamente, hoje não é mais assim.
Os carros eram colocados na beira da pista pelo número de corrida, de 1 a 60, começando pela maior cilindrada. Em 1935 havia 60 concorrentes e a minha posição era 6, por causa da cilindrada. Deram a partida e eu segui andando pela minha velocidade, porque numa corrida de 24 horas você tem que seguir um plano de corrida, senão o carro quebra na primeira hora.
Foi interessante porque o circuito tinha 13 quilômetros e você conseguia fazer esses 13 quilômetros uma vez, duas vezes, três vezes, uma vez atrás da outra com uma diferença de segundos. Você repete a mesma coisa: mesma velocidade, mesmo lugar, mudança de marcha... É uma experiência muito boa.

- Foi o senhor quem começou a corrida?
- Eu comecei a corrida. Eu e meu companheiro (o francês Roger Teillac) corremos 19 horas, inclusive com chuva na largada e durante a noite, mas aí o carro quebrou. (O Bugatti de Souza Dantas/Teillac completou 129 voltas; os vencedores deram 222.)

- Como era a sua equipe? Quantos mecânicos o senhor tinha?
- Naquela época era muito mais simples do que hoje em dia. Eram dois mecânicos para fazer o abastecimento, que acontecia a cada duas horas. Você corria duas horas, abastecia, entrava o outro companheiro, fazia duas horas e abastecia de novo. Foi assim por 19 horas até que quebrou. Realmente o carro não estava mais em condições de correr, então paramos.
O Bugatti de Souza Dantas e Teillac na 24 Horas de Le Mans de 1935.
- O senhor se lembra em que posição estava antes do carro começar a ter problemas?
- Eu cheguei a andar em 6º lugar durante um certo tempo. Depois o carro começou a quebrar e fui obrigado a parar para tentar consertá-lo. Aí caímos muito. Paramos por quebra do câmbio quando estávamos em 19º.

- O seu companheiro era francês?
- Era francês. Foi ele quem preparou o carro. Ele era mecânico especializado. Parece que tinha trabalhado na fábrica da Bugatti e depois trabalhou numa oficina especializada em Paris que só tratava de Bugatti. Ele aceitou preparar o carro e correr comigo de graça, mas ele fez alguns erros na preparação que provocaram a quebra.

- O senhor se lembra bem desse carro?
- Muito bem. Era um Bugatti modelo 57, com motor de 8 cilindros (os cilindros eram dispostos em linha e a cilindrada era 3.257 cm³). Era azul-marinho com o número branco. Todos os carros tinham número branco. Nessa corrida não era obrigado a ter o carro com as cores da nacionalidade do competidor. A cor da França era azul, mas em um tom claro.

- Depois o senhor não voltou a correr em Le Mans?
- Não, porque em 1936 não houve 24 Horas de Le Mans. Foi o único ano que não houve a corrida de Le Mans a não ser durante as guerras, porque houveram pequenas revoluções populares da Frente Popular. Houve algumas mortes, um acontecimento de grande repercussão na época, e eles cancelaram a corrida em 1936. Depois disso, eu tive um problema financeiro muito grande. Minha fortuna, que vinha da minha mãe, foi dilapidada por um camarada que pediu falência na companhia onde eu tinha o dinheiro. Fui obrigado a vender o meu carro e obrigado a viver com o que eu tinha. Parei com a competição.

01 | 02
Escreva pra Gente | Topo
 Colunas antigas de Especiais | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação